Socialismo e Liberalismo, por José Guilherme Merquior

José Guilherme Merquior é, na minha opinião, o mais brilhante intelectual brasileiro – ao lado de Rui Barbosa e Roberto Campos.

Hoje, revisando alguns links e arquivos “abandonados” no laptop dei de cara com este texto curto (de 1987), mas capaz de resumir de forma brilhante algumas das mais relevantes diferenças entre o socialismo e o liberalismo.

José Guilherme Merquior

Ao invés de comentar, deixo o brilhante Merquior falar por si mesmo:

– SOCIALISMO E DEMOCRACIA –

O socialismo, em suas origens intelectuais, não era uma teoria política e sim uma teoria econômica. Mais precisamente, uma teoria que procurava reorganizar a sociedade industrial. Os primeiros ideólogos socialistas — os que Engels chamou de “socialistas utópicos” — simplesmente não cogitavam de instituições políticas.

O socialismo só se politizou com Marx, que fundiu a crítica do liberalismo econômico com a tradição revolucionária e igualitária do comunismo.

Marx nunca valorizou os direitos civis (de expressão, profissão, associação, etc.). Ao contrário, chegou mesmo a condená-los, vendo neles mero instrumento de exploração de classe. O socialismo marxista, e muito especialmente o praticado pelos regimes comunistas, sempre refletiu esse menosprezo pelos direitos civis.

Em Lenin, a indiferença de Marx para com a liberdade civil torna-se verdadeira hostilidade aos direitos civis e políticos. Hoje, ninguém mais duvida de que nos regimes comunistas, ninguém consegue, ou tenta, tornar compatíveis socialismo e democracia.

Para tornar compatíveis socialismo e democracia, o socialismo precisa renunciar ao dirigismo econômico, à dominação de toda economia pelo Estado. Isso foi o que fez a social-democracia, desde suas primeiras experiências na Escandinávia. Compreenderam que o dirigismo político provoca ineficiência e despotismo, já que concentra todas as grandes decisões econômicas nas mãos dos que já tem o comando político. Essa autonomia na esfera socialista nunca foi admitida pelos marxistas, embora Trotsky tenha observado que, após o crescimento industrial, a qualidade da produção está fora do alcance do controle burocrático da economia.

– SOCIAL-DEMOCRACIA –

Kolakowski baseia sua concepção da social-democracia em alguns valores e regras gerais que se podem resumir assim:

1) Adesão aos princípios democráticos e constitucionais da sociedade aberta;

2) Busca da igualdade, por meio do “Estado protetor”, que atenda às necessidades elementares da população, cuide da velhice e da doença e promova, em clima de liberdade, a igualdade de oportunidades;

3) Orientação oficial da economia;

4) Reconhecimento da impossibilidade de tornar inteiramente compatíveis o necessário planejamento e a desejável autonomia.

A social-democracia foi perdendo terreno para o moderno liberalismo, entre outras razões, em conseqüência da revolta no mundo atual contra o estatismo econômico. Por outro lado, a recessão econômica e o desemprego em vários países europeus fizeram com que os social-democratas se afastassem de suas bases sindicalistas.

Na Inglaterra, por exemplo, a vitória de Margareth Thatcher foi em grande parte conseqüência da rebelião do operariado contra a política austera e estatizante dos social-democratas. Na prática, os social-democratas eram forçados à negociação entre empresários e trabalhadores, o que representava o reconhecimento dos interesses do capital, traindo suas origens social-marxistas.

– RENASCIMENTO DOS LIBERALISMOS –

“Um conservador”, disse Irving Kristol, “não passa de um liberal assaltado pela realidade”. Na realidade, não é bem assim. A palavra liberal serve hoje para cobrir diferentes comportamentos e pensamentos políticos.

Em outros tempos, o liberalismo estava na defensiva porque os injustos regimes liberais eram comparados com o ideal socialista de liberdade e de justiça. Mas, depois da Segunda Guerra Mundial, quando o socialismo de Stalin foi implantado autoritariamente, as mazelas da realidade socialista foram ficando mais visíveis. O liberalismo passou à ofensiva na produção teórica das universidades e dos pensadores porque o socialismo está longe de ter as mãos limpas e o coração leve.

Lembra Dahrendorf que o liberal raramente precisa envergonhar-se das realidades criadas em seu nome. Ou, quando precisa, resta-lhe o consolo de verificar que seus adversários de esquerda possuem mais esqueletos dentro do armário.

A sociedade moderna, tecnificada e consumista, não requer apenas justiça: exige também eficiência; e a eficiência, por sua vez, implica liberdade econômica.

O neoliberalismo de Hayek tem marcado muitos pontos na denúncia do estatismo econômico, por exemplo, quando se refere à grande expansão de empresas estatais.

É irrealista, no entanto, quando pensa que o Estado pode deixar de dirigir as finanças ou planejar a economia. Importante é que ele não a controle. No seu famoso livro O Caminho da Servidão, Hayek levantou a tese de que o envolvimento do Estado na sociedade e na economia, mesmo por intervenções isoladas, redundaria, a longo prazo, em totalitarismo. No entanto, depois de quase cinqüenta anos, desde a guerra mundial, vemos que Hayek se enganou. No Ocidente e no Japão, a ação do Estado ajudou a evitar o totalitarismo. O Estado, às vezes assistencial, contribuiu de modo decisivo para neutralizar movimentos políticos socialistas autoritários.

No Brasil, temos, ao mesmo tempo, Estado demais e Estado de menos. Demais na economia, onde o Estado emperra, desperdiça, onera e atravanca. De menos, no plano social, onde são gritantes e inadmissíveis tantas carências em matéria de saúde, educação e moradia. Por isso há muitas vezes um diálogo de surdos: de um lado liberais se esquecem, ao condenar a ação do Estado, de ressalvar nossas tremendas necessidades no campo assistencial; de outro, os que se dizem defensores “do social” condenam todas as posições liberais.

– O MODERNO LIBERALISMO SOCIAL –

O moderno liberalismo social, doutrina do PL, não deve querer dizer apenas menos Estado; quer dizer sobretudo mais liberdade. E o Estado contido pode ser um poderoso instrumento para promover liberdade para todos.

Keynes, que tanto transformou o liberalismo econômico, recusou-se a aceitar tanto a opção leninista (sacrificar a democracia para acabar com o capitalismo) quanto a fascista (sacrificar a democracia para salvar o capitalismo). Mas alguns liberais são frios em matéria de fervor democrático. Hayek, por exemplo, chegou a imaginar alternativas que atuassem na base de princípios liberais. Para o neoliberalismo de direita, a liberdade econômica, além de necessária, é suficiente.

Nosso melhor liberalismo não deve ter um permanente pavor do Estado; deve sim — e com crescente vigor — buscar a limitação da ação do Estado a seus objetivos reais. Este é o liberalismo social que o PL defende.

Liberalismo com preocupações sociais é a única doutrina política atual que leva profundamente a sério o ideal democrático no sentido rigoroso da palavra, de governo do povo. Os socialismos de Estado dizem ser democráticos, mas ninguém se atreveria a dizer que praticaram a democracia como forma de governo. A democracia liberal social é realmente democracia, variando apenas no grau do seu teor democrático. O argumento liberal não precisa fugir à realidade; mas o antiliberalismo socialista só consegue basear-se no idealismo e em promessas sempre refeitas e adiadas de um paraíso de liberdade.

– LIBERDADE E IGUALDADE –

A verdadeira democracia liberal tem duas paixões — as paixões de Rousseau: liberdade e igualdade.

Por volta de 1850 ou 60, entendia-se a igualdade de acordo com os méritos de cada um. Já definira Rui Barbosa que a verdadeira igualdade consistia em aquinhoar-se desigualmente a cada um, na proporção em que se desigualam. De lá pra cá, tende a prevalecer uma visão “igualitária” de igualdade. Todos são iguais.

Ao mesmo tempo, a liberdade ganha uma versão libertária que tem a anarquia no seu horizonte natural.

Esse é o maior desafio que o liberalismo tem e terá de enfrentar. Do socialismo, o liberalismo só precisa temer a força, não o poder de convencer, pois ele está muito desgastado. Todavia, em nossas sociedades cada vez mais permissivas e reivindicatórias, o liberalismo não está completamente a salvo da perversão interna de seu próprio ânimo: o velho nobre espírito de igualdade.

Estratégias de empresas para a base da pirâmide

Leio no site da FEA/USP (aqui) sobre o lançamamento de um livro que me parece bastante interessante (grifos meus):

Uma pesquisa realizada com cerca de 40 stakeholders (colaboradores, clientes, fornecedores e distribuidores) procurou analisar as estratégias utilizadas por algumas empresas para desenvolver negócios e atrair consumidores da base da pirâmide econômica, nas comunidades pacificadas do Rio de Janeiro. O resultado desse trabalho está detalhado no livro “Estratégias de Empresas para a Base da Pirâmide” (Atlas), que será lançado no dia 17 de junho, às 19h, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP).

Com o subtítulo “Técnicas e ferramentas para alcançar os clientes e fornecedores da nova classe emergente”, a obra é fruto de um trabalho de campo, realizado entre julho de 2012 e janeiro de 2013. Foram realizadas entrevistas com cerca de 40 stakeholders relacionados a um grupo pré-selecionado de empresas de grande porte presentes nas comunidades pacificadas, de setores como serviços financeiros, beleza, serviços de eletricidade, e capacitação e orientação empresarial. Os entrevistados possuíam cargo de diretoria ou gerência; eram ligados a departamentos, setores ou áreas de novos negócios voltados para as comunidades de base da pirâmide; ou eram clientes, fornecedores ou distribuidores.

Segundo os autores, a escassez de informações na literatura sobre as estratégias das empresas voltadas para a nova classe emergente que vive nas comunidades onde foram instaladas as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), no Rio de Janeiro, foi o que motivou a realização da pesquisa, sobretudo no que tange aos impactos econômicos e sociais gerados pela entrada das empresas nessas localidades. Outros aspectos decisivos foram o crescimento do poder aquisitivo do brasileiro, a importância da população de baixa renda no contexto econômico e social do RJ e o maior interesse das empresas em conhecer e desenvolver negócios nessas regiões. Entre 2008 e 2013, o Estado do Rio recebeu 38 UPPs, que atendem cerca de 1,3 milhão de pessoas.

