Golpe, não! Impeachment, sim.

Evidentemente, nas últimas semanas o assunto mais discutido tem sido o impeachment da Dilma Ruinsseff. E uma das afirmações mais frequentes – e, ao mesmo tempo, esdrúxulas – é a de que o impeachment seria um “golpe”.

Num país minimamente civilizado, uma afirmção desbaratada como esta sequer precisaria ser discutida, uma vez que o impeachment é um dispositivo CONSTITUCIONAL, e que inclusive já foi usado no Brasil em 1992.

Aliás, por falar em 1992, vamos traçar alguns paralelos?

Em 1992, Lula e todas as lideranças do PT estavam na linha de frente das convocações pedindo o impeachment de Fernando Collor
Em 1992, Lula e todas as lideranças do PT estavam na linha de frente das convocações pedindo o impeachment de Fernando Collor

 

Em 1992, Fernando Collor renunciou para não sofrer o impechment (que já havia sido acatado pela Câmara dos Deputados, à época presidida por Ibsen Pinheiro, que viria a ser cassado em 1994 devido ao seu envolvimento na chamada “Máfia dos Anões do Orçamento” e no Senado era dado como certo que seria aprovado por maioria qualificada também), porém acabou sofrendo o impeachment mesmo assim – e posteriormente foi considerado inocente pelo STF.

O impeachment é, por definição, um julgamento POLÍTICO – e o caso do Collor é o exemplo perfeito disso: mesmo condenado politicamente pelo Congresso Nacional, foi absolvido no âmbito judicial/criminal pelo STF.

Os mortadelas que estão dizendo agora que impeachment é golpe já perguntaram a opinião do "guerreiro do povo brasileiro" que eles veneram?
Os mortadelas que estão dizendo agora que impeachment é golpe já perguntaram a opinião do “guerreiro do povo brasileiro” que eles veneram?

 

Kildare Gonçalves Carvalho, Paulo Brossard e outros juristas de verdade (não os oportunistas que estão surgindo do nada agora, nas patéticas tentativas de Dilma buscar desculpas esfarrapadas) já afirmaram inúmeras vezes: “O impeachment é um processo político.

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Kildare Gonçalves Carvalho: Direito Constitucional – Teoria do Estado e da Constituição. Editora Del Rey, 2008. (página 1.103)

Vou repetir: Fernando Collor de Mello foi absolvido no seu julgamento jurídico, no Supremo Tribunal Federal. Ele foi julgado lá por ter sido acusado de crime comum, além do crime de responsabilidade. O julgamento do primeiro é jurídico. O julgamento do segundo é político. Essa é a Constituição Federal.

O impeachment de Fernando Collor foi uma das melhores coisas que aconteceram na História recente do Brasil. Graças a este impeachment, Itamar Franco assumiu um governo de coalizão, no qual nomeou Fernando Henrique Cardoso Ministro da Fazenda – e isso deu origem ao Plano Real, implantado em 1994. O Plano Real foi um divisor de águas na História do Brasil, como todo mundo sabe.

O PT pediu o impeachment de Collor, de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso.
O PT pediu o impeachment de Collor, de Itamar e de FHC

 

Foi graças ao sucesso do Plano Real que a inflação foi finalmente debelada (a despeito dos esforços da Dilma em reverter isso) e o Brasil conseguiu, finalmente!, avançar. Claro que outros fatores posteriores também deram suas contribuições, mas o Plano Real foi a base, a fundação, a “pedra fundamental” de tudo – pois se o Brasil continuasse com a inflação que venceu planos como Collor, Bresser, Verão etc, o desastre continuaria até hoje:

Neste ponto, quero fazer um resumo:

  1. Fernando Collor de Mello foi eleito dentro das regras eleitorais vigentes em 1989, de forma democrática, pelo voto direto, e acabou sofrendo impeachment em 1992, o que era a vontade da maioria dos eleitores do Brasil naquele momento;
  2. O processo de impeachment de Collor foi iniciado por um deputado envolvido em denúncias graves, que acabaria cassado por corrupção (em 1994);
  3. Graças ao impeachment de Collor, o Brasil destravou a economia e conseguiu progredir de verdade.

O leitor percebe alguma relação entre 1992 e 2015?

Dilma Ruinsseff foi eleita democraticamente? Sim, a despeito da campanha eleitoral calcada unicamente em mentiras, foi. Mas isso não tem nada a ver com o impeachment - até porque seria impossível pedir impeachment de quem NÃO foi eleito.
Dilma foi eleita democraticamente?
Sim, a despeito da campanha eleitoral calcada unicamente em mentiras, foi.
Mas isso não tem nada a ver com o impeachment – até porque seria impossível pedir impeachment de quem NÃO foi eleito.

