Socialismo e Liberalismo, por José Guilherme Merquior

José Guilherme Merquior é, na minha opinião, o mais brilhante intelectual brasileiro – ao lado de Rui Barbosa e Roberto Campos.

Hoje, revisando alguns links e arquivos “abandonados” no laptop dei de cara com este texto curto (de 1987), mas capaz de resumir de forma brilhante algumas das mais relevantes diferenças entre o socialismo e o liberalismo.

José Guilherme Merquior

Ao invés de comentar, deixo o brilhante Merquior falar por si mesmo:

– SOCIALISMO E DEMOCRACIA –

O socialismo, em suas origens intelectuais, não era uma teoria política e sim uma teoria econômica. Mais precisamente, uma teoria que procurava reorganizar a sociedade industrial. Os primeiros ideólogos socialistas — os que Engels chamou de “socialistas utópicos” — simplesmente não cogitavam de instituições políticas.

O socialismo só se politizou com Marx, que fundiu a crítica do liberalismo econômico com a tradição revolucionária e igualitária do comunismo.

Marx nunca valorizou os direitos civis (de expressão, profissão, associação, etc.). Ao contrário, chegou mesmo a condená-los, vendo neles mero instrumento de exploração de classe. O socialismo marxista, e muito especialmente o praticado pelos regimes comunistas, sempre refletiu esse menosprezo pelos direitos civis.

Em Lenin, a indiferença de Marx para com a liberdade civil torna-se verdadeira hostilidade aos direitos civis e políticos. Hoje, ninguém mais duvida de que nos regimes comunistas, ninguém consegue, ou tenta, tornar compatíveis socialismo e democracia.

Para tornar compatíveis socialismo e democracia, o socialismo precisa renunciar ao dirigismo econômico, à dominação de toda economia pelo Estado. Isso foi o que fez a social-democracia, desde suas primeiras experiências na Escandinávia. Compreenderam que o dirigismo político provoca ineficiência e despotismo, já que concentra todas as grandes decisões econômicas nas mãos dos que já tem o comando político. Essa autonomia na esfera socialista nunca foi admitida pelos marxistas, embora Trotsky tenha observado que, após o crescimento industrial, a qualidade da produção está fora do alcance do controle burocrático da economia.

– SOCIAL-DEMOCRACIA –

Kolakowski baseia sua concepção da social-democracia em alguns valores e regras gerais que se podem resumir assim:

1) Adesão aos princípios democráticos e constitucionais da sociedade aberta;

2) Busca da igualdade, por meio do “Estado protetor”, que atenda às necessidades elementares da população, cuide da velhice e da doença e promova, em clima de liberdade, a igualdade de oportunidades;

3) Orientação oficial da economia;

4) Reconhecimento da impossibilidade de tornar inteiramente compatíveis o necessário planejamento e a desejável autonomia.

A social-democracia foi perdendo terreno para o moderno liberalismo, entre outras razões, em conseqüência da revolta no mundo atual contra o estatismo econômico. Por outro lado, a recessão econômica e o desemprego em vários países europeus fizeram com que os social-democratas se afastassem de suas bases sindicalistas.

Na Inglaterra, por exemplo, a vitória de Margareth Thatcher foi em grande parte conseqüência da rebelião do operariado contra a política austera e estatizante dos social-democratas. Na prática, os social-democratas eram forçados à negociação entre empresários e trabalhadores, o que representava o reconhecimento dos interesses do capital, traindo suas origens social-marxistas.

– RENASCIMENTO DOS LIBERALISMOS –

“Um conservador”, disse Irving Kristol, “não passa de um liberal assaltado pela realidade”. Na realidade, não é bem assim. A palavra liberal serve hoje para cobrir diferentes comportamentos e pensamentos políticos.

Em outros tempos, o liberalismo estava na defensiva porque os injustos regimes liberais eram comparados com o ideal socialista de liberdade e de justiça. Mas, depois da Segunda Guerra Mundial, quando o socialismo de Stalin foi implantado autoritariamente, as mazelas da realidade socialista foram ficando mais visíveis. O liberalismo passou à ofensiva na produção teórica das universidades e dos pensadores porque o socialismo está longe de ter as mãos limpas e o coração leve.

Lembra Dahrendorf que o liberal raramente precisa envergonhar-se das realidades criadas em seu nome. Ou, quando precisa, resta-lhe o consolo de verificar que seus adversários de esquerda possuem mais esqueletos dentro do armário.

A sociedade moderna, tecnificada e consumista, não requer apenas justiça: exige também eficiência; e a eficiência, por sua vez, implica liberdade econômica.

O neoliberalismo de Hayek tem marcado muitos pontos na denúncia do estatismo econômico, por exemplo, quando se refere à grande expansão de empresas estatais.

