Produto certo, no momento certo: Honda HR-V

Leio no jornal O Globo (íntegra AQUI) o seguinte:

Com filas de espera de dois meses, a Honda acaba de aumentar em R$ 2 mil os preços do utilitário HR-V, lançado em março.
A versão básica (LX com câmbio manual) subiu de R$ 69.900 para R$ 71.900. Com a caixa automática do tipo CVT, o valor foi de R$ 75.400 para R$ 77.400,00.
Na versão intermediária (EX), o preço aumentou de R$ 80.400 para R$ 82.400,00. Por fim, o topo de linha EXL foi aumentado de R$ 88.700 para R$ 90.700.
Em apenas quatro meses nas concessionárias, o HR-V já é o utilitário mais vendido no Brasil: só em junho, foram 5.229 unidades, contra 3.482 Renault Duster, 3.059 Jeep Renegade e 2.628 Ford EcoSport.
No Rio, o HR-V já é o carro 0km mais emplacado, superando hatches e sedãs de preço mais em conta.

Como pode? Estamos em meio a uma gravíssima crise econômica (a mais grave dos últimos 20 anos) no Brasil, o setor automotivo está demitindo milhares de pessoas a cada semana, colocando outras milhares em lay-off, a recessão só dá sinais de piorar e, no meio disso tudo, uma empresa pode se dar ao luxo de AUMENTAR o preço do seu carro?

Como pode?

Esta é a magia do mercado, da concorrência, do capitalismo.

Quando uma empresa lança o produto certo, no momento certo, ela até pode cometer alguns erros – mas as chances de ter sucesso aumentam muito. O segmento de SUVs pequenos era dominado pelo EcoSport, da Ford. Mas como ele ficou muito tempo sem concorrência, acabou sendo o líder mais por inércia do que por méritos próprios.

A Honda demorou, mas ela lançou um produto superior ao Ford EcoSport – e pegou a concorrente americana no momento certo: a curva descendente do EcoSport, que sempre foi espartano, com motor fraco e, como não tinha concorrentes à altura, podia cobrar o preço que quisesse. Ganhou market-share, e levou outras empresas a tentar criar produtos (carros) para disputar o mercado.

Contudo, os produtos criados para concorrer com o EcoSport eram igualmente fracos – especialmente da Renault, uma fabricante com assistência técnica (serviço) ruim e reputação duvidosa: os carros da Renault no Brasil são descontinuados sem mais nem menos, gerando insegurança entre os clientes, que podem comprar um carro que em poucos meses será peça de museu.

A Honda tem uma reputação exatamente oposta: a fama de carros que não quebram (eu confirmo: é verdade), assistência técnica boa (inclusive com preços justos), com unidades fabris no Brasil, estabilidade de produtos (basta ver há quanto tempo Civic, Fit e City são vendidos no Brasil) e disponibilidade de peças.
Obviamente, um design matador não atrapalha:

Honda-HR-V-Brasil-04

Alguns vão argumentar que o interior do HR-V é espartano, o motor é fraco para o tamanho do carro etc… Bom, eu não disse que o produto é perfeito.

Mas para o segmento-alvo que a Honda quis atingir, ele oferece o necessário – e equilibra a construção boa com a fama da Honda (de inquebrável) e assistência técnica renomada. A Honda tem outro produto (CR-V) com motor maior, interior mais sofisticado – e preço bem superior, claro.

Mas é preciso ter em mente: o público-alvo da Honda, com o HR-V, não é o mesmo que compra um Audi Q7, um Range Rover ou um Mercedes GLR. O alvo da Honda era atingir justamente quem comprava o EcoSport – que tem motorização fraca, interior mais do que espartano, barulhos inconvenientes, assistência técnica desleixada etc…

Em suma: você não precisa oferecer o produto PERFEITO – precisa oferecer o produto ADEQUADO para determinado segmento de mercado.
Foi exatamente o que a Honda fez.

Graças a isso, ela pode se dar ao luxo de aumentar o preço do HR-V em meio à crise gravíssima – particularmente devastadora para o setor automotivo. E ainda tem fila de espera!

