John Forbes Nash, Jr (1928-2015)

No sábado aproveitei para ficar “off-line” e colocar em dia a leitura de alguns livros muito interessantes que estavam na fila no meu kindle. Com isso, só ontem li sobre a morte de John Nash.

Trata-se de mais um daqueles acontecimentos estranhos, que não têm rigorosamente nenhuma relação com o nosso dia-a-dia, com nossa vida cotdiana – mas que, ainda assim, me deixou profundamente triste. Admiro muito a trajetória do brilhante matemático que mudou alguns conceitos fundamentais da Teoria dos Jogos, em meio às dificuldades causadas pela sua esquizofrenia, mas especialmente admiro a humildade intelectual de um verdadeiro gênio.

John_Forbes_Nash,_Jr._by_Peter_Badge

O mês de maio, a despeito de ser o mês do meu aniversário, está se tornando um mês maldito.
Em 2010, morreu o brilhante Ronnie James Dio (16/05/2010).
No último dia 14/05, morreu B.B. King.
E agora morre John Nash?
Que zica!!

Foram feitos alguns bons obituários sobre Nash, entre eles o do Financial Times, o do New York Times, o da TIME etc. O Valor fez um bom resumo sobre alguns fatos marcantes da vida de Nash:

O matemático John Nash morreu no sábado (23) aos 86 anos em um acidente de táxi em Nova Jersey, nos EUA. Nash é vencedor do Prêmio Nobel de Economia e teve sua vida retratada nos cinemas por Russel Crowe no filme “Uma Mente Brilhante”.
Nash estava no carro com sua mulher, Alicia, 82, que também morreu. Segundo um policial local citado pelo site do canal ABC News, o motorista do táxi que levava o casal perdeu o controle do veículo em uma estrada e colidiu contra uma grade de proteção.
O policial disse ainda que a hipótese inicial é de que nenhum dos dois usava o cinto de segurança no momento do acidente, já que seus corpos foram lançados do carro.
O casal vivia em Princeton, em Nova Jersey, onde Nash era pesquisador na área de matemática da prestigiosa Universidade de Princeton.
Nash ganhou o Nobel de Economia em 1994. Nesta semana, Nash foi à Noruega para receber o Prêmio Abel de matemática por seu trabalho com equações diferenciais parciais.
Sua vida, incluindo a batalha contra a esquizofrenia e paranoia, foi retratada por Russell Crowe no drama de 2001 “Uma Mente Brilhante”, que ganhou quatro Oscars, incluindo o de melhor filme.
[…] Ter a vida transformada em uma cinebiografia trouxe à tona esqueletos do passado do matemático. Entre 2001, quando o filme estreou, e 2002, quando ganhou quatro dos oito Oscar a que concorreu (melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor diretor e melhor atriz coadjuvante), o matemático que sofria com esquizofrenia viu seu passado ser destrinchado pela imprensa.
Descobriu-se que ele teria tido experiências homossexuais, o que ele negou, que teve um filho fora do casamento com uma ex-enfermeira, o que é verdade, e que o filho que teve em seu casamento também sofre de esquizofrenia, o que também foi confirmado.
O site do jornalista Matt Drudge, famoso pela divulgação do escândalo Monica Lewinsky, revelou ainda que Nash escreveu comentários antissemitas numa carta de 1967 reproduzida na própria biografia: “A raiz de todo o mal, pelo menos em minha vida pessoal, são os judeus”.
Em outras ocasiões, teria se referido a uma tal “conspiração Krypto-Sionista”.
A polêmica levou Nash a aceitar convite do “60 Minutes”, uma das principais revistas televisivas dos EUA, para se defender, em março de 2002. Nela, ele conta que começou a ouvir vozes aos 30 anos e que eram “como anjos”.
Ele disse que teve ideias estranhas durante a época do auge da paranoia, um sintoma comum da doença, mas negou que fosse antissemita.
Ele revelou ainda que ficara próximo do filho que teve fora do casamento e que deu a ele parte dos royalties do filme. Falou também de seu outro filho, Johnny, que na época já exibia sintomas da esquizofrenia.
A acusação chegou a ameaçar o sucesso do filme em Hollywood, um dos setores da sociedade norte-americana em que a comunidade judaica é mais atuante. Na época, especulava-se que o filme perderia todos os Oscars.
A principal defesa dos envolvidos no filme foi de que as afirmações de Nash foram feitas no auge do período de 35 anos em que ele mais sofreu as consequências da esquizofrenia.
“Na mesma época em que escreveu isso, Nash pensava que era o messias, o imperador da Antártida e a reencarnação de Jó”, disse à época Sylvia Nasar, autora da biografia do matemático -“Uma Mente Brilhante” (editora Record, 2002).

BEIJING, CHINA - SEPTEMBER 28:  (CHINAOUT) American mathematician John Forbes Nash looks onduring day one of the 2011 Nobel Laureates Beijing Forum at the National Museum on September 28, 2011 in Beijing, China. The 2011 Nobel Laureates Beijing Forum will kick off on September 28 and last to September 30 with the theme of Innovation and Development.  (Photo by ChinaFotoPress/Getty Images)
BEIJING, CHINA – SEPTEMBER 28: (CHINAOUT) American mathematician John Forbes Nash looks onduring day one of the 2011 Nobel Laureates Beijing Forum at the National Museum on September 28, 2011 in Beijing, China. The 2011 Nobel Laureates Beijing Forum will kick off on September 28 and last to September 30 with the theme of Innovation and Development. (Photo by ChinaFotoPress/Getty Images)

Eu uso a mais famosa cena do filme “Uma mente brilhante” (vídeo abaixo) em algumas aulas, para mostrar aos meus alunos o conceito básico do equilíbrio de Nash, mas evidentemente alertei que a rigor a cena NÃO retrata um equilíbrio de Nash. Contudo, o filme (particularmente a cena do bar) ajuda a “apresentar” não apenas um conjunto de conceitos bastante complexos a quem jamais ouviu falar do tema – e possivelmente nunca mais terá a chance de estudar o assunto – mas tem o mérito de contar a vida de um gênio que, não fosse personagem do filme, poderia ficar relativamente desconhecido. O filme é bem feito, e o Russel Crowe está excelente no papel de John Nash (infelizmente o mesmo não pode ser dito da atriz que representou a mulher de Nash, uma mulher brilhante mas que no filme é apagada demais).

Recomendo, aliás, a entrevista concedida por Sylvia Nasar ao Washington Post. Ela é a autora do livro “Uma mente brilhante”, que deu origem ao filme que tornou John Nash conhecido fora do ambiente acadêmico. Sério, leia. Excelente entrevista mesmo.

Jogos asiáticos não são de soma zero

Artigo instigante publicado no Valor Econômico de ontem (link original AQUI), que merece ser lido. Achei uma abordagem interessante:

Duas anfitriãs da alta sociedade são rivais. Ambas protegem zelosamente suas respectivas posições sociais – e podem até punir um conviva que compareça à festa da outra, abstendo-se de enviar-lhe futuros convites.
A China e os EUA parecem considerar as relações na região Ásia-Pacífico de maneira semelhante: como um jogo de soma zero. Os países estão aderindo ao chinês Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) ou à americana Parceria TransPacífico (PTP)? Será a China bem-vinda ou humilhantemente rejeitada em seu esforço visando convencer o Fundo Monetário Internacional a incluir o yuan em sua unidade contábil: os Direitos Especiais de Saque (DES)? São os EUA ainda a maior economia do mundo ou a China o ultrapassou em 2014?
Por mais tentador que seja focar tais indagações, elas são a maneira errada de encarar a economia mundial. Não há nenhuma razão pela qual alguns países não devam aderir tanto ao banco chinês (BAII) como à parceria americana (PTP) ou por que a superposição de participações não deva ser expandida ao longo do tempo – ou, na verdade, por que as anfitriãs não devam, futuramente, participar mutuamente de suas respectivas festas.
Infelizmente, não é assim que as questões atuais de governança econômica mundial estão sendo formuladas. Quando Reino Unido, Alemanha, Coreia do Sul, Austrália e outros países decidiram, em março, participar do BAII, o fato foi caracterizado (em parte devido a atitudes equivocadas de autoridades americanas) como uma deserção em massa de aliados dos EUA rumo à festa de um rival.
Mas não há nada de errado em aderir ao BAII. A Ásia necessita mais ajuda, para investimentos em infraestrutura, do que o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento podem suprir; a China pode desempenhar um papel de liderança útil; e a participação de países que respeitam elevados padrões de governança pode ajudar a evitar práticas de apadrinhamento, corrupção e danos ambientais a que grandes projetos de infraestrutura são propensos.
Da mesma forma, as negociações da PTP são por vezes caracterizadas como uma tentativa americana de isolar a China. Mas, tendo em vista o elevado volume de comércio na região da Ásia-Pacífico e seu denso conjunto de acordos comerciais, nenhum país, inclusive a China, está em vias de ser isolado. E em vista da paralisação, há anos, das negociações na Organização Mundial do Comércio, de que todos os países poderiam participar, a PTP e outras iniciativas regionais (como a Cooperação Econômica Ásia Pacífico e várias áreas de livre comércio intra-Ásia) são melhores do que nada.
As relações cambiais são outra área onde o pensamento de soma zero prevalece. Em 9 de abril, o Departamento do Tesouro dos EUA divulgou o relatório semestral cobrado pelo Congresso para identificar os países envolvidos em “manipulação de moedas”. Desta vez, nem a China nem quaisquer outros países foram considerados culpados. Mas autoridades do Tesouro acreditam que precisam manter a pressão, por temer que o Congresso cumpra as ameaças de punir supostos manipuladores de moedas, frustrando a TPP e outros acordos comerciais.
Depois, há os DES. A cada cinco anos, o FMI reconsidera sua composição, que é atualmente definida em termos de dólares, euros, ienes e libras. É improvável que a moeda chinesa, o yuan, seja incluído na cesta agora, porque não é “livremente utilizável”. E, embora isso seja provavelmente citado como uma derrota para a China, não deveria ser assim. A questão é de escassa relevância.
Pode parecer que tudo isso poderia ser considerado como nada mais que um inofensivo esporte de massas coberto pela mídia. Mas, na medida em que um foco indevido no ranking dos países torna-se uma barreira a uma política sensata, isso pode causar danos reais.
Esse é o caso no que diz respeito à paralisada reforma dos pesos das cotas de participação no FMI, um problema em que as posições no ranking têm alguma importância, mas com um resultado de soma não zero. Sob qualquer referencial de relevância econômica, a China e outras grandes economias emergentes há muito deveriam merecer cotas bem maiores no FMI, o que implicaria maiores contribuições financeiras e maiores pesos de voto.
Mas as ampliações de participação não precisam, necessariamente, acontecer à custa dos EUA. Os países europeus é que estão excessivamente representados. Apesar da relutância europeia em ceder terreno, o presidente dos EUA, Barack Obama, conseguiu intermediar essa realocação de cotas no FMI na cúpula do G-20 em Seul, em novembro de 2010. Cinco anos depois, o Congresso dos EUA ainda está sustando a reforma de cotas no FMI – não porque ela implicaria alguma perda de poder ou custo para os contribuintes americanos, mas porque muitos membros não querem dar a Obama nada que ele peça.
Trinta anos atrás, tudo o que o Ocidente queria era que a China se tornasse uma economia capitalista. Foi o que os chineses fizeram – com um sucesso espetacular. As regras do jogo agora exigem que seja dada à China maior participação na governo das instituições internacionais.
Abrir espaço na mesa ajudará os demais, todos nós, no “jogo” que mais importa: paz e prosperidade mundiais. Se o Congresso não aprovar a reforma de cotas no FMI, os EUA dificilmente poderão culpar os chineses por assumir, eles próprios, iniciativas como o BAII.
Frequentemente, ouvimos referências a “hard power” (poder militar) e “soft power” (a atratividade das ideias, cultura, sistema econômico etc de um país). Mas há um outro tipo de poder. Desde Bretton Woods, os EUA detiveram o poder de liderança mundial. Durante o período entre guerras (1919-1939), os americanos estavam despreparados para assumir aquele manto; mas a Segunda Guerra Mundial ensinou-lhes o custo do isolacionismo e eles puseram-se à altura do desafio em 1944.
Setenta anos depois, mesmo após enormes erros de política externa americana no Iraque e em outros países, e mesmo após o PIB chinês ter, supostamente, ultrapassado o dos EUA (pelo menos em termos de paridade de poder de compra), o mundo continua disposto a ser liderado pelos EUA, inclusive no que diz respeito aos temas cruciais de comércio e reforma do FMI. Se aqueles que insistem em ficar “computando saldos de gols” prevalecerem, os EUA não serão capazes de exercer a liderança de que o mundo necessita. E o mundo procurará outro país

E a Dilma Ruinsseff achando que o banco dos BRICS ou o BNDES são o máximo da civilização…

2015-03-25 10.48.27

Pobre anta.

2015-03-25 22.16.22