É irrealista, no entanto, quando pensa que o Estado pode deixar de dirigir as finanças ou planejar a economia. Importante é que ele não a controle. No seu famoso livro O Caminho da Servidão, Hayek levantou a tese de que o envolvimento do Estado na sociedade e na economia, mesmo por intervenções isoladas, redundaria, a longo prazo, em totalitarismo. No entanto, depois de quase cinqüenta anos, desde a guerra mundial, vemos que Hayek se enganou. No Ocidente e no Japão, a ação do Estado ajudou a evitar o totalitarismo. O Estado, às vezes assistencial, contribuiu de modo decisivo para neutralizar movimentos políticos socialistas autoritários.

No Brasil, temos, ao mesmo tempo, Estado demais e Estado de menos. Demais na economia, onde o Estado emperra, desperdiça, onera e atravanca. De menos, no plano social, onde são gritantes e inadmissíveis tantas carências em matéria de saúde, educação e moradia. Por isso há muitas vezes um diálogo de surdos: de um lado liberais se esquecem, ao condenar a ação do Estado, de ressalvar nossas tremendas necessidades no campo assistencial; de outro, os que se dizem defensores “do social” condenam todas as posições liberais.

– O MODERNO LIBERALISMO SOCIAL –

O moderno liberalismo social, doutrina do PL, não deve querer dizer apenas menos Estado; quer dizer sobretudo mais liberdade. E o Estado contido pode ser um poderoso instrumento para promover liberdade para todos.

Keynes, que tanto transformou o liberalismo econômico, recusou-se a aceitar tanto a opção leninista (sacrificar a democracia para acabar com o capitalismo) quanto a fascista (sacrificar a democracia para salvar o capitalismo). Mas alguns liberais são frios em matéria de fervor democrático. Hayek, por exemplo, chegou a imaginar alternativas que atuassem na base de princípios liberais. Para o neoliberalismo de direita, a liberdade econômica, além de necessária, é suficiente.

Nosso melhor liberalismo não deve ter um permanente pavor do Estado; deve sim — e com crescente vigor — buscar a limitação da ação do Estado a seus objetivos reais. Este é o liberalismo social que o PL defende.

Liberalismo com preocupações sociais é a única doutrina política atual que leva profundamente a sério o ideal democrático no sentido rigoroso da palavra, de governo do povo. Os socialismos de Estado dizem ser democráticos, mas ninguém se atreveria a dizer que praticaram a democracia como forma de governo. A democracia liberal social é realmente democracia, variando apenas no grau do seu teor democrático. O argumento liberal não precisa fugir à realidade; mas o antiliberalismo socialista só consegue basear-se no idealismo e em promessas sempre refeitas e adiadas de um paraíso de liberdade.

– LIBERDADE E IGUALDADE –

A verdadeira democracia liberal tem duas paixões — as paixões de Rousseau: liberdade e igualdade.

Por volta de 1850 ou 60, entendia-se a igualdade de acordo com os méritos de cada um. Já definira Rui Barbosa que a verdadeira igualdade consistia em aquinhoar-se desigualmente a cada um, na proporção em que se desigualam. De lá pra cá, tende a prevalecer uma visão “igualitária” de igualdade. Todos são iguais.

Ao mesmo tempo, a liberdade ganha uma versão libertária que tem a anarquia no seu horizonte natural.

Esse é o maior desafio que o liberalismo tem e terá de enfrentar. Do socialismo, o liberalismo só precisa temer a força, não o poder de convencer, pois ele está muito desgastado. Todavia, em nossas sociedades cada vez mais permissivas e reivindicatórias, o liberalismo não está completamente a salvo da perversão interna de seu próprio ânimo: o velho nobre espírito de igualdade.

Estratégias de empresas para a base da pirâmide

Leio no site da FEA/USP (aqui) sobre o lançamamento de um livro que me parece bastante interessante (grifos meus):

Uma pesquisa realizada com cerca de 40 stakeholders (colaboradores, clientes, fornecedores e distribuidores) procurou analisar as estratégias utilizadas por algumas empresas para desenvolver negócios e atrair consumidores da base da pirâmide econômica, nas comunidades pacificadas do Rio de Janeiro. O resultado desse trabalho está detalhado no livro “Estratégias de Empresas para a Base da Pirâmide” (Atlas), que será lançado no dia 17 de junho, às 19h, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP).