GIGANTES DA INDÚSTRIA – documentário imperdível

Para quem quiser entender um pouco mais sobre capitalismo, sociedade, governo e empresas, além de conhecer uma parte da vida dos maiores empreendedores da História, recomendo fortemente o documentário OS GIGANTES DA INDÚSTRIA.

São oito episódios, com dramatização de situações cruciais no desenvolvimento do capitalismo norte-americano, mas que tiveram impacto na Administração moderna. John Rockefeller, Henry Ford, Andrew Carnegie, John Paul Morgan são alguns dos personagens/personalidades mostrados, e certamente muito pouca gente conhece os detalhes que cercaram as histórias desses homens.

O History Channel passou recentemente, mas eles fuderam o documentário com excesso de intervalos e falta de regularidade de transmissão (tentei gravar mas mudanças de horário e reprises me quebraram).

Descobri um site que tem os 8 episódios disponíveis para download (infelizmente para mim, apenas nas versão dublada em português, sem opção de áudio original). Veja AQUI.

De qualquer forma, esse é um documentário que, se estivesse disponível em DVD, eu compraria sem hesitar.

IMPERDÍVEL.

Aqui o teaser oficial:

Obs: os arquivos que baixei pelo site estavam em formato MKV, um formatou pouco usual, e que muitos softwares populares não conseguem reproduzir. Use um aplicativo chamado VLC. É o melhor player que conheço, porque consegue abrir tudo que é formato de áudio e vídeo. Além disso, tem versões para Mac e Windows, e agora também para iPhone/iPad (iOS).
Você pode baixar AQUI.
É gratuito, e funciona bem pacas!


ATUALIZAÇÃO: fui informado por um aluno de que os episódios já estão no YouTube (quando escrevi o post, originalmente, não estavam). Fui procurar, e estão mesmo!

Vou colocar todos abaixo.


ATUALIZAÇÃO 30/05/2015: Parece que o YouTube fez o desfavor de tirar todos os episódios do ar. Se alguém tiver os vídeos e quiser compartilhar o link, por favor envie pela página de contato. Obrigado.

Consegui localizar o primeiro episódio, já colocado abaixo. Porém, nunca se sabe por quanto tempo ficará no ar…

Finalmente: há uma página no Facebook dedicada a esta série, e eles estão oferecendo a série em DVD. Não conheço os administradores da página, portanto não posso dizer se são idôneos e se é seguro comprar, mas quem quiser saber mais pode acessar diretamente ESTE POST no Facebook.


Episódio 1:

Episódio 2:

Episódio 3:

Episódio 4:

Episódio 5:

Episódio 6:

Episódio 7:

Episódio 8:

Comigo ninguém iPod – David Kupfer

Excelente (como de costume) a coluna do David Kupfer no ValorEconômico de ontem:

A recente entrada em cena do tema do conteúdo local como protagonista do debate mais geral sobre os rumos da política econômica merece ser comemorada em si mesmo, como uma evidência animadora de que, enfim, a agenda macro não mais monopoliza as atenções e que o interesse na discussão de assuntos além de inflação, juros ou câmbio está se reconstituindo no país. Nem tão animadora, porém, é a constatação de que esse debate, embora mais presente, ainda é dominado por posições muito simplistas, que opõem defensores da opção nacional versus a global como se o Brasil se visse obrigado a fazer escolhas binárias, autoexcludentes.

De fato, na perspectiva do sistema fragmentado de produção, também conhecido como especialização vertical, que dá a tônica da organização industrial nos setores mais dinâmicos da indústria contemporânea, haja vista especialmente o que ocorre com as tecnologias microeletrônicas e de informação e comunicação, supor que os países façam ou precisem fazer tal tipo de opção parece extemporâneo ou mesmo ingênuo.

Extemporâneo porque o debate sobre vantagens e desvantagens da produção local versus a global iniciou-se ainda na década de 1980, tendo como marco a experiência, por sinal, fracassada, do carro mundial da GM e esgotou-se em meados dos anos 1990 com o surgimento de diversas soluções mistas bem sucedidas, ditas “glocais”. Um exemplo desse tipo de solução, apenas para ficar no setor automobilístico, foi o modelo do consórcio modular, testado e aprovado na experiência piloto realizada pela VW na fábrica de caminhões montada no Brasil (Resende).