Na análise dos resultados, observou-se que as empresas vêm aplicando pesquisas para identificar os padrões de consumo das comunidades, visando lançar produtos mais adaptados, conversando com os moradores, entrevistando vizinhos e conhecidos para conceder crédito, e mantendo relação direta com consumidores e promotores. A ideia é desenhar estratégias de aproximação, articulação e sensibilização que considerem as carências do público-alvo. No entanto, os autores concluíram que as estratégias de aproximação são feitas ainda de maneira tímida.

O estudo buscou, ainda, identificar as principais mudanças nos produtos e serviços da empresa, se foi lançado algum produto ou serviço novo, se a cadeia produtiva sofreu modificações e se o modelo de negócio sofreu alterações. No tocante aos produtos e serviços, os autores afirmam que “as observações sobre a adequação do produto reforçam a conclusão de que ela é fundamental para as empresas, seja através da adaptação da linguagem, da comunicação, da estrutura física, da forma de pagamento, ou da flexibilização de exigências burocráticas”.

Com relação a ensinar os clientes a utilizar o produto, estimulá-los a instalar os produtos e permitir testar antes de comprar, os autores constataram que as empresas vêm tendo atuação acanhada, perdendo assim a oportunidade de validar a adequação do produto ao público-alvo com a finalidade de realizar algum refinamento necessário.

Estratégias de Empresas para a Base da Pirâmide – Técnicas e ferramentas para alcançar os clientes e fornecedores da nova classe emergente
Autores: Fernando Filardi e Adalberto Fischmann
Editora Atlas – 2015
Páginas: 184

Não li o livro, portanto não posso emitir qualquer opinião. Contudo, o tema me parece interessante e relevante.

livro base piramide

As empresas precisam monitorar frequentemente os hábitos de consumo de seus potenciais clientes, e muito foi dito e escrito sobre uma tal “nova classe média” no Brasil nos últimos anos. Infelizmente, houve a produção em massa de enormes quantidades de bobagens – como por exemplo dizer que um sujeito que ganhe cerca de R$ 500,00 mensais seja “classe média”. Eu já tratei desse assunto aqui no blog algumas vezes.

Assim, é preciso que pessoas sérias tratem desse assunto, porque se depender de uns e outros boçais a serviço do (des)governo, só lixo será produzido.

NOVO: para além da dicotomia entre o ruim e a escória

O vídeo tem quase 2 horas de duração, mas vale a pena: Luiz Felipe Pondé conduz uma discussão num evento do Partido NOVO, que trata prioritariamente de reforma política e “de brinde” oferece algumas dicas de referências liberais como Thomas Sowell e Theodore Dalrympe.

Alguns pontos fundamentais que o Pondé aborda, na minha opinião, são educação e cultura. Como eu já escrevi diversas vezes aqui no blog, é preciso acabar com essa conversa fiada (e errada) que escolas e (muitas) universidades incutem na cabeça de jovens imaturos e sem base cultural. Eu vejo, no ensino superior, gente que chega com idéias formadas de que o capitalismo é ruim – mas, assim como aquela anta paquidérmica da Luciana Genro, uma ignorante ridícula, não consegue manter suas opiniões quando confrontada com fatos.

Vale a pena ver:

A propósito: convido o leitor a conhecer as propostas do Partido NOVO.
Para mim está cada dia mais claro: o Brasil não corre nenhum risco de dar certo enquanto houver esta dicotomia entre PT e PSDB. Trata-se de uma briga entre o ruim (PSDB) e a escória (PT).

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Mais uma comunista que não leu o Manifesto Comunista

Recebi por e-mail o link para o blog de uma comunista que não leu e/ou não entendeu o Manifesto Comunista de Marx e Engels. Eis aqui o que a brilhante pensadora escreveu logo no segundo parágrafo de um texto disfarçado de um amontoado de bobagens:

Os malucos que tanto me xingaram não sabem, imagino, que Marx acreditava em uma sociedade cooperativa, livre de exploração e comandada pelo trabalhador. Marx nunca falou na apropriação dos meios de produção pelo estado. Marx não estava nem aí para o estado.

O grifo é meu nas últimas duas sentenças, pois quero ressaltar um trecho do Manifesto Comunista que prova que a iluminada não se deu ao trabalho de chegar até a página 42 DESTA EDIÇÃO EM PDF (simplificada e traduzida, para facilitar a vida de quem tem dificuldades na compreensão de textos) da obra mais importante (e básica!) para aqueles que desejem defender o comunismo:

(…) nos países mais adiantados, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas em prática:
1. Expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado. (…)
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo.
6. Centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte.
7. Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento de terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral.

Notem que transcrevi apenas e tão somente os itens que usam de forma clara e inequívoca o termo “Estado”.
A iluminada escreveu que Marx “nunca falou na apropriação dos meios de produção pelo estado. Marx não estava nem aí para o estado“.

Ela nem se deu ao trabalho de ler o Manifesto Comunista?
Sério, não precisava nem entender, bastava LER!

E olha que o Manifesto Comunista é um livro curtinho, fácil de entender (para quem sabe ler, obviamente) e fácil de conseguir (coloquei o link para o download do PDF lá em cima). Seria ultrajante sugerir a uma pessoa que não entendeu sequer o Manifesto Comunista a leitura de O Capital, uma obra bem mais volumosa e complexa.

Mas, como sabiamente disse Ronald Reagan, em 25 de Setembro de 1987:

“How do you tell a Communist? Well, it’s someone who reads Marx and Lenin. And how do you tell an anti-Communist? It’s someone who understands Marx and Lenin.”

2014-07-06 21.07.57

Ronald Harry Coase (1910-2013)

Há tempos eu venho dizendo que o mundo está emburrecendo.

Não apenas o Brasil, devastado por mais de 10 anos de PTralhismo, mas o mundo todo.

No último dia 01/09, o mundo perdeu mais um cara genial: Ronald Coase.

Primeiro, reproduzo excelente texto do Financial Times.

A seguir, um textículo meu mesmo, que redigi na época do Mestrado.

Uma singela homenagem a este gênio.

Ronald Coase: Nobel Prize winning economist who explored why companies exist

Ronald Coase, who has died at the age of 102, played a key part in developing the intellectual arguments behind the market revolution that swept round the world in the 1980s.

Yet when he won the Nobel Prize for economics in 1991, it was for two articles published almost a quarter of a century apart. The first, “The Nature of the Firm ”, was conceived while he was an undergraduate on a trip to America and for the first time provided a rigorous explanation of why companies exist. People created companies , said Coase, to avoid what he called “marketing costs”.

His second influential paper, “The Problem of Social Cost”, came 23 years later in 1960, and showed that the case for government intervention in the marketplace was far weaker than economists had previously thought.

Ronald Harry Coase, the son of two Post Office workers who both left school at the age of 12, was born in the London suburb of Willesden in 1910. Condemned to wear leg irons as a boy, he won a late scholarship to Kilburn Grammar School and then went to the London School of Economics. There Arnold Plant, professor of commerce, introduced him to Adam Smith’s “invisible hand” and helped him win a travelling scholarship to the US to investigate the structure of American industry.

In classical economic theory, agents moved effortlessly towards equilibrium in a frictionless world. In reality, goods are bought and sold in marketplaces – sometimes literal, sometimes virtual – and economic life is dominated by corporations. Classical theories ignored or looked through these institutional arrangements. Economists saw only the investors, employees and customers who obtained, without cost or intermediation, the information they needed to do the business of the market economy.

The need to resolve that tension between model and reality determined the direction of Coase’s career. His key insight was that the costs of making transactions define the nature and shape of economic institutions. In a lecture on his return in 1932, Coase argued that the boundaries of the modern company were determined by the relative costs of market organisation and hierarchical direction.

For example, an assembly line demanded hierarchy because the costs of bargaining between each successive stage of production would be too great. A wheel fits only on an axle for which it has been designed: command and control is superior to markets in these idiosyncratic transactions. But General Motors, for instance, might buy in its tyres because the savings from competitive tendering would be greater than the benefits of ownership. Half a century later, “make” versus “buy” decisions would be routine case studies in business schools. Coase was the first to see how this issue defined the shape of the modern corporation.

Coase returned to Britain first as a lecturer at Dundee and then to LSE, where he published his ideas in 1937. In the same year, he married Marian Ruth Hartung. The couple had no children.

“The Nature of the Firm” made little initial impact. The second world war broke out soon after and Coase joined the talented group of young economists who were recruited to help the organisation of war production. After the war, Coase returned to the LSE and in the 1950s he published “Broadcasting: A Study in Monopoly”, which attacked the position then held by the BBC.

A few years later, ITV was set up but Coase went on to advocate radio spectrum sales on both sides of the Atlantic. He believed that if radio spectrum were treated as property to be sold to the highest bidder, it would be used more efficiently. It took many years for the idea to be adopted as policy in either Britain or the US.

From 1951, he spent some years in relative obscurity studying public utilities at the University of Buffalo. This led to a fuller reflection on the ways in which institutions determined economic outcomes and prompted Coase to write the article that made his reputation.

On the surface, “The Problem of Social Cost” describes a new approach to the externalities that had troubled an earlier generation of economists – the smoking chimneys and suchlike, when production interfered with others. Yet the amount of smoke would be the same whether the chimney owner had to compensate his neighbours for the damage or the neighbours bribed the factory to restrain its output.

This seemed to have a startling consequence. The reason for imposing liability on the factory owner is not justice – the polluter should pay – but efficiency: it is cheaper for the owner to pay the victims than for those who suffer to organise themselves to negotiate with the owner. Legal liability rules should be assessed not for their fairness but for the relative costs they impose.

This approach, drawn from his work, has wide-ranging implications. Market forces drive not only the transactions undertaken within a framework of economic institutions but also the design of economic institutions themselves. If market outcomes are generally efficient, a presumption of efficiency applies not just to the outcomes of the market economy but also to the social framework from which these outcomes emerge – at least at the micro level.