Com o subtítulo “Técnicas e ferramentas para alcançar os clientes e fornecedores da nova classe emergente”, a obra é fruto de um trabalho de campo, realizado entre julho de 2012 e janeiro de 2013. Foram realizadas entrevistas com cerca de 40 stakeholders relacionados a um grupo pré-selecionado de empresas de grande porte presentes nas comunidades pacificadas, de setores como serviços financeiros, beleza, serviços de eletricidade, e capacitação e orientação empresarial. Os entrevistados possuíam cargo de diretoria ou gerência; eram ligados a departamentos, setores ou áreas de novos negócios voltados para as comunidades de base da pirâmide; ou eram clientes, fornecedores ou distribuidores.

Segundo os autores, a escassez de informações na literatura sobre as estratégias das empresas voltadas para a nova classe emergente que vive nas comunidades onde foram instaladas as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), no Rio de Janeiro, foi o que motivou a realização da pesquisa, sobretudo no que tange aos impactos econômicos e sociais gerados pela entrada das empresas nessas localidades. Outros aspectos decisivos foram o crescimento do poder aquisitivo do brasileiro, a importância da população de baixa renda no contexto econômico e social do RJ e o maior interesse das empresas em conhecer e desenvolver negócios nessas regiões. Entre 2008 e 2013, o Estado do Rio recebeu 38 UPPs, que atendem cerca de 1,3 milhão de pessoas.

Na análise dos resultados, observou-se que as empresas vêm aplicando pesquisas para identificar os padrões de consumo das comunidades, visando lançar produtos mais adaptados, conversando com os moradores, entrevistando vizinhos e conhecidos para conceder crédito, e mantendo relação direta com consumidores e promotores. A ideia é desenhar estratégias de aproximação, articulação e sensibilização que considerem as carências do público-alvo. No entanto, os autores concluíram que as estratégias de aproximação são feitas ainda de maneira tímida.

O estudo buscou, ainda, identificar as principais mudanças nos produtos e serviços da empresa, se foi lançado algum produto ou serviço novo, se a cadeia produtiva sofreu modificações e se o modelo de negócio sofreu alterações. No tocante aos produtos e serviços, os autores afirmam que “as observações sobre a adequação do produto reforçam a conclusão de que ela é fundamental para as empresas, seja através da adaptação da linguagem, da comunicação, da estrutura física, da forma de pagamento, ou da flexibilização de exigências burocráticas”.

Com relação a ensinar os clientes a utilizar o produto, estimulá-los a instalar os produtos e permitir testar antes de comprar, os autores constataram que as empresas vêm tendo atuação acanhada, perdendo assim a oportunidade de validar a adequação do produto ao público-alvo com a finalidade de realizar algum refinamento necessário.

Estratégias de Empresas para a Base da Pirâmide – Técnicas e ferramentas para alcançar os clientes e fornecedores da nova classe emergente
Autores: Fernando Filardi e Adalberto Fischmann
Editora Atlas – 2015
Páginas: 184

Não li o livro, portanto não posso emitir qualquer opinião. Contudo, o tema me parece interessante e relevante.

livro base piramide

As empresas precisam monitorar frequentemente os hábitos de consumo de seus potenciais clientes, e muito foi dito e escrito sobre uma tal “nova classe média” no Brasil nos últimos anos. Infelizmente, houve a produção em massa de enormes quantidades de bobagens – como por exemplo dizer que um sujeito que ganhe cerca de R$ 500,00 mensais seja “classe média”. Eu já tratei desse assunto aqui no blog algumas vezes.

Assim, é preciso que pessoas sérias tratem desse assunto, porque se depender de uns e outros boçais a serviço do (des)governo, só lixo será produzido.

NOVO: para além da dicotomia entre o ruim e a escória

O vídeo tem quase 2 horas de duração, mas vale a pena: Luiz Felipe Pondé conduz uma discussão num evento do Partido NOVO, que trata prioritariamente de reforma política e “de brinde” oferece algumas dicas de referências liberais como Thomas Sowell e Theodore Dalrympe.

Alguns pontos fundamentais que o Pondé aborda, na minha opinião, são educação e cultura. Como eu já escrevi diversas vezes aqui no blog, é preciso acabar com essa conversa fiada (e errada) que escolas e (muitas) universidades incutem na cabeça de jovens imaturos e sem base cultural. Eu vejo, no ensino superior, gente que chega com idéias formadas de que o capitalismo é ruim – mas, assim como aquela anta paquidérmica da Luciana Genro, uma ignorante ridícula, não consegue manter suas opiniões quando confrontada com fatos.

Vale a pena ver:

A propósito: convido o leitor a conhecer as propostas do Partido NOVO.
Para mim está cada dia mais claro: o Brasil não corre nenhum risco de dar certo enquanto houver esta dicotomia entre PT e PSDB. Trata-se de uma briga entre o ruim (PSDB) e a escória (PT).