 

Uns abobalhados estão dizendo que não haveria razões para o impeachment de Dilma, mas que havia motivos para o impeachment de Collor. Não por acaso, são os mesmos que pediram o impeachment de todos os presidentes DEMOCRATICAMENTE ELEITOS desde 1989 no Brasil.

Posição do PT sobre impeachment no passado

Bobagem. Há razões de sobra para o impeachment de Dilma. Ela cometeu DIVERSOS crimes, e alguns foram REPETIDOS diversas vezes. Na denúncia contra Dilma, há as pedaladas dadas — e já admitidas publicamente até pelo estagiário do Palácio do Planalto — em 2014, mas também as praticadas em 2015. Mas não é só isso!

A peça evidencia ainda que ela editou uma série de decretos em 2014 e 2015 (portanto diz respeito a AMBOS OS MANDATOS) que resultaram na abertura de créditos suplementares sem autorização do Congresso Nacional, crime devidamente tipificado nos itens 4 e 6 do Artigo 10 da Lei 1.079, a chamada Lei do Impeachment. 

O texto aponta, ademais, os descalabros da Petrobras e acusa a responsabilidade da presidente, evocando os itens 3 e 7 do Artigo 9º da mesma Lei 1.079, segundo os quais “são crimes de responsabilidade contra a probidade na administração: não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição; (…) proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”. Recorro às palavras claras da Dra. Janaína Paschoal, uma das autoras da denúncia (recomendo a leitura desta entrevista com ela, na íntegra – muito esclarecedora):

A denúncia tem fulcro no artigo 85 da Constituição Federal e nos artigos 4, 9, 10 e 11 da Lei 1.079/50. Em resumo, se alicerça na falta de probidade administrativa, seja por ter protegido a diretoria da Petrobras, seja por negar os fatos sabidos na época eleitoral, ou por não contabilizar os empréstimos feitos junto a bancos públicos. A denúncia também tem base na afronta ao orçamento, haja vista que muitos dispositivos da lei de responsabilidade fiscal foram desrespeitados. Em especial a proibição de fazer empréstimos de bancos públicos e de fazer empréstimos (de quaisquer bancos) em ano eleitoral. A entrevista que o procurador do TCU, Julio Marcelo Oliveira, deu a BBC, há alguns dias, deixa esse expediente bastante nítido. No aditamento, por valiosa colaboração do Professor Miguel Reale Júnior, acrescentamos os decretos em que a Presidente abriu crédito suplementar, em valores consideráveis, sem autorização do Congresso.

Recomendo, ainda, que o dileto leitor assista à entrevista concedida pela Dra. Janaína Paschoal ao Roda Viva, que eu já disponibilizei no blog anteriormente, AQUI. As explicações sobre a denúncia contra Dilma Ruinsseff estão claríssimas.

Também andei lendo que as “pedaladas fiscais” não são motivo suficiente para impeachment.
Mentira. A prática fere diretamente a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas repito: a denúncia que foi acatada pelo Presidente da Câmara não se restringe às pedaladas fiscais.

Aliás, é engraçado notar o seguinte: alguns dias atrás, a imprensa noticiou fartamente que “um grupo de juristas” reuniu-se com Dilma – e deste encontro foram divulgadas as mais diversas opiniões, todas tentando sustentar que não haveria motivos para o impeachment.

O que a imprensa NÃO fez: mostrar de forma agrupada e reunida as diversas opiniões de alguns membros deste “grupo de juristas”. Entre eles, há os que digam que pedaladas fiscais não são crime, e que Dilma não fez nada parecido com as “pedaladas”. Porém, eles esqueceram de afinar os discursos!

A própria Dilma já disse, em discursos, que cometeu, sim, as pedaladas – e ela defendeu o ato, dizendo que ESCOLHEU fazer a operação ilegal porque não queria prejudicar o Bolsa Família ou o Minha Casa Minha Vida. E Dilma não está sozinha: Lula também reconhece que foram feitas as pedaladas. Recorro a um discurso da Dilma Ruinsseff de ONTEM, que pode ser lido na íntegra no site oficial do Palácio do Planalto, AQUI. Vamos ao trecho em que ela reconhece o crime de responsabilidade:

Eu quero dizer para vocês que nós iremos continuar entregando moradias. Nós já entregamos 2,4 milhões. Tem mais 1,6 milhões para entregar. Por isso que muitas vezes a gente entrega em link com outros estados, porque não tem dia no ano para entregar. Então a gente arruma, