Jogos asiáticos não são de soma zero

Artigo instigante publicado no Valor Econômico de ontem (link original AQUI), que merece ser lido. Achei uma abordagem interessante:

Duas anfitriãs da alta sociedade são rivais. Ambas protegem zelosamente suas respectivas posições sociais – e podem até punir um conviva que compareça à festa da outra, abstendo-se de enviar-lhe futuros convites.
A China e os EUA parecem considerar as relações na região Ásia-Pacífico de maneira semelhante: como um jogo de soma zero. Os países estão aderindo ao chinês Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) ou à americana Parceria TransPacífico (PTP)? Será a China bem-vinda ou humilhantemente rejeitada em seu esforço visando convencer o Fundo Monetário Internacional a incluir o yuan em sua unidade contábil: os Direitos Especiais de Saque (DES)? São os EUA ainda a maior economia do mundo ou a China o ultrapassou em 2014?
Por mais tentador que seja focar tais indagações, elas são a maneira errada de encarar a economia mundial. Não há nenhuma razão pela qual alguns países não devam aderir tanto ao banco chinês (BAII) como à parceria americana (PTP) ou por que a superposição de participações não deva ser expandida ao longo do tempo – ou, na verdade, por que as anfitriãs não devam, futuramente, participar mutuamente de suas respectivas festas.
Infelizmente, não é assim que as questões atuais de governança econômica mundial estão sendo formuladas. Quando Reino Unido, Alemanha, Coreia do Sul, Austrália e outros países decidiram, em março, participar do BAII, o fato foi caracterizado (em parte devido a atitudes equivocadas de autoridades americanas) como uma deserção em massa de aliados dos EUA rumo à festa de um rival.
Mas não há nada de errado em aderir ao BAII. A Ásia necessita mais ajuda, para investimentos em infraestrutura, do que o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento podem suprir; a China pode desempenhar um papel de liderança útil; e a participação de países que respeitam elevados padrões de governança pode ajudar a evitar práticas de apadrinhamento, corrupção e danos ambientais a que grandes projetos de infraestrutura são propensos.
Da mesma forma, as negociações da PTP são por vezes caracterizadas como uma tentativa americana de isolar a China. Mas, tendo em vista o elevado volume de comércio na região da Ásia-Pacífico e seu denso conjunto de acordos comerciais, nenhum país, inclusive a China, está em vias de ser isolado. E em vista da paralisação, há anos, das negociações na Organização Mundial do Comércio, de que todos os países poderiam participar, a PTP e outras iniciativas regionais (como a Cooperação Econômica Ásia Pacífico e várias áreas de livre comércio intra-Ásia) são melhores do que nada.
As relações cambiais são outra área onde o pensamento de soma zero prevalece. Em 9 de abril, o Departamento do Tesouro dos EUA divulgou o relatório semestral cobrado pelo Congresso para identificar os países envolvidos em “manipulação de moedas”. Desta vez, nem a China nem quaisquer outros países foram considerados culpados. Mas autoridades do Tesouro acreditam que precisam manter a pressão, por temer que o Congresso cumpra as ameaças de punir supostos manipuladores de moedas, frustrando a TPP e outros acordos comerciais.
Depois, há os DES. A cada cinco anos, o FMI reconsidera sua composição, que é atualmente definida em termos de dólares, euros, ienes e libras. É improvável que a moeda chinesa, o yuan, seja incluído na cesta agora, porque não é “livremente utilizável”. E, embora isso seja provavelmente citado como uma derrota para a China, não deveria ser assim. A questão é de escassa relevância.
Pode parecer que tudo isso poderia ser considerado como nada mais que um inofensivo esporte de massas coberto pela mídia. Mas, na medida em que um foco indevido no ranking dos países torna-se uma barreira a uma política sensata, isso pode causar danos reais.
Esse é o caso no que diz respeito à paralisada reforma dos pesos das cotas de participação no FMI, um problema em que as posições no ranking têm alguma importância, mas com um resultado de soma não zero. Sob qualquer referencial de relevância econômica, a China e outras grandes economias emergentes há muito deveriam merecer cotas bem maiores no FMI, o que implicaria maiores contribuições financeiras e maiores pesos de voto.
Mas as ampliações de participação não precisam, necessariamente, acontecer à custa dos EUA. Os países europeus é que estão excessivamente representados. Apesar da relutância europeia em ceder terreno, o presidente dos EUA, Barack Obama, conseguiu intermediar essa realocação de cotas no FMI na cúpula do G-20 em Seul, em novembro de 2010. Cinco anos depois, o Congresso dos EUA ainda está sustando a reforma de cotas no FMI – não porque ela implicaria alguma perda de poder ou custo para os contribuintes americanos, mas porque muitos membros não querem dar a Obama nada que ele peça.
Trinta anos atrás, tudo o que o Ocidente queria era que a China se tornasse uma economia capitalista. Foi o que os chineses fizeram – com um sucesso espetacular. As regras do jogo agora exigem que seja dada à China maior participação na governo das instituições internacionais.
Abrir espaço na mesa ajudará os demais, todos nós, no “jogo” que mais importa: paz e prosperidade mundiais. Se o Congresso não aprovar a reforma de cotas no FMI, os EUA dificilmente poderão culpar os chineses por assumir, eles próprios, iniciativas como o BAII.
Frequentemente, ouvimos referências a “hard power” (poder militar) e “soft power” (a atratividade das ideias, cultura, sistema econômico etc de um país). Mas há um outro tipo de poder. Desde Bretton Woods, os EUA detiveram o poder de liderança mundial. Durante o período entre guerras (1919-1939), os americanos estavam despreparados para assumir aquele manto; mas a Segunda Guerra Mundial ensinou-lhes o custo do isolacionismo e eles puseram-se à altura do desafio em 1944.
Setenta anos depois, mesmo após enormes erros de política externa americana no Iraque e em outros países, e mesmo após o PIB chinês ter, supostamente, ultrapassado o dos EUA (pelo menos em termos de paridade de poder de compra), o mundo continua disposto a ser liderado pelos EUA, inclusive no que diz respeito aos temas cruciais de comércio e reforma do FMI. Se aqueles que insistem em ficar “computando saldos de gols” prevalecerem, os EUA não serão capazes de exercer a liderança de que o mundo necessita. E o mundo procurará outro país

E a Dilma Ruinsseff achando que o banco dos BRICS ou o BNDES são o máximo da civilização…

2015-03-25 10.48.27

Pobre anta.

2015-03-25 22.16.22

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