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Mais uma comunista que não leu o Manifesto Comunista

Recebi por e-mail o link para o blog de uma comunista que não leu e/ou não entendeu o Manifesto Comunista de Marx e Engels. Eis aqui o que a brilhante pensadora escreveu logo no segundo parágrafo de um texto disfarçado de um amontoado de bobagens:

Os malucos que tanto me xingaram não sabem, imagino, que Marx acreditava em uma sociedade cooperativa, livre de exploração e comandada pelo trabalhador. Marx nunca falou na apropriação dos meios de produção pelo estado. Marx não estava nem aí para o estado.

O grifo é meu nas últimas duas sentenças, pois quero ressaltar um trecho do Manifesto Comunista que prova que a iluminada não se deu ao trabalho de chegar até a página 42 DESTA EDIÇÃO EM PDF (simplificada e traduzida, para facilitar a vida de quem tem dificuldades na compreensão de textos) da obra mais importante (e básica!) para aqueles que desejem defender o comunismo:

(…) nos países mais adiantados, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas em prática:
1. Expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado. (…)
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo.
6. Centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte.
7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento de terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral.

Notem que transcrevi apenas e tão somente os itens que usam de forma clara e inequívoca o termo “Estado”.
A iluminada escreveu que Marx “nunca falou na apropriação dos meios de produção pelo estado. Marx não estava nem aí para o estado“.

Ela nem se deu ao trabalho de ler o Manifesto Comunista?
Sério, não precisava nem entender, bastava LER!

E olha que o Manifesto Comunista é um livro curtinho, fácil de entender (para quem sabe ler, obviamente) e fácil de conseguir (coloquei o link para o download do PDF lá em cima). Seria ultrajante sugerir a uma pessoa que não entendeu sequer o Manifesto Comunista a leitura de O Capital, uma obra bem mais volumosa e complexa.

Mas, como sabiamente disse Ronald Reagan, em 25 de Setembro de 1987:

“How do you tell a Communist? Well, it’s someone who reads Marx and Lenin. And how do you tell an anti-Communist? It’s someone who understands Marx and Lenin.”

2014-07-06 21.07.57

Ronald Harry Coase (1910-2013)

Há tempos eu venho dizendo que o mundo está emburrecendo.

Não apenas o Brasil, devastado por mais de 10 anos de PTralhismo, mas o mundo todo.

No último dia 01/09, o mundo perdeu mais um cara genial: Ronald Coase.

Primeiro, reproduzo excelente texto do Financial Times.

A seguir, um textículo meu mesmo, que redigi na época do Mestrado.

Uma singela homenagem a este gênio.

Ronald Coase: Nobel Prize winning economist who explored why companies exist

Ronald Coase, who has died at the age of 102, played a key part in developing the intellectual arguments behind the market revolution that swept round the world in the 1980s.

Yet when he won the Nobel Prize for economics in 1991, it was for two articles published almost a quarter of a century apart. The first, “The Nature of the Firm ”, was conceived while he was an undergraduate on a trip to America and for the first time provided a rigorous explanation of why companies exist. People created companies , said Coase, to avoid what he called “marketing costs”.

His second influential paper, “The Problem of Social Cost”, came 23 years later in 1960, and showed that the case for government intervention in the marketplace was far weaker than economists had previously thought.

Ronald Harry Coase, the son of two Post Office workers who both left school at the age of 12, was born in the London suburb of Willesden in 1910. Condemned to wear leg irons as a boy, he won a late scholarship to Kilburn Grammar School and then went to the London School of Economics. There Arnold Plant, professor of commerce, introduced him to Adam Smith’s “invisible hand” and helped him win a travelling scholarship to the US to investigate the structure of American industry.

In classical economic theory, agents moved effortlessly towards equilibrium in a frictionless world. In reality, goods are bought and sold in marketplaces – sometimes literal, sometimes virtual – and economic life is dominated by corporations. Classical theories ignored or looked through these institutional arrangements. Economists saw only the investors, employees and customers who obtained, without cost or intermediation, the information they needed to do the business of the market economy.

The need to resolve that tension between model and reality determined the direction of Coase’s career. His key insight was that the costs of making transactions define the nature and shape of economic institutions. In a lecture on his return in 1932, Coase argued that the boundaries of the modern company were determined by the relative costs of market organisation and hierarchical direction.

For example, an assembly line demanded hierarchy because the costs of bargaining between each successive stage of production would be too great. A wheel fits only on an axle for which it has been designed: command and control is superior to markets in these idiosyncratic transactions. But General Motors, for instance, might buy in its tyres because the savings from competitive tendering would be greater than the benefits of ownership. Half a century later, “make” versus “buy” decisions would be routine case studies in business schools. Coase was the first to see how this issue defined the shape of the modern corporation.