In 1964, Coase was appointed to a chair at Chicago, where he spent the remainder of his career. “Institutions matter” has belatedly become a mantra of economists. More than any other figure in economic thought, he demonstrated how and why that was so.

Ronald Coase

O principal objetivo desta “reflexão” é conciliar os pressupostos das teorias da Economia Institucional com os objetivos da Dissertação de Mestrado do autor. Para tanto, procede–se a uma breve revisão da literatura sobre a Economia Institucional. Na seqüência, apresentam–se os objetivos (gerais e específicos) da Dissertação de Mestrado do autor para, finalmente, verificar se é plausível vislumbrá–la sob a ótica da teoria vista inicialmente.

1. A ECONOMIA INSTITUCIONAL

A principal proposição da Nova Economia Institucional (NEI) é que as instituições sociais e econômicas se formam para resolver, com níveis distintos de eficiência em diferentes sociedades, o problema da cooperação entre os indivíduos. A questão de porque em alguns países a história produziu sociedades com matrizes institucionais mais consistentes com o desenvolvimento econômico do que em outros é um dos temas mais explorados pela literatura internacional recente inspirada pela NEI (NORTH, 1989, p.1328). Uma conceituação mais abrangente sobre a Economia Institucional foi dada pelo mesmo autor:

It is the admixture of formal rules, informal norms, and enforcement characteristics that shapes economic performance. While the rules may be changed overnight, the informal norms usually change only gradually. Since it is the norms that provide legitimacy to a set of rules, revolutionary change is never as revolutionary as its supporters desire and performance is different from what is anticipated. And economies that adopt the formal rules of another economy will have very different performance characteristics than the first economy because of different informal norms and enforcement. The implication is that transferring the formal political e economic rules of successful Western market economies to Third World and Eastern European economies is not a sufficient condition for good economic performance (NORTH, 1996, p.353).

A herança cultural identificada em uma sociedade fornece um meio de reduzir a divergência entre os modelos mentais individuais, na medida em que estruturas explicativas passam de geração para geração — tornando –se explicações sobre fenômenos além da experiência imediata que os indivíduos compartilham na forma de religiões, mitos e dogmas. Tais estruturas tiveram maior destaque nas sociedades pré-modernas, mas ainda hoje desempenham um papel fundamental na construção das instituições econômicas, sociais e culturais, moldando as regras formais e as normas informais que regem o comportamento não apenas das pessoas, mas de todos os agentes existentes em determinada sociedade. Os modelos mentais são, portanto, representações que os indivíduos criam para interpretar o ambiente em que vivem — enquanto as instituições são os mecanismos que desenvolvem para atuar sobre este ambiente (NORTH, 1996, p.348).

Na conclusão de Bueno (2003, p.14), o argumento central da NEI, resumidamente, é o de que “as instituições formais e informais de uma sociedade serão tanto mais compatíveis com o progresso econômico quanto mais elas permitirem aos indivíduos liberarem seu potencial produtivo e criativo ”. Tal situação, porém, somente acontecerá quando as leis, os costumes, a prática social e econômica e as organizações conseguirem favorecer a iniciativa individual e a cooperação através de mecanismos impessoais, principalmente garantindo os direitos de propriedade e gerando uma estrutura de preços relativos que premia as atividades produtivas.

Bueno (op.cit.) destaca que na Inglaterra e depois na América do Norte, a matriz institucional favoreceu o aprofundamento da divisão do trabalho e o desenvolvimento de instituições políticas e econômicas que foram consistentes com o desenvolvimento econômico; na América Latina, em contrapartida, a estrutura de govenança do sistema colonial baseou-se desde o início em relações personalistas — não porque o colonizador ibérico tivesse uma propensão inata a estabelecer relações dessa forma: segundo os neo-institucionalistas, isto teria acontecido porque as circunstâncias em que a Espanha e Portugal resolveram o problema do financiamento interno do Estado (com recursos oriundos do novo mundo) implicou o fortalecimento do poder central e a constituição de uma extensa e elaborada burocracia, que passou a embasar o modelo de desenvolvimento.

Na abordagem institucionalista das firmas e mercados, ligada à teoria dos custos de transação desenvolvida por Williamson (1975, 1981 e 1985), a partir dos trabalhos pioneiros de Coase (1937), a busca de maior eficiência produtiva reflete- se nos padrões de conduta dos agentes e na forma pela qual as atividades econômicas são organizadas e coordenadas. Em última instância, essa abordagem postula que os formatos organizacionais (ou estruturas de “ governance ”) — firma, mercado ou redes, por exemplo — são resultado da busca de minimização dos custos de transação por parte dos agentes econômicos.

Para Bueno (2003), custos de transação significam o dispêndio de recursos econômicos para planejar, adaptar e monitorar as interações entre os agentes econômicos, garantindo que o cumprimento dos termos contratuais se faça de maneira satisfatória para todas as partes envolvidas, além de ser compatível com a sua funcionalidade econômica. Trata-se, afinal, dos custos associados ao estabelecimento dos contratos explícitos ou implícitos que organizam uma certa atividade.

Segundo Williamson (1985, p.388), há dois tipos de custos de transação que afetam o desempenho das unidades econômicas participantes, quais sejam: (1) os custos ex –ante de negociar e fixar as contrapartidas e salvaguardas do contrato, e, principalmente, (2) os custos ex –post de monitoramento, renegociação e adaptação dos termos contratuais às novas circunstâncias. Esses custos estão presentes, em maior ou menor intensidade, tanto quando essas são mediadas pelo mercado, quando são realizadas no interior de uma firma.

Contudo, como o próprio Williamson (1985, p.390-91) ressalta, há algumas deficiências na utilização deste arcabouço teórico, quais sejam: (1) simplicidade , associada ao pouco refinamento dos modelos, a dificuldade de mensuração dos trade- off e ao elevado grau de liberdade na especificação das propriedades das transações; (2) instrumentalismo , posto que assume que os agentes comportam- se de modo estratégico, pressupondo a emergência de comportamentos oportunistas, sem dar margem a outras formas de ação, tais como confiança; e (3) a teoria dos custos de transação é incompleta , sobretudo no que diz respeito as chamadas falhas da burocracia como fonte de custos vis –a –vis o mercado. Do ponto de vista antitruste, por exemplo, o uso da teoria dos custos de transação deve ser cauteloso, de modo que suas implicações constituam um conjunto de consideração adicionais, mas não determinantes, na análise dos resultados sociais das estratégias empresariais privadas.

2. A DISSERTAÇÃO

Objetivo geral: Investigar o relacionamento cliente-empresa, identificando as principais técnicas utilizadas por pequenas empresas varejistas, no sentido de criar, desenvolver e sustentar uma política de interagir com seus clientes, visando à obtenção de vantagens competitivas sustentáveis.

Objetivos específicos: (1) investigar qual o entendimento de competitividade almejado pelos empreendedores varejistas; (2) identificar qual a percepção dos clientes desta empresa sobre a questão (expectativas versus percepção do relacionamento com a empresa); (3) investigar as técnicas empresariais capazes de converter o relacionamento em benefícios comuns aos empreendedores e seus clientes; e (4) mensurar qual o grau de consciência desta estratégia junto aos empreendedores.

3. CONCLUSÕES

A partir dos principais pontos vistos na literatura acerca da Economia Institucional (NEI), pode –se concluir que o objeto de estudo da Dissertação apresentado na Parte 2 não pode ser analisado sob a ótica das proposições daquela. A Dissertação enfoca, prioritariamente, a questão do relacionamento estabelecido entre empreendedores (do setor varejista) e seus consumidores, o que não configura um ambiente amplo o suficiente para ser vislumbrado sob a perspectiva da NEI, dado que não se mostra relevante, para a Dissertação, questões mais macro, nem tampouco a dinâmica oriunda de instituições alheias a este relacionamento.

Não se pretende destacar, por exemplo, custos de transação detectados neste relacionamento cliente –empresa — a menos que no decorrer da pesquisa de campo seja identificado certos aspectos que demonstrem que o consumidor percebe algum tipo de ônus caso resolva adquirir um produto ou serviço de outra empresa. Neste caso, poder –se –ia iniciar alguma discussão partindo da literatura observada — mas, ainda assim, de maneira bastante restrita, dada a amplitude da pesquisa de campo pretendida pela Dissertação. Como o universo pesquisado pela Dissertação é formado por pequenas e médias empresas, e mais especificamente nos empreendedores que as gerenciam, dificilmente poder-se-iam estabelecer relações diretas entre estes empreendedores e a NEI.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BUENO, Newton Paulo. A nova economia institucional e a historiografia clássica do período colonial brasileiro . In: V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6ª Conferência Internacional de História de Empresas. Caxambu (MG) 7-10 Set 2003.
COASE, R. H. The Nature of the Firm. Economica . v.4, Nov 1937. p.386-405.
NORTH, Douglas. Economic performance through time . In: ALSTON, L. et al. (org.) Empiric studies in institutional change. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
NORTH, Douglas. Institutions and economic growth: an historical introduction. World Development.v.17, n. 9. 1989.
WILLIAMSON, O. E. Market and hierarchies: analysis and antitrust implications . New York: The Free Press, 1975.
WILLIAMSON, O. E. The economic institutions of capitalism . New York: The Free Press, 1985. 
WILLIAMSON, O. E. The modern corporation: origins, evolution, attributes . Journal of Economic Literature . v.19, Dez 1981. p.1537-1568.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

A matéria abaixo foi publicada no site Gizmodo, e achei interessante a ponto de reproduzir aqui no blog. Uma iniciativa como essa é excelente, mas ainda é pouco diante das necessidades monstruosas que o Brasil tem em termos de educação e conhecimento.
Dentro da Universidade de São Paulo, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin foi criada em 2005. O prédio construído especialmente para receber o acervo do Dr. José Mindlin, que tem mais de 40 mil volumes, só ficou pronto no começo de 2013, mas a digitalização de seu acervo começou bem antes: em 2008, foi formada a equipe que seria responsável pelo projeto da Brasiliana USP, a versão digital da Mindlin, que foi ao ar em julho de 2009. A empreitada incluía também a criação de uma plataforma de software para disponibilizar o conteúdo, além de providenciar a parte de hardware, como scanners, servidores e storage. Fomos conhecer de perto o processo de digitalização de tantos volumes raros e históricos.
A Plataforma Corisco, nome do software open source da biblioteca, foi criada a partir do DSpace, projeto também de código aberto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o conhecido MIT, com recursos da HP para custear o projeto. “É um software extremamente bem sucedido, com talvez centenas de instituições ao redor do mundo utilizando-o. Ele é escrito em Java, portanto tem uma tecnologia moderna voltada para a Web”, diz Edson Satoshi Gomi, coordenador de tecnologia da informação da Biblioteca Brasiliana.
Gomi, que também é professor do Departamento de Engenharia da Computação da Escola Politécnica da USP, explica o que a Plataforma Corisco tem a mais em relação ao DSpace puro. “O que nós fizemos adicionalmente foi colocar algumas camadas que não existem no original. A primeira camada que colocamos foi uma interface web, que permite uma customização da cara, e o segundo componente que agregamos foi o que chamamos de visualizador de itens do acervo, sejam eles livros, imagens ou mapas.”
Outras duas camadas ainda serão implementadas: uma ferramenta para gerir todo o processo de digitalização e registrar metadados e outra para a preservação digital das imagens em alta resolução. “O volume de imagens que estamos produzindo é relativamente grande e o que é mais caro nesse processo todo é este trabalho de digitalização. Portanto, julgamos importante manter este conjunto de imagens de uma forma íntegra que não se perca isso ao longo dos anos.”
Maria Bonita e suas irmãs
E este volume de imagens é realmente enorme: a Maria Bonita e suas irmãs, apelido dado pela equipe da biblioteca às máquinas fabricadas pela canadense Kirtas, são equipadas com câmeras Canon de 21 megapixels – os modelos da linha Kabis têm duas câmeras em x, cada uma virada para uma página do livro; já o modelo Skyview, voltado para a digitalização de mapas, cartazes e jornais, tem apenas uma, que se desloca em dois eixos para varrer toda a extensão do material. Cada câmera é ligada num computador que, por sua vez, é ligado a um servidor. As imagens aparecem em tempo real no monitor do scanner.
Cada página “bruta”, por assim dizer, é uma fotografia com definição considerável (ainda que a imagem antes do recorte inclua também uma parte considerável do suporte em que o livro é colocado). “As imagens que nossos scanners produzem”, explica Gomi, “são imagens de altíssima resolução. Tipicamente, cada imagem pode ocupar uma dezena de megabytes de tamanho. Se multiplicarmos isso pela quantidade de páginas, não é incomum um livro ter vários gigabytes de tamanho.”
O livro é posto aberto numa mesa e o scanner vira as páginas através de uma espécie de aspirador de pó, que gruda as folhas por sucção e as vira. O processo é automático, mas tem que ser acompanhado por um funcionário, que ajusta a posição do livro vez ou outra, para as imagens não ficarem tortas. A velocidade máxima é de 2.500 páginas por hora.
20 terabytes de raridades
Engana-se quem pensa que é arriscado colocar um livro raro numa máquina dessas. “Existe uma preocupação nossa com a integridade dos livros”, diz Gomi. “Mas é importante chamar a atenção de que o fato de termos um livro raro não significa que ele está em mal estado ou fragilizado, muito pelo contrário. Muitas vezes, livros antigos estão em estado tão bom que são relativamente robustos.”
A digitalização é só o começo de todo o processo. O que se segue é bem trabalhoso: o processo de recorte e tratamento da imagem. Segundo Gomi, já foram digitalizados 20 terabytes de material, mas nem tudo está disponível para acesso justamente porque falta esta etapa, que é um gargalo no fluxo de trabalho.
O objetivo é reduzir ao máximo o tamanho do arquivo e, ao mesmo tempo, garantir a legibilidade. Por isso, os arquivos em .pdf, cada um deles com cerca de 10MB, podem não ter exatamente a mesma cor das páginas do livro original, além de o contraste ser muito mais marcante.
A última etapa é o reconhecimento dos caracteres. Se você já sofreu com um programa de OCR, sabe o quanto é difícil. Aqui o problema é ainda maior, como explica Gomi. “O OCR é ainda, digamos, um problema em aberto. Para textos impressos com caracteres modernos, ele reconhece com uma certa precisão, mas nós estamos aqui tratando de textos antigos, além de muitos manuscritos.”
Paralelamente, são cadastrados os metadados de cada material, padronizados segundo o esquema Dublin Core, o mesmo do DSpace.
Quando está tudo pronto, o livro fica disponível no site da Brasiliana Digital. Ele pode ser visualizado na própria página sem a necessidade de plug-ins, para facilitar o uso escolar, ou baixado – é um arquivo .pdf, então talvez não fique muito bom no seu e-reader.
Aberto para todos
Mas a disponibilização do acervo para o público não é o único produto do projeto: o código-fonte da Plataforma Corisco está aberto para quem quiser usar. O Instituto Paulo Freire, por exemplo, já adotou o sistema. Mas open source não quer dizer de graça: já foram gastos mais de R$ 3 milhões no projeto, com recursos de entidades como o BNDES e a Fapesp.
Uma parte considerável desse valor foi para bolsas de iniciação científica, mestrado e doutorado. A Plataforma Corisco, além de tudo, é um projeto de pesquisa: para chegar onde está hoje, foram precisos erros e acertos. A primeira versão da edição original do livro de Hans Staden, por exemplo, foi disponibilizada com 1 gigabyte de tamanho (!) e isso só foi percebido porque um professor do grupo de desenvolvedores não conseguia baixá-lo.
A postura de ir resolvendo cada um dos problemas encontrados parece ser intrínseca à formação de bibliotecas digitais, como explica Gomi. “Não faz muito sentido se criar um padrão de como se constrói uma biblioteca digital. Certamente, há a necessidade de se ter uma liberdade nesse sentido, porque os tipos de acervo que podem ser construídos são muito variados. Podemos ter bibliotecas digitais de livros, de músicas, até de arquitetura, porque hoje é possível fazer digitalização 3D.”
Outro ponto a ser notado é o respeito aos direitos autorais: os mais de 3 mil itens disponíveis que estão em domínio público. Segundo Gomi, são mais de 1500 acessos únicos por dia e visitantes de vários países, inclusive daqueles que não falam português. Definitivamente, a Brasiliana USP leva o acervo do Dr. José Mindlin para muito mais longe do que uma biblioteca física.

Algumas lições de Mises de 1979 para os protestos brasileiros de 2013

Em meio a toda a discussão gerada pela onda de protestos que têm ocorrido no Brasil, achei interessante reforçar algumas das palavras de Ludwig von Mises.
Recortei alguns trechos dos 2 primeiros capítulos de um dos livros dele que mais gosto. É um livro bastante objetivo, sem firulas. Pode ser baixado (em formatos PDF, MOBI e ePub) AQUI, gratuitamente.

Recomendo a leitura para quem deseja aproveitar este momento de (supostas) mudanças no país para refletir sobre o que deseja para o Brasil.

OBS: Como retirei os trechos do PDF, a formatação está “estranha”, mas isso não impede a leitura. O mais importante é o conteúdo, mas já peço desculpas antecipadamente pela forma.

AS SEIS LIÇÕES
Ludwig  von  Mises

Traduzido  por  Maria  Luiza  Borges
7ª  Edição
Copyright  ©  Margit  von  Mises,  1979
Título  do  original  em  inglês: ECONOMIC  POLICY:  THOUGHTS  FOR  TODAY  AND  TOMORROW
Revisão  para  nova  ortografia: Núbia  Tavares
Ficha  catalográfica  elaborada  pela Biblioteca  Ludwig  von  Mises  do  Instituto  Liberal  –  RJ
Bibliotecário  Responsável:  Otávio  Alexandre  J.  De  Oliveira

CAPÍTULO  I
PRIMEIRA LIÇÃO
O   CAPITALISMO

Certas  expressões  usadas  pelo  povo  são,  muitas  vezes,  inteira-
mente  equivocadas.  Assim,  atribuem-se  a  capitães  de  indústria  e
a  grandes  empresários  de  nossos  dias  epítetos  como  “o  rei  do  cho-
colate”,  “o  rei  do  algodão”  ou  “o  rei  do  automóvel”.  Ao  usar  essas
expressões,  o  povo  demonstra  não  ver  praticamente  nenhuma  di-
ferença  entre  os  industriais  de  hoje  e  os  reis,  duques  ou  lordes  de
outrora.  Mas,  na  realidade,  a  diferença  é  enorme,  pois  um  rei  do
chocolate  absolutamente  não  rege,  ele  serve.  Não  reina  sobre  um
território  conquistado,  independente  do  mercado,  independente  de
seus  compradores.  O  rei  do  chocolate  –  ou  do  aço,  ou  do  automó-
vel,  ou  qualquer  outro  rei  da  indústria  contemporânea  –  depende
da  indústria  que  administra  e  dos  clientes  a  quem  presta  serviços.

Esse  “rei”  precisa  se  conservar  nas  boas  graças  dos  seus  súditos,  os
consumidores:  perderá  seu  “reino”  assim  que  já  não  tiver  condições
de  prestar  aos  seus  clientes  um  serviço  melhor  e  de  mais  baixo  custo
que  o  oferecido  por  seus  concorrentes.

Duzentos  anos  atrás,  antes  do  advento  do  capitalismo,  o  status
social  de  um  homem  permanecia  inalterado  do  princípio  ao  fim  de
sua  existência:  era  herdado  dos  seus  ancestrais  e  nunca  mudava.
Se  nascesse  pobre,  pobre  seria  para  sempre;  se  rico  –  lorde  ou  du-
que  –,  manteria  seu  ducado,  e  a  propriedade  que  o  acompanhava,
pelo  resto  dos  seus  dias.

No  tocante  à  manufatura,  as  primitivas  indústrias  de  beneficia-
mento  da  época  existiam  quase  exclusivamente  em  proveito  dos
ricos.  A  grande  maioria  do  povo  (90%  ou  mais  da  população  eu-
ropeia)  trabalhava  na  terra  e  não  tinha  contato  com  as  indústrias
de  beneficiamento,  voltadas  para  a  cidade.  Esse  rígido  sistema  da
sociedade  feudal  imperou,  por  muitos  séculos,  nas  mais  desenvol-
vidas  regiões  da  Europa.