Ingênuo porque opor local e global desconhece a complexidade da manufatura contemporânea, não somente no chão de fábrica mas em tantas atividades que se estruturam no seu entorno com o intuito de fazê-lo funcionar com alta produtividade e inovatividade. Estão nesse caso, etapas vitais como engenharia, projeto de produto, licenciamento de propriedade intelectual, software e diversos outros serviços empresariais, geralmente de alto valor adicionado, muito além dos equipamentos de processo e dos insumos industriais.

Na especialização vertical, as empresas especializam as diferentes fábricas instaladas em diferentes países ou regiões para a manufatura de diferentes produtos. Diversamente do modelo da maquila, no qual as unidades são meras montadoras, a realização descentralizada das atividades produtivas e tecnológicas propicia que cada sistema local de produção cumpra um determinado papel em uma grande cadeia global de valor. Um bom exemplo é a cadeia global de valor do iPod da Apple. Montado na China e vendido no mercado americano, o iPod de 30 giga constituiu um caso meticulosamente estudado em uma pesquisa realizada nos EUA em 2007. Dentre outras conclusões, o estudo permitiu comprovar o fato de que nenhum pais individualmente é fonte da totalidade das inovações incorporadas no produto.

Como resultado, a especialização vertical mostra-se como um modelo superior de organização da produção, não somente devido às suas implicações favoráveis sobre a eficiência industrial. Ela também constitui um modelo de divisão internacional de trabalho que contempla a dimensão nacional, proporcionando aos países a capacidade de se apropriar mais amplamente dos ganhos proporcionados pela atividade industrial, incluindo principalmente os decorrentes das externalidades positivas que comumente acompanham a indústria. Por essa razão, a coordenação eficaz dessas cadeias de valor apoia-se necessariamente na firme adesão dos Estados nacionais, por meio de políticas industriais formatadas com essa finalidade. Não sem razão, é visível o esforço americano visando retomar a atividade industrial em vista da sensação hoje prevalecente de que a transferência da manufatura para a Ásia está trazendo um custo significativo em termos de perda de efetividade do sistema de inovação do país.

Nos anos 1960 ou 1970, os teóricos do desenvolvimentismo costumavam afirmar, corretamente, que um mero aumento do peso da indústria no PIB não seria suficiente para configurar um processo de industrialização. Seria necessário muito mais: a indústria teria que se tornar o centro dinâmico do padrão de crescimento econômico, o que significa exercer um papel motriz no modelo de desenvolvimento. Isso exigia, à época, uma crescente internalização da indústria pesada, especialmente os bens de capital, indutores do progresso técnico requerido para a firme expansão da produtividade.

Por essa razão, uma rápida expansão industrial, mesmo que condição necessária, poderia não ser suficiente para configurar um processo de industrialização. Exemplos muito claros de mais indústria sem industrialização eram proporcionados por países que experimentaram rápido crescimento da produção baseado na exploração de mão de obra barata, geralmente em setores ligados às indústrias tradicionais ou, posteriormente, na constituição de maquilas, que são indústrias restritas à montagem local de partes e componentes inteiramente importados.

De modo análogo, na atualidade, a mera redução do peso da indústria no PIB não deve ser considerada como evidência suficiente para configurar um processo de desindustrialização. É necessário que outras transformações no padrão de crescimento da economia tenham lugar e, principalmente, que a atividade industrial perca capacidade de constituir o núcleo dinâmico da economia. No século XXI, evitar essa possibilidade deve ser a “rationale” das políticas de conteúdo local.

David Kupfer é professor e pesquisador licenciado do Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da UFRJ (GIC-IE/UFRJ) e assessor da presidência do BNDES. Escreve mensalmente às segundas-feiras. E-mail: gic@ie.ufrj.br/ http://www.ie.ufrj.br/gic. As opiniões expressas são do autor e não necessariamente refletem posições do BNDES.

http://www.valor.com.br/opiniao/2785688/comigo-ninguem-ipod#ixzz23ZqXB3VV