Coase returned to Britain first as a lecturer at Dundee and then to LSE, where he published his ideas in 1937. In the same year, he married Marian Ruth Hartung. The couple had no children.

“The Nature of the Firm” made little initial impact. The second world war broke out soon after and Coase joined the talented group of young economists who were recruited to help the organisation of war production. After the war, Coase returned to the LSE and in the 1950s he published “Broadcasting: A Study in Monopoly”, which attacked the position then held by the BBC.

A few years later, ITV was set up but Coase went on to advocate radio spectrum sales on both sides of the Atlantic. He believed that if radio spectrum were treated as property to be sold to the highest bidder, it would be used more efficiently. It took many years for the idea to be adopted as policy in either Britain or the US.

From 1951, he spent some years in relative obscurity studying public utilities at the University of Buffalo. This led to a fuller reflection on the ways in which institutions determined economic outcomes and prompted Coase to write the article that made his reputation.

On the surface, “The Problem of Social Cost” describes a new approach to the externalities that had troubled an earlier generation of economists – the smoking chimneys and suchlike, when production interfered with others. Yet the amount of smoke would be the same whether the chimney owner had to compensate his neighbours for the damage or the neighbours bribed the factory to restrain its output.

This seemed to have a startling consequence. The reason for imposing liability on the factory owner is not justice – the polluter should pay – but efficiency: it is cheaper for the owner to pay the victims than for those who suffer to organise themselves to negotiate with the owner. Legal liability rules should be assessed not for their fairness but for the relative costs they impose.

This approach, drawn from his work, has wide-ranging implications. Market forces drive not only the transactions undertaken within a framework of economic institutions but also the design of economic institutions themselves. If market outcomes are generally efficient, a presumption of efficiency applies not just to the outcomes of the market economy but also to the social framework from which these outcomes emerge – at least at the micro level.

In 1964, Coase was appointed to a chair at Chicago, where he spent the remainder of his career. “Institutions matter” has belatedly become a mantra of economists. More than any other figure in economic thought, he demonstrated how and why that was so.

Ronald Coase

O principal objetivo desta “reflexão” é conciliar os pressupostos das teorias da Economia Institucional com os objetivos da Dissertação de Mestrado do autor. Para tanto, procede–se a uma breve revisão da literatura sobre a Economia Institucional. Na seqüência, apresentam–se os objetivos (gerais e específicos) da Dissertação de Mestrado do autor para, finalmente, verificar se é plausível vislumbrá–la sob a ótica da teoria vista inicialmente.

1. A ECONOMIA INSTITUCIONAL

A principal proposição da Nova Economia Institucional (NEI) é que as instituições sociais e econômicas se formam para resolver, com níveis distintos de eficiência em diferentes sociedades, o problema da cooperação entre os indivíduos. A questão de porque em alguns países a história produziu sociedades com matrizes institucionais mais consistentes com o desenvolvimento econômico do que em outros é um dos temas mais explorados pela literatura internacional recente inspirada pela NEI (NORTH, 1989, p.1328). Uma conceituação mais abrangente sobre a Economia Institucional foi dada pelo mesmo autor:

It is the admixture of formal rules, informal norms, and enforcement characteristics that shapes economic performance. While the rules may be changed overnight, the informal norms usually change only gradually. Since it is the norms that provide legitimacy to a set of rules, revolutionary change is never as revolutionary as its supporters desire and performance is different from what is anticipated. And economies that adopt the formal rules of another economy will have very different performance characteristics than the first economy because of different informal norms and enforcement. The implication is that transferring the formal political e economic rules of successful Western market economies to Third World and Eastern European economies is not a sufficient condition for good economic performance (NORTH, 1996, p.353).

A herança cultural identificada em uma sociedade fornece um meio de reduzir a divergência entre os modelos mentais individuais, na medida em que estruturas explicativas passam de geração para geração — tornando –se explicações sobre fenômenos além da experiência imediata que os indivíduos compartilham na forma de religiões, mitos e dogmas. Tais estruturas tiveram maior destaque nas sociedades pré-modernas, mas ainda hoje desempenham um papel fundamental na construção das instituições econômicas, sociais e culturais, moldando as regras formais e as normas informais que regem o comportamento não apenas das pessoas, mas de todos os agentes existentes em determinada sociedade. Os modelos mentais são, portanto, representações que os indivíduos criam para interpretar o ambiente em que vivem — enquanto as instituições são os mecanismos que desenvolvem para atuar sobre este ambiente (NORTH, 1996, p.348).

Na conclusão de Bueno (2003, p.14), o argumento central da NEI, resumidamente, é o de que “as instituições formais e informais de uma sociedade serão tanto mais compatíveis com o progresso econômico quanto mais elas permitirem aos indivíduos liberarem seu potencial produtivo e criativo ”. Tal situação, porém, somente acontecerá quando as leis, os costumes, a prática social e econômica e as organizações conseguirem favorecer a iniciativa individual e a cooperação através de mecanismos impessoais, principalmente garantindo os direitos de propriedade e gerando uma estrutura de preços relativos que premia as atividades produtivas.

Bueno (op.cit.) destaca que na Inglaterra e depois na América do Norte, a matriz institucional favoreceu o aprofundamento da divisão do trabalho e o desenvolvimento de instituições políticas e econômicas que foram consistentes com o desenvolvimento econômico; na América Latina, em contrapartida, a estrutura de govenança do sistema colonial baseou-se desde o início em relações personalistas — não porque o colonizador ibérico tivesse uma propensão inata a estabelecer relações dessa forma: segundo os neo-institucionalistas, isto teria acontecido porque as circunstâncias em que a Espanha e Portugal resolveram o problema do financiamento interno do Estado (com recursos oriundos do novo mundo) implicou o fortalecimento do poder central e a constituição de uma extensa e elaborada burocracia, que passou a embasar o modelo de desenvolvimento.

Na abordagem institucionalista das firmas e mercados, ligada à teoria dos custos de transação desenvolvida por Williamson (1975, 1981 e 1985), a partir dos trabalhos pioneiros de Coase (1937), a busca de maior eficiência produtiva reflete- se nos padrões de conduta dos agentes e na forma pela qual as atividades econômicas são organizadas e coordenadas. Em última instância, essa abordagem postula que os formatos organizacionais (ou estruturas de “ governance ”) — firma, mercado ou redes, por exemplo — são resultado da busca de minimização dos custos de transação por parte dos agentes econômicos.

Para Bueno (2003), custos de transação significam o dispêndio de recursos econômicos para planejar, adaptar e monitorar as interações entre os agentes econômicos, garantindo que o cumprimento dos termos contratuais se faça de maneira satisfatória para todas as partes envolvidas, além de ser compatível com a sua funcionalidade econômica. Trata-se, afinal, dos custos associados ao estabelecimento dos contratos explícitos ou implícitos que organizam uma certa atividade.

Segundo Williamson (1985, p.388), há dois tipos de custos de transação que afetam o desempenho das unidades econômicas participantes, quais sejam: (1) os custos ex –ante de negociar e fixar as contrapartidas e salvaguardas do contrato, e, principalmente, (2) os custos ex –post de monitoramento, renegociação e adaptação dos termos contratuais às novas circunstâncias. Esses custos estão presentes, em maior ou menor intensidade, tanto quando essas são mediadas pelo mercado, quando são realizadas no interior de uma firma.

Contudo, como o próprio Williamson (1985, p.390-91) ressalta, há algumas deficiências na utilização deste arcabouço teórico, quais sejam: (1) simplicidade , associada ao pouco refinamento dos modelos, a dificuldade de mensuração dos trade- off e ao elevado grau de liberdade na especificação das propriedades das transações; (2) instrumentalismo , posto que assume que os agentes comportam- se de modo estratégico, pressupondo a emergência de comportamentos oportunistas, sem dar margem a outras formas de ação, tais como confiança; e (3) a teoria dos custos de transação é incompleta , sobretudo no que diz respeito as chamadas falhas da burocracia como fonte de custos vis –a –vis o mercado. Do ponto de vista antitruste, por exemplo, o uso da teoria dos custos de transação deve ser cauteloso, de modo que suas implicações constituam um conjunto de consideração adicionais, mas não determinantes, na análise dos resultados sociais das estratégias empresariais privadas.

2. A DISSERTAÇÃO

Objetivo geral: Investigar o relacionamento cliente-empresa, identificando as principais técnicas utilizadas por pequenas empresas varejistas, no sentido de criar, desenvolver e sustentar uma política de interagir com seus clientes, visando à obtenção de vantagens competitivas sustentáveis.

Objetivos específicos: (1) investigar qual o entendimento de competitividade almejado pelos empreendedores varejistas; (2) identificar qual a percepção dos clientes desta empresa sobre a questão (expectativas versus percepção do relacionamento com a empresa); (3) investigar as técnicas empresariais capazes de converter o relacionamento em benefícios comuns aos empreendedores e seus clientes; e (4) mensurar qual o grau de consciência desta estratégia junto aos empreendedores.