Contudo,  a  população  rural  se  expandiu  e  passou  a  haver  um  ex-
cesso  de  gente  no  campo.  Os  membros  dessa  população  excedente,
sem  terras  herdadas  ou  bens,  careciam  de  ocupação.  Também  não
lhes  era  possível  trabalhar  nas  indústrias  de  beneficiamento,  cujo
acesso  lhes  era  vedado  pelos  reis  das  cidades.  O  número  desses
“párias”  crescia  incessantemente,  sem  que  todavia  ninguém  sou-
besse  o  que  fazer  com  eles.  Eram,  no  pleno  sentido  da  palavra,
“proletários”,  e  ao  governo  só  restava  interná-los  em  asilos  ou  ca-
sas  de  correção.  Em  algumas  regiões  da  Europa,  sobretudo  nos
Países  Baixos  e  na  Inglaterra,  essa  população  tornou-se  tão  nu-
merosa  que,  no  século  XVIII,  constituía  uma  verdadeira  ameaça  à
preservação  do  sistema  social  vigente.

Hoje,  ao  discutir  questões  análogas  em  lugares  como  a  Índia  ou
outros  países  em  desenvolvimento,  não  devemos  esquecer  que,  na
Inglaterra  do  século  XVIII,  as  condições  eram  muito  piores.  Na-
quele  tempo,  a  Inglaterra  tinha  uma  população  de  seis  ou  sete  mi-
lhões  de  habitantes,  dos  quais  mais  de  um  milhão  –  provavelmente
dois  –  não  passavam  de  indigentes  a  quem  o  sistema  social  em  vigor
nada  proporcionava.  As  medidas  a  tomar  com  relação  a  esses  deser-
dados  constituíam  um  dos  maiores  problemas  da  Inglaterra.

Outro  sério  problema  era  a  falta  de  matérias-primas.  Os  in-
gleses  eram  obrigados  a  enfrentar  a  seguinte  questão:  que  faremos,
no  futuro,  quando  nossas  florestas  já  não  nos  derem  a  madeira  de
que  necessitamos  para  nossas  indústrias  e  para  aquecer  nossas  ca-
sas?  Para  as  classes  governantes,  era  uma  situação  desesperadora.
Os  estadistas  não  sabiam  o  que  fazer  e  as  autoridades  em  geral  não
tinham  qualquer  ideia  sobre  como  melhorar  as  condições.

Foi  dessa  grave  situação  social  que  emergiram  os  começos  do
capitalismo  moderno.  Dentre  aqueles  párias,  aqueles  miseráveis,
surgiram  pessoas  que  tentaram  organizar  grupos  para  estabelecer
pequenos  negócios,  capazes  de  produzir  alguma  coisa.  Foi  uma
inovação.  Esses  inovadores  não  produziam  artigos  caros,  acessí-
veis  apenas  às  classes  mais  altas:  produziam  bens  mais  baratos,  que
pudessem  satisfazer  as  necessidades  de  todos.  E  foi  essa  a  origem
do  capitalismo  tal  como  hoje  funciona.  Foi  o  começo  da  produção
em  massa  –  princípio  básico  da  indústria  capitalista.  Enquanto
as  antigas  indústrias  de  beneficiamento  funcionavam  a  serviço  da
gente  abastada  das  cidades,  existindo  quase  que  exclusivamente
para  corresponder  às  demandas  dessas  classes  privilegiadas,  as  no-
vas  indústrias  capitalistas  começaram  a  produzir  artigos  acessíveis
a  toda  a  população.  Era  a  produção  em  massa,  para  satisfazer  às
necessidades  das  massas.

Este  é  o  princípio  fundamental  do  capitalismo  tal  como  existe
hoje  em  todos  os  países  onde  há  um  sistema  de  produção  em  massa
extremamente  desenvolvido:  as  empresas  de  grande  porte,  alvo  dos
mais  fanáticos  ataques  desfechados  pelos  pretensos  esquerdistas,
produzem  quase  exclusivamente  para  suprir  a  carência  das  massas.

As  empresas  dedicadas  à  fabricação  de  artigos  de  luxo,  para  uso  ape-
nas  dos  abastados,  jamais  têm  condições  de  alcançar  a  magnitude
das  grandes  empresas.  E,  hoje,  os  empregados  das  grandes  fábricas
são,  eles  próprios,  os  maiores  consumidores  dos  produtos  que  nelas
se  fabricam.  Esta  é  a  diferença  básica  entre  os  princípios  capitalis-
tas  de  produção  e  os  princípios  feudalistas  de  épocas  anteriores.
Quando  se  pressupõe  ou  se  afirma  a  existência  de  uma  diferen-
ça  entre  os  produtores  e  os  consumidores  dos  produtos  da  grande
empresa,  incorre-se  em  grave  erro.  Nas  grandes  lojas  dos  Estados
Unidos,  ouvimos  o  slogan:  “O  cliente  tem  sempre  razão.”  E  esse
cliente  é  o  mesmo  homem  que  produz,  na  fábrica,  os  artigos  à  venda
naqueles  estabelecimentos.  Os  que  pensam  que  a  grande  empresa
detém  um  enorme  poder  também  se  equivocam,  uma  vez  que  a  em-
presa  de  grande  porte  é  inteiramente  dependente  da  preferência  dos
que  lhes  compram  os  produtos;  a  mais  poderosa  empresa  perderia
seu  poder  e  sua  influência  se  perdesse  seus  clientes.

Há  cinquenta  ou  sessenta  anos,  era  voz  corrente  em  quase  todos
os  países  capitalistas  que  as  companhias  de  estradas  de  ferro  eram
por  demais  grandes  e  poderosas:  sendo  monopolistas,  tornavam  im-
possível  a  concorrência.  Alegava-se  que,  na  área  dos  transportes,
o  capitalismo  já  havia  atingido  um  estágio  no  qual  se  destruira  a  si
mesmo,  pois  que  eliminara  a  concorrência.  O  que  se  descurava  era
o  fato  de  que  o  poder  das  ferrovias  dependia  de  sua  capacidade  de
oferecer  à  população  um  meio  de  transporte  melhor  que  qualquer
outro.  Evidentemente  teria  sido  absurdo  concorrer  com  uma  des-
sas  grandes  estradas  de  ferro,  através  da  implantação  de  uma  nova
ferrovia  paralela  à  anterior,  porquanto  a  primeira  era  suficiente  para
atender  às  necessidades  do  momento.  Mas  outros  concorrentes  não
tardaram  a  aparecer.  A  livre  concorrência  não  significa  que  se  possa
prosperar  pela  simples  imitação  ou  cópia  exata  do  que  já  foi  feito  por
alguém.  A  liberdade  de  imprensa  não  significa  o  direito  de  copiar
o  que  outra  pessoa  escreveu,  e  assim  alcançar  o  sucesso  a  que  o  ver-
dadeiro  autor  fez  jus  por  suas  obras.  Significa  o  direito  de  escrever
outra  coisa.  A  liberdade  de  concorrência  no  tocante  às  ferrovias,
por  exemplo,  significa  liberdade  para  inventar  alguma  coisa,  para
fazer  alguma  coisa  que  desafie  as  ferrovias  já  existentes  e  as  coloque
em  situação  muito  precária  de  competitividade.

Nos  Estados  Unidos,  a  concorrência  que  se  estabeleceu  através
dos  ônibus,  automóveis,  caminhões  e  aviões  impôs  às  estradas  de
ferro  grandes  perdas  e  uma  derrota  quase  absoluta  no  que  diz  res-
peito  ao  transporte  de  passageiros.

O  desenvolvimento  do  capitalismo  consiste  em  que  cada  ho-
mem  tem  o  direito  de  servir  melhor  e/ou  mais  barato  o  seu  clien-
te.  E,  num  tempo  relativamente  curto,  esse  método,  esse  princípio,
transformou  a  face  do  mundo,  possibilitando  um  crescimento  sem
precedentes  da  população  mundial.

Na  Inglaterra  do  século  XVIII,  o  território  só  podia  dar  sustento

a  seis  milhões  de  pessoas,  num  baixíssimo  padrão  de  vida.  Hoje,
mais  de  cinquenta  milhões  de  pessoas  aí  desfrutam  de  um  padrão  de
vida  que  chega  a  ser  superior  ao  que  desfrutavam  os  ricos  no  século
XVIII.  E  o  padrão  de  vida  na  Inglaterra  de  hoje  seria  provavelmen-
te  mais  alto  ainda,  não  tivessem  os  ingleses  dissipado  boa  parte  de
sua  energia  no  que,  sob  diversos  pontos  de  vista,  não  foram  mais
que  “aventuras”  políticas  e  militares  evitáveis.

Estes  são  os  fatos  acerca  do  capitalismo.  Assim,  se  um  inglês  –
ou,  no  tocante  a  esta  questão,  qualquer  homem  de  qualquer  país  do
mundo  –  afirmar  hoje  aos  amigos  ser  contrário  ao  capitalismo,  há
uma  esplêndida  contestação  a  lhe  fazer:  “Sabe  que  a  população  des-
te  planeta  é  hoje  dez  vezes  maior  que  nos  períodos  precedentes  ao
capitalismo?  Sabe  que  todos  os  homens  usufruem  hoje  um  padrão
de  vida  mais  elevado  que  o  de  seus  ancestrais  antes  do  advento  do
capitalismo?  E  como  você  pode  ter  certeza  de  que,  se  não  fosse  o
capitalismo,  você  estaria  integrando  a  décima  parte  da  população
sobrevivente?  Sua  mera  existência  é  uma  prova  do  êxito  do  capita-
lismo,  seja  qual  for  o  valor  que  você  atribua  à  própria  vida.”

[…]

Na  Grã-Bretanha,  quando  os  fabricantes  começaram  a  produ-
zir  artigos  de  algodão,  eles  passaram  a  pagar  aos  seus  trabalhadores
mais  do  que  estes  ganhavam  antes.  É  verdade  que  grande  porcen-
tagem  desses  novos  trabalhadores  jamais  ganhara  coisa  alguma  an-
tes.  Estavam,  então,  dispostos  a  aceitar  qualquer  quantia  que  lhes
fosse  oferecida.  Mas,  pouco  tempo  depois,  com  a  crescente  acu-
mulação  do  capital  e  a  implantação  de  um  número  cada  vez  maior
de  novas  empresas,  os  salários  se  elevaram,  e  como  consequência
houve  aquele  aumento  sem  precedentes  da  população  inglesa,  ao
qual  já  me  referi.  A  reiterada  caracterização  depreciativa  do  capi-
talismo  como  um  sistema  destinado  a  tornar  os  ricos  mais  ricos  e
os  pobres  mais  pobres  é  equivocada  do  começo  ao  fim.  A  tese  de
Marx  concernente  ao  advento  do  capitalismo  baseou-se  no  pressu-
posto  de  que  os  trabalhadores  estavam  ficando  mais  pobres,  de  que
o  povo  estava  ficando  mais  miserável,  o  que  finalmente  redundaria
na  concentração  de  toda  a  riqueza  de  um  país  em  umas  poucas
mãos,  ou  mesmo  nas  de  um  homem  só.  Como  consequência,  as
massas  trabalhadoras  empobrecidas  se  rebelariam  e  expropriariam
os  bens  dos  opulentos  proprietários.

Segundo  essa  doutrina  de  Marx,  é  impossível,  no  sistema  ca-
pitalista,  qualquer  oportunidade,  qualquer  possibilidade  de  melho-
ria  das  condições  dos  trabalhadores.  Em  1865,  falando  perante  a
Associação  Internacional  dos  Trabalhadores,  na  Inglaterra,  Marx
afirmou  que  a  crença  de  que  os  sindicatos  poderiam  promover  me-
lhores  condições  para  a  população  trabalhadora  era  “absolutamente
errônea”.  Qualificou  a  política  sindical  voltada  para  a  reivindica-
ção  de  melhores  salários  e  menor  número  de  horas  de  trabalho  de
conservadora  –  era  este,  evidentemente,  o  termo  mais  desabonador
a  que  Marx  podia  recorrer.  Sugeriu  que  os  sindicatos  adotassem
uma  nova  meta  revolucionária:  a  “completa  abolição  do  sistema  de
salários”,  e  a  substituição  do  sistema  de  propriedade  privada  pelo
“socialismo”  –  a  posse  dos  meios  de  produção  pelo  governo.

Se  consideramos  a  história  do  mundo  –  e  em  especial  a  história
da  Inglaterra  a  partir  de  1865  –  verificaremos  que  Marx  estava  erra-
do  sob  todos  os  aspectos.  Não  há  um  só  país  capitalista  em  que  as
condições  do  povo  não  tenham  melhorado  de  maneira  inédita.  To-
dos  esses  progressos  ocorridos  nos  últimos  oitenta  ou  noventa  anos
produziram-se  a  despeito  dos  prognósticos  de  Karl  Marx:  os  socialis-
tas  de  orientação  marxista  acreditavam  que  as  condições  dos  traba-
lhadores  jamais  poderiam  melhorar.  Adotavam  uma  falsa  teoria,  a
famosa  “lei  de  ferro  dos  salários”.  Segundo  esta  lei,  no  capitalismo,
os  salários  de  um  trabalhador  não  excederiam  a  soma  que  lhe  fosse
estritamente  necessária  para  manter-se  vivo  a  serviço  da  empresa.

Os  marxistas  enunciaram  sua  teoria  da  seguinte  forma:  se  os
padrões  salariais  dos  trabalhadores  sobem,  com  a  elevação  dos  salá-
rios,  a  um  nível  superior  ao  necessário  para  a  subsistência,  eles  terão
mais  filhos.  Esses  filhos,  ao  ingressarem  na  força  de  trabalho,  en-
grossarão  o  número  de  trabalhadores  até  o  ponto  em  que  os  padrões
salariais  cairão,  rebaixando  novamente  os  salários  dos  trabalhadores
a  um  nível  mínimo  necessário  para  a  subsistência  –  àquele  nível
mínimo  de  sustento,  apenas  suficiente  para  impedir  a  extinção  da
população  trabalhadora.

Mas  essa  ideia  de  Marx,  e  de  muitos  outros  socialistas,  envolve
um  conceito  de  trabalhador  idêntico  ao  adotado  –  justificadamente
–  pelos  biólogos  que  estudam  a  vida  dos  animais.  Dos  camundon-
gos,  por  exemplo.  Se  colocarmos  maior  quantidade  de  alimento  à
disposição  de  organismos  animais,  ou  de  micróbios,  maior  núme-
ro  deles  sobreviverá.  Se  a  restringirmos,  restringiremos  o  número
dos  sobreviventes.  Mas  com  o  homem  é  diferente.  Mesmo  o  tra-
balhador  –  ainda  que  os  marxistas  não  o  admitam  –  tem  carências
humanas  outras  que  as  de  alimento  e  de  reprodução  de  sua  espécie.
Um  aumento  dos  salários  reais  resulta  não  só  num  aumento  da  po-
pulação;  resulta  também,  e  antes  de  tudo,  numa  melhoria  do  padrão
de  vida  média.  É  por  isso  que  temos  hoje,  na  Europa  Ocidental  e
nos  Estados  Unidos,  um  padrão  de  vida  superior  ao  das  nações  em
desenvolvimento,  às  da  África,  por  exemplo.  Devemos  compreen-
der,  contudo,  que  esse  padrão  de  vida  mais  elevado  fundamenta-se
na  disponibilidade  de  capital.  Isso  explica  a  diferença  entre  as
condições  reinantes  nos  Estados  Unidos  e  as  que  encontramos  na
Índia.  Neste  país  foram  introduzidos  –  ao  menos  em  certa  medida
–  modernos  métodos  de  combate  a  doenças  contagiosas,  cujo  efei-
to  foi  um  aumento  inaudito  da  população.  No  entanto,  como  esse
crescimento  populacional  não  foi  acompanhado  de  um  aumento
correspondente  do  montante  de  capital  investido  no  país,  o  resul-
tado  foi  um  agravamento  da  miséria.  Quanto  mais  se  eleva  o  capital
investido  por  indivíduo,  mais  próspero  se  torna  o  país.

Mas  é  preciso  lembrar  que  nas  políticas  econômicas  não  ocor-
rem  milagres.  Todos  leram  artigos  de  jornal  e  discursos  sobre  o
chamado  milagre  econômico  alemão  –  a  recuperação  da  Alema-
nha  depois  de  sua  derrota  e  destruição  na  Segunda  Guerra  Mun-
dial.  Mas  não  houve  milagre.  Houve  tão  somente  a  aplicação
dos  princípios  da  economia  do  livre  mercado,  dos  métodos  do  capi-
talismo,  embora  essa  aplicação  não  tenha  sido  completa  em  todos
os  pontos.  Todo  país  pode  experimentar  o  mesmo  “milagre”  de
recuperação  econômica,  embora  eu  deva  insistir  em  que  esta  não
é  fruto  de  milagre:  é  fruto  da  adoção  de  políticas  econômicas  só-
lidas,  pois  que  é  delas  que  resulta.

CAPÍTULO  II
SEGUNDA LIÇÃO
O   SOCIALISMO

Estou  em  Buenos  Aires  a  convite  do  Centro  de  Difusión  de  la
Economia  Libre.  Que  vem  a  ser  economia  livre?  Que  significa  esse
sistema  de  liberdade  econômica?  A  resposta  é  simples:  é  a  economia
de  mercado,  é  o  sistema  em  que  a  cooperação  dos  indivíduos  na
divisão  social  do  trabalho  se  realiza  pelo  mercado.  E  esse  mercado
não  é  um  lugar:  é  um  processo,  é  a  forma  pela  qual,  ao  vender  e  com-
prar,  ao  produzir  e  consumir,  as  pessoas  estão  contribuindo  para  o
funcionamento  global  da  sociedade.

Quando  falamos  desse  sistema  de  organização  econômica  –  a
economia  de  mercado  –  empregamos  a  expressão  “liberdade  eco-
nômica”.  Frequentemente  as  pessoas  se  equivocam  quanto  ao  seu
significado,  supondo  que  liberdade  econômica  seja  algo  inteira-
mente  dissociado  de  outras  liberdades,  e  que  estas  outras  liber-
dades  –  que  reputam  mais  importantes  –  possam  ser  preservadas
mesmo  na  ausência  de  liberdade  econômica.  Mas  liberdade  eco-
nômica  significa,  na  verdade,  que  é  dado  às  pessoas  que  a  possuem
o  poder  de  escolher  o  próprio  modo  de  se  integrar  ao  conjunto  da
sociedade.  A  pessoa  tem  o  direito  de  escolher  sua  carreira,  tem
liberdade  para  fazer  o  que  quer.

É  óbvio  que  não  compreendemos  liberdade  no  sentido  que  hoje
tantos  atribuem  à  palavra.  O  que  queremos  dizer  é  antes  que,  atra-
vés  da  liberdade  econômica,  o  homem  é  libertado  das  condições
naturais.  Nada  há,  na  natureza,  que  possa  ser  chamado  de  liber-
dade;  há  apenas  a  regularidade  das  leis  naturais,  a  que  o  homem
é  obrigado  a  obedecer  para  alcançar  qualquer  coisa.  Quando  se
trata  de  seres  humanos,  atribuímos  à  palavra  liberdade  o  signi-
ficado  exclusivo  de  liberdade  na  sociedade.  Não  obstante,  muitos
consideram  que  as  liberdades  sociais  são  independentes  umas  das
outras.  Os  que  hoje  se  intitulam  “liberais”  têm  reivindicado  pro-
gramas  que  são  exatamente  o  oposto  das  políticas  que  os  liberais
do  século  XIX  defendiam  em  seus  programas  liberais.  Os  preten-
sos  liberais  de  nossos  dias  sustentam  a  ideia  muito  difundida  de
que  as  liberdades  de  expressão,  de  pensamento,  de  imprensa,  de
culto,  de  encarceramento  sem  julgamento  podem,  todas  elas,  ser
preservadas  mesmo  na  ausência  do  que  se  conhece  como  liberdade
econômica.  Não  se  dão  conta  de  que,  num  sistema  desprovido  de
mercado,  em  que  o  governo  determina  tudo,  todas  essas  outras  li-
berdades  são  ilusórias,  ainda  que  postas  em  forma  de  lei  e  inscritas
na  constituição.