3. CONCLUSÕES

A partir dos principais pontos vistos na literatura acerca da Economia Institucional (NEI), pode –se concluir que o objeto de estudo da Dissertação apresentado na Parte 2 não pode ser analisado sob a ótica das proposições daquela. A Dissertação enfoca, prioritariamente, a questão do relacionamento estabelecido entre empreendedores (do setor varejista) e seus consumidores, o que não configura um ambiente amplo o suficiente para ser vislumbrado sob a perspectiva da NEI, dado que não se mostra relevante, para a Dissertação, questões mais macro, nem tampouco a dinâmica oriunda de instituições alheias a este relacionamento.

Não se pretende destacar, por exemplo, custos de transação detectados neste relacionamento cliente –empresa — a menos que no decorrer da pesquisa de campo seja identificado certos aspectos que demonstrem que o consumidor percebe algum tipo de ônus caso resolva adquirir um produto ou serviço de outra empresa. Neste caso, poder –se –ia iniciar alguma discussão partindo da literatura observada — mas, ainda assim, de maneira bastante restrita, dada a amplitude da pesquisa de campo pretendida pela Dissertação. Como o universo pesquisado pela Dissertação é formado por pequenas e médias empresas, e mais especificamente nos empreendedores que as gerenciam, dificilmente poder-se-iam estabelecer relações diretas entre estes empreendedores e a NEI.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUENO, Newton Paulo. A nova economia institucional e a historiografia clássica do período colonial brasileiro . In: V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas. Caxambu (MG) 7-10 Set 2003.
COASE, R. H. The Nature of the Firm. Economica . v.4, Nov 1937. p.386-405.
NORTH, Douglas. Economic performance through time . In: ALSTON, L. et al. (org.) Empiric studies in institutional change. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
NORTH, Douglas. Institutions and economic growth: an historical introduction. World Development.v.17, n. 9. 1989.
WILLIAMSON, O. E. Market and hierarchies: analysis and antitrust implications . New York: The Free Press, 1975.
WILLIAMSON, O. E. The economic institutions of capitalism . New York: The Free Press, 1985. 
WILLIAMSON, O. E. The modern corporation: origins, evolution, attributes . Journal of Economic Literature . v.19, Dez 1981. p.1537-1568.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

A matéria abaixo foi publicada no site Gizmodo, e achei interessante a ponto de reproduzir aqui no blog. Uma iniciativa como essa é excelente, mas ainda é pouco diante das necessidades monstruosas que o Brasil tem em termos de educação e conhecimento.
Dentro da Universidade de São Paulo, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin foi criada em 2005. O prédio construído especialmente para receber o acervo do Dr. José Mindlin, que tem mais de 40 mil volumes, só ficou pronto no começo de 2013, mas a digitalização de seu acervo começou bem antes: em 2008, foi formada a equipe que seria responsável pelo projeto da Brasiliana USP, a versão digital da Mindlin, que foi ao ar em julho de 2009. A empreitada incluía também a criação de uma plataforma de software para disponibilizar o conteúdo, além de providenciar a parte de hardware, como scanners, servidores e storage. Fomos conhecer de perto o processo de digitalização de tantos volumes raros e históricos.
A Plataforma Corisco, nome do software open source da biblioteca, foi criada a partir do DSpace, projeto também de código aberto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o conhecido MIT, com recursos da HP para custear o projeto. “É um software extremamente bem sucedido, com talvez centenas de instituições ao redor do mundo utilizando-o. Ele é escrito em Java, portanto tem uma tecnologia moderna voltada para a Web”, diz Edson Satoshi Gomi, coordenador de tecnologia da informação da Biblioteca Brasiliana.
Gomi, que também é professor do Departamento de Engenharia da Computação da Escola Politécnica da USP, explica o que a Plataforma Corisco tem a mais em relação ao DSpace puro. “O que nós fizemos adicionalmente foi colocar algumas camadas que não existem no original. A primeira camada que colocamos foi uma interface web, que permite uma customização da cara, e o segundo componente que agregamos foi o que chamamos de visualizador de itens do acervo, sejam eles livros, imagens ou mapas.”
Outras duas camadas ainda serão implementadas: uma ferramenta para gerir todo o processo de digitalização e registrar metadados e outra para a preservação digital das imagens em alta resolução. “O volume de imagens que estamos produzindo é relativamente grande e o que é mais caro nesse processo todo é este trabalho de digitalização. Portanto, julgamos importante manter este conjunto de imagens de uma forma íntegra que não se perca isso ao longo dos anos.”
Maria Bonita e suas irmãs
E este volume de imagens é realmente enorme: a Maria Bonita e suas irmãs, apelido dado pela equipe da biblioteca às máquinas fabricadas pela canadense Kirtas, são equipadas com câmeras Canon de 21 megapixels – os modelos da linha Kabis têm duas câmeras em x, cada uma virada para uma página do livro; já o modelo Skyview, voltado para a digitalização de mapas, cartazes e jornais, tem apenas uma, que se desloca em dois eixos para varrer toda a extensão do material. Cada câmera é ligada num computador que, por sua vez, é ligado a um servidor. As imagens aparecem em tempo real no monitor do scanner.
Cada página “bruta”, por assim dizer, é uma fotografia com definição considerável (ainda que a imagem antes do recorte inclua também uma parte considerável do suporte em que o livro é colocado). “As imagens que nossos scanners produzem”, explica Gomi, “são imagens de altíssima resolução. Tipicamente, cada imagem pode ocupar uma dezena de megabytes de tamanho. Se multiplicarmos isso pela quantidade de páginas, não é incomum um livro ter vários gigabytes de tamanho.”
O livro é posto aberto numa mesa e o scanner vira as páginas através de uma espécie de aspirador de pó, que gruda as folhas por sucção e as vira. O processo é automático, mas tem que ser acompanhado por um funcionário, que ajusta a posição do livro vez ou outra, para as imagens não ficarem tortas. A velocidade máxima é de 2.500 páginas por hora.
20 terabytes de raridades
Engana-se quem pensa que é arriscado colocar um livro raro numa máquina dessas. “Existe uma preocupação nossa com a integridade dos livros”, diz Gomi. “Mas é importante chamar a atenção de que o fato de termos um livro raro não significa que ele está em mal estado ou fragilizado, muito pelo contrário. Muitas vezes, livros antigos estão em estado tão bom que são relativamente robustos.”
A digitalização é só o começo de todo o processo. O que se segue é bem trabalhoso: o processo de recorte e tratamento da imagem. Segundo Gomi, já foram digitalizados 20 terabytes de material, mas nem tudo está disponível para acesso justamente porque falta esta etapa, que é um gargalo no fluxo de trabalho.
O objetivo é reduzir ao máximo o tamanho do arquivo e, ao mesmo tempo, garantir a legibilidade. Por isso, os arquivos em .pdf, cada um deles com cerca de 10MB, podem não ter exatamente a mesma cor das páginas do livro original, além de o contraste ser muito mais marcante.
A última etapa é o reconhecimento dos caracteres. Se você já sofreu com um programa de OCR, sabe o quanto é difícil. Aqui o problema é ainda maior, como explica Gomi. “O OCR é ainda, digamos, um problema em aberto. Para textos impressos com caracteres modernos, ele reconhece com uma certa precisão, mas nós estamos aqui tratando de textos antigos, além de muitos manuscritos.”
Paralelamente, são cadastrados os metadados de cada material, padronizados segundo o esquema Dublin Core, o mesmo do DSpace.
Quando está tudo pronto, o livro fica disponível no site da Brasiliana Digital. Ele pode ser visualizado na própria página sem a necessidade de plug-ins, para facilitar o uso escolar, ou baixado – é um arquivo .pdf, então talvez não fique muito bom no seu e-reader.
Aberto para todos
Mas a disponibilização do acervo para o público não é o único produto do projeto: o código-fonte da Plataforma Corisco está aberto para quem quiser usar. O Instituto Paulo Freire, por exemplo, já adotou o sistema. Mas open source não quer dizer de graça: já foram gastos mais de R$ 3 milhões no projeto, com recursos de entidades como o BNDES e a Fapesp.
Uma parte considerável desse valor foi para bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado. A Plataforma Corisco, além de tudo, é um projeto de pesquisa: para chegar onde está hoje, foram precisos erros e acertos. A primeira versão da edição original do livro de Hans Staden, por exemplo, foi disponibilizada com 1 gigabyte de tamanho (!) e isso só foi percebido porque um professor do grupo de desenvolvedores não conseguia baixá-lo.
A postura de ir resolvendo cada um dos problemas encontrados parece ser intrínseca à formação de bibliotecas digitais, como explica Gomi. “Não faz muito sentido se criar um padrão de como se constrói uma biblioteca digital. Certamente, há a necessidade de se ter uma liberdade nesse sentido, porque os tipos de acervo que podem ser construídos são muito variados. Podemos ter bibliotecas digitais de livros, de músicas, até de arquitetura, porque hoje é possível fazer digitalização 3D.”
Outro ponto a ser notado é o respeito aos direitos autorais: os mais de 3 mil itens disponíveis que estão em domínio público. Segundo Gomi, são mais de 1500 acessos únicos por dia e visitantes de vários países, inclusive daqueles que não falam português. Definitivamente, a Brasiliana USP leva o acervo do Dr. José Mindlin para muito mais longe do que uma biblioteca física.