Tomemos  como  exemplo  a  liberdade  de  imprensa.  Se  for  dono
de  todas  as  máquinas  impressoras,  o  governo  determinará  o  que
deve  e  o  que  não  deve  ser  impresso.  Nesse  caso,  a  possibilidade  de
se  publicar  qualquer  tipo  de  crítica  às  ideias  oficiais  torna-se  prati-
camente  nula.  A  liberdade  de  imprensa  desaparece.  E  o  mesmo  se
aplica  a  todas  as  demais  liberdades.

Quando  há  economia  de  mercado,  o  indivíduo  tem  a  liberda-
de  de  escolher  qualquer  carreira  que  deseje  seguir,  de  escolher  seu
próprio  modo  de  inserção  na  sociedade.  Num  sistema  socialista  é
diferente:  as  carreiras  são  decididas  por  decreto  do  governo.  Este
pode  ordenar  às  pessoas  que  não  lhe  sejam  gratas,  àquelas  cuja  pre-
sença  não  lhe  pareça  conveniente  em  determinadas  regiões,  que  se
mudem  para  outras  regiões  e  outros  lugares.  E  sempre  há  como  jus-
tificar  e  explicar  semelhante  procedimento:  declara-se  que  o  plano
governamental  exige  a  presença  desse  eminente  cidadão  a  cinco  mil
milhas  de  distância  do  local  onde  ele  estava  sendo  ou  poderia  ser
incômodo  aos  detentores  do  poder.

É  verdade  que  a  liberdade  possível  numa  economia  de  mercado
não  é  uma  liberdade  perfeita  no  sentido  metafísico.  Mas  a  liberdade
perfeita  não  existe.  É  só  no  âmbito  da  sociedade  que  a  liberdade
tem  algum  significado.  Os  pensadores  que  desenvolveram,  no  sécu-
lo  XVIII,  a  ideia  da  “lei  natural”  –  sobretudo  Jean-Jacques  Rousseau
–  acreditavam  que  um  dia,  num  passado  remoto,  os  homens  haviam
desfrutado  de  algo  chamado  liberdade  “natural”.  Mas  nesses  tem-
pos  remotos  os  homens  não  eram  livres  –  estavam  à  mercê  de  todos
os  que  fossem  mais  fortes  que  eles  mesmos.  As  famosas  palavras  de
Rousseau:  “O  homem  nasceu  livre  e  se  encontra  acorrentado  em
toda  parte”,  talvez  soem  bem,  mas  na  verdade  o  homem  não  nasceu
livre.  Nasceu  como  uma  frágil  criança  de  peito.  Sem  a  proteção  dos
pais,  sem  a  proteção  proporcionada  a  esses  pais  pela  sociedade,  não
teria  podido  sobreviver.

Liberdade  na  sociedade  significa  que  um  homem  depende  tanto
dos  demais  como  estes  dependem  dele.  A  sociedade,  quando  regida
pela  economia  de  mercado,  pelas  condições  da  economia  livre,  apre-
senta  uma  situação  em  que  todos  prestam  serviços  aos  seus  conci-
dadãos  e  são,  em  contrapartida,  por  eles  servidos.  Acredita-se,  que
existem  na  economia  de  mercado  chefões  que  não  dependem  da  boa
vontade  e  do  apoio  dos  demais  cidadãos.  Os  capitães  de  indústria,
os  homens  de  negócios,  os  empresários  seriam  os  verdadeiros  che-
fões  do  sistema  econômico.  Mas  isso  é  uma  ilusão.  Quem  manda  no
sistema  econômico  são  os  consumidores.  Se  estes  deixam  de  presti-
giar  um  ramo  de  atividades,  os  empresários  deste  ramo  são  compeli-
dos  ou  a  abandonar  sua  eminente  posição  no  sistema  econômico,  ou
a  ajustar  suas  ações  aos  desejos  e  às  ordens  dos  consumidores.

Uma  das  mais  notórias  divulgadoras  do  comunismo  foi  Beatrice
Potter,  nome  de  solteira  de  Lady  Passfield  (tambem  muito  conhe-
cida  por  conta  de  seu  marido  Sidney  Webb).  Essa  senhora,  filha
de  um  rico  empresário,  trabalhou  quando  jovem  como  secretária
do  pai.  Em  suas  memórias,  ela  escreve:  “Nos  negócios  de  meu  pai,
todos  tinham  de  obedecer  às  ordens  dadas  por  ele,  o  chefe.  Só  a  ele
competia  dar  ordens,  e  a  ele  ninguém  dava  ordem  alguma.”  Esta  é
uma  visão  muito  acanhada.  Seu  pai  recebia  ordens:  dos  consumi-
dores,  dos  compradores.  Lamentavelmente,  ela  não  foi  capaz  de
perceber  essas  ordens;  não  foi  capaz  de  perceber  o  que  ocorre  numa
economia  de  mercado,  exclusivamente  voltada  que  estava  para  as
ordens  expedidas  dentro  dos  escritórios  ou  da  fábrica  do  pai.

Diante  de  todos  os  problemas  econômicos,  devemos  ter  em
mente  as  palavras  que  o  grande  economista  francês  Frédéric  Bas-
tiat  usou  como  título  de  um  de  seus  brilhantes  ensaios:  “Ce  quon
voit  et  ce  qu’on  ne  voit  pas”  (“O  que  se  vê  e  o  que  não  se  vê”).  Para
compreender  como  funciona  um  sistema  econômico,  temos  de  le-
var  em  conta  não  só  o  que  pode  ser  visto,  mas  também  o  que  não
pode  ser  diretamente  percebido.  Por  exemplo,  uma  ordem  dada
por  um  chefe  a  um  contínuo  pode  ser  ouvida  por  aqueles  que  este-
jam  na  mesma  sala.  O  que  não  se  pode  ouvir  são  as  ordens  dadas
ao  chefe  por  seus  clientes.

O  fato  é  que,  no  sistema  capitalista,  os  chefes,  em  última  ins-
tância,  são  os  consumidores.  Não  é  o  estado,  é  o  povo  que  é  so-
berano.  Prova  disto  é  o  fato  de  que  lhe  assiste  o  direito  de  ser  tolo.
Este  é  o  privilégio  do  soberano.  Assiste-lhe  o  direito  de  cometer
erros:  ninguém  o  pode  impedir  de  cometê-los,  embora,  obviamen-
te,  deva  pagar  por  eles.  Quando  afirmamos  que  o  consumidor  é
supremo  ou  soberano,  não  estamos  afirmando  que  está  livre  de
erros,  que  sempre  sabe  o  que  melhor  lhe  conviria.  Muitas  vezes
os  consumidores  compram  ou  consomem  artigos  que  não  deviam
comprar  ou  consumir.  Mas  a  ideia  de  que  uma  forma  capitalista
de  governo  pode  impedir,  através  de  um  controle  sobre  o  que  as
pessoas  consomem,  que  elas  se  prejudiquem,  é  falsa.  A  visão  do
governo  como  uma  autoridade  paternal,  um  guardião  de  todos,  é
própria  dos  adeptos  do  socialismo.

Nos  Estados  Unidos,  o  governo  empreendeu  certa  feita,  há  al-
guns  anos,  uma  experiência  que  foi  qualificada  de  “nobre”.  Essa
“nobre  experiência”  consistiu  numa  lei  que  declarava  ilegal  o  con-
sumo  de  bebidas  tóxicas.  Não  há  dúvida  de  que  muita  gente  se
prejudica  ao  beber  conhaque  e  whisky  em  excesso.  Algumas  au-
toridades  nos  Estados  Unidos  são  contrárias  até  mesmo  ao  fumo.
Certamente  há  muitas  pessoas  que  fumam  demais,  não  obstante  o
fato  de  que  não  fumar  seria  melhor  para  elas.  Isso  suscita  um  pro-
blema  que  transcende  em  muito  a  discussão  econômica:  põe  a  nu
o  verdadeiro  significado  da  liberdade.  Se  admitirmos  que  é  bom
impedir  que  as  pessoas  se  prejudiquem  bebendo  ou  fumando  em
excesso,  haverá  quem  pergunte:  “Será  que  o  corpo  é  tudo?  Não  se-
ria  a  mente  do  homem  muito  mais  importante?  Não  seria  a  mente
do  homem  o  verdadeiro  dom,  o  verdadeiro  predicado  humano?”
Se  dermos  ao  governo  o  direito  de  determinar  o  que  o  corpo  hu-
mano  deve  consumir,  de  determinar  se  alguém  deve  ou  não  fumar,
deve  ou  não  beber,  nada  poderemos  replicar  a  quem  afirme:  “Mais
importante  ainda  que  o  corpo  é  a  mente,  é  a  alma,  e  o  homem
se  prejudica  muito  mais  ao  ler  maus  livros,  ouvir  música  ruim  e
assistir  a  maus  filmes.  É,  pois,  dever  do  governo  impedir  que  se
cometam  esses  erros.”  E,  como  todos  sabem,  por  centenas  de  anos
os  governos  e  as  autoridades  acreditaram  que  esse  era  de  fato  o  seu
dever.  Nem  isso  aconteceu  apenas  em  épocas  remotas.  Não  faz
muito  tempo,  houve  na  Alemanha  um  governo  que  considerava
seu  dever  discriminar  as  boas  e  as  más  pinturas  –  boas  e  más,  é
claro,  do  ponto  de  vista  de  um  homem  que,  na  juventude,  fora
reprovado  no  exame  de  admissão  à  Academia  de  Arte,  em  Viena:
era  o  bom  e  o  mau  segundo  a  ótica  de  um  pintor  de  cartão-postal.
E  tornou-se  ilegal  expressar  concepções  sobre  arte  e  pintura  que
divergissem  daquelas  do  Führer  supremo.

A  partir  do  momento  em  que  começamos  a  admitir  que  é
dever  do  governo  controlar  o  consumo  de  álcool  do  cidadão,  que
podemos  responder  a  quem  afirme  ser  o  controle  dos  livros  e  das
ideias  muito  mais  importante?  Liberdade  significa  realmente  li-
berdade  para  errar.  Isso  precisa  ser  bem  compreendido.  Podemos
ser  extremamente  críticos  com  relação  ao  modo  como  nossos
concidadãos  gastam  seu  dinheiro  e  vivem  sua  vida. Podemos
considerar  o  que  fazem  absolutamente  insensato  e  mau.  Numa
sociedade  livre,  todos  têm,  no  entanto,  as  mais  diversas  manei-
ras  de  manifestar  suas  opiniões  sobre  como  seus  concidadãos
deveriam  mudar  seu  modo  de  vida:  eles  podem  escrever  livros;
escrever  artigos;  fazer  conferências.  Podem  até  fazer  pregações
nas  esquinas,  se  quiserem  –  e  faz-se  isso,  em  muitos  países.  Mas
ninguém  deve  tentar  policiar  os  outros  no  intuito  de  impedi-los
de  fazer  determinadas  coisas  simplesmente  porque  não  se  quer
que  as  pessoas  tenham  a  liberdade  de  fazê-las.

É  essa  a  diferença  entre  escravidão  e  liberdade.  O  escravo  é
obrigado  a  fazer  o  que  seu  superior  lhe  ordena  que  faça,  enquanto  o
cidadão  livre  –  e  é  isso  que  significa  liberdade  –  tem  a  possibilidade
de  escolher  seu  próprio  modo  de  vida.  Sem  dúvida  esse  sistema  ca-
pitalista  pode  ser  –  e  é  de  fato  –  mal  usado  por  alguns.  É  certamente
possível  fazer  coisas  que  não  deveriam  ser  feitas.  Mas  se  tais  coisas
contam  com  a  aprovação  da  maioria  do  povo,  uma  voz  discordante
terá  sempre  algum  meio  de  tentar  mudar  as  ideias  de  seus  concida-
dãos.  Pode  tentar  persuadi-los,  convencê-los,  mas  não  pode  tentar
constrangê-los  pela  força,  pela  força  policial  do  governo.

Na  economia  de  mercado,  todos  prestam  serviços  aos  seus
concidadãos  ao  prestarem  serviços  a  si  mesmos.  Era  isso  o  que
tinham  em  mente  os  pensadores  liberais  do  século  XVIII,  quan-
do  falavam  da  harmonia  dos  interesses  –  corretamente  compre-
endidos  –  de  todos  os  grupos  e  indivíduos  que  constituem  a  po-
pulação.  E  foi  a  essa  doutrina  da  harmonia  de  interesses  que  os
socialistas  se  opuseram.  Falaram  de  um  “conflito  inconciliável
de  interesses”  entre  vários  grupos.

Que  significa  isso?  Quando  Karl  Marx  –  no  primeiro  capítulo
do  Manifesto  Comunista,  esse  pequeno  panfleto  que  inaugurou
seu  movimento  socialista  –  sustentou  a  existência  de  um  conflito
inconciliável  entre  as  classes,  só  pode  evocar,  como  ilustração
à  sua  tese,  exemplos  tomados  das  condições  da  sociedade  pré-
capitalista.  Nos  estágios  pré-capitalistas,  a  sociedade  se  dividia
em  grupos  hereditários  de  status,  na  Índia  denominados  “castas”.
Numa  sociedade  de  status,  um  homem  não  nascia,  por  exemplo,
cidadão  francês;  nascia  na  condição  de  membro  da  aristocracia
francesa,  ou  da  burguesia  francesa,  ou  do  campesinato  francês.
Durante  a  maior  parte  da  Idade  Média,  era  simplesmente  um
servo.  E  a  servidão,  na  França,  ainda  não  havia  sido  inteiramen-
te  extinta  mesmo  depois  da  Revolução  Americana.  Em  outras
regiões  da  Europa,  a  sua  extinção  ocorreu  ainda  mais  tarde.  Mas
a  pior  forma  de  servidão  –  forma  que  continuou  existindo  mes-
mo  depois  da  abolição  da  escravatura  –  era  a  que  tinha  lugar  nas
colônias  inglesas.  O  indivíduo  herdava  seu  status  dos  país  e  o
conservava  por  toda  a  vida.  Transferia-o  aos  filhos.  Cada  grupo
tinha  privilégios  e  desvantagens.  Os  de  status  mais  elevado  ti-
nham  apenas  privilégios,  os  de  status  inferior,  só  desvantagens.  E
não  restava  ao  homem  nenhum  outro  meio  de  escapar  às  desvan-
tagens  legais  impostas  por  seu  status  senão  a  luta  política  contra
as  outras  classes.  Nessas  condições,  pode-se  dizer  que  havia  “um
conflito  inconciliável  de  interesses  entre  senhores  de  escravos
e  escravos”,  porque  o  interesse  dos  escravos  era  livrar-se  da  es-
cravidão,  da  qualidade  de  escravos.  E  sua  liberdade  significava,
para  os  seus  proprietários,  uma  perda.  Assim  sendo,  não  há  dú-
vida  de  que  tinha  de  existir  forçosamente  um  conflito  inconcili-
ável  de  interesses  entre  os  membros  das  várias  classes.

Não  devemos  esquecer  que  nesses  períodos  –  em  que  as  socieda-
des  de  status  predominaram  na  Europa,  bem  como  nas  colônias  que
os  europeus  fundaram  posteriormente  na  América  –  as  pessoas  não
se  consideravam  ligadas  de  nenhuma  forma  especial  às  demais  clas-
ses  de  sua  própria  nação;  sentiam-se  muito  mais  solidárias  com  os
membros  de  suas  classes  nos  outros  países.  Um  aristocrata  francês
não  tinha  os  franceses  das  classes  inferiores  na  conta  de  seus  con-
cidadãos:  a  seus  olhos,  eles  não  eram  mais  que  a  ralé,  que  não  lhes
agradava.  Seus  iguais  eram  os  aristocratas  dos  demais  países  –  os  da
Itália,  Inglaterra  e  Alemanha,  por  exemplo.

O  efeito  mais  visível  desse  estado  de  coisas  era  o  fato  de  os  aris-
tocratas  de  toda  a  Europa  falarem  a  mesma  língua,  o  francês,  idioma
não  compreendido,  fora  da  França,  pelos  demais  grupos  da  popula-
ção.  As  classes  médias  –  a  burguesia  –  tinham  sua  própria  língua,
enquanto  as  classes  baixas  –  o  campesinato  –  usavam  dialetos  locais,
muitas  vezes  não  compreendidos  por  outros  grupos  da  população.
O  mesmo  se  passava  com  relação  aos  trajes.  Quem  viajasse  de  um
país  para  outro  em  1750  constataria  que  as  classes  mais  elevadas,
os  aristocratas,  se  vestiam  em  geral  de  maneira  idêntica  em  toda  a
Europa;  e  que  as  classes  baixas  usavam  roupas  diferentes.  Vendo
alguém  na  rua,  era  possível  perceber  de  imediato  –  pelo  modo  como
se  vestia  –  a  sua  classe,  o  seu  status.

É  difícil  avaliar  o  quanto  essa  situação  era  diversa  da  atual.  Se
venho  dos  Estados  Unidos  para  a  Argentina  e  vejo  um  homem  na
rua,  não  posso  dizer  qual  é  seu  status.  Concluo  apenas  que  é  um
cidadão  argentino,  não  pertencente  a  nenhum  grupo  sujeito  a  restri-
ções  legais.  Isto  é  algo  que  o  capitalismo  nos  trouxe.  Sem  dúvida  há
também  diferenças  entre  as  pessoas  no  capitalismo.  Há  diferenças
em  relação  à  riqueza;  diferenças  estas  que  os  marxistas,  equivocada-
mente,  consideram  equivalentes  àquelas  antigas  que  separavam  os
homens  na  sociedade  de  status.
Numa  sociedade  capitalista,  as  diferenças  entre  os  cidadãos
não  são  como  as  que  se  verificam  numa  sociedade  de  status.  Na
Idade  Média  –  e  mesmo  bem  depois,  em  muitos  países  –  uma  fa-
mília  podia  ser  aristocrata  e  possuidora  de  grande  fortuna,  podia
ser  uma  família  de  duques,  ao  longo  de  séculos  e  séculos,  fossem
quais  fossem  suas  qualidades,  talentos,  caráter  ou  moralidade.  Já
nas  modernas  condições  capitalistas,  verifica-se  o  que  foi  tecni-
camente  denominado  pelos  sociólogos  de  “mobilidade  social”.
O  princípio  segundo  o  qual  a  mobilidade  social  opera,  nas  pala-
vras  do  sociólogo  e  economista  italiano  Vilfredo  Pareto,  é  o  da
“circulation  des  élites”  (“circulação  das  elites”).  Isso  significa  que
haverá  sempre  no  topo  da  escada  social  pessoas  ricas,  politica-
mente  importantes,  mas  essas  pessoas  –  essas  elites  –  estão  em
contínua  mudança.

Isto  se  aplica  perfeitamente  a  uma  sociedade  capitalista.  Não
se  aplicaria  a  uma  sociedade  pré-capitalista  de  status.  As  famílias
consideradas  as  grandes  famílias  aristocráticas  da  Europa  perma-
necem  as  mesmas  até  hoje,  ou  melhor,  são  formadas  hoje  pelos
descendentes  de  famílias  que  constituíam  a  nata  na  Europa,  há
oito,  dez  ou  mais  séculos.  Os  Capetos  de  Bourbon  –  que  por  um
longo  período  dominaram  a  Argentina  –  já  eram  uma  casa  real
desde  o  século  X.  Reinavam  sobre  o  território  hoje  chamado
Ile-de-France,  ampliando  seu  reino  a  cada  geração.  Mas  numa
sociedade  capitalista  há  uma  continua  mobilidade  –  pobres  que
enriquecem  e  descendentes  de  gente  rica  que  perdem  a  fortuna  e
se  tornam  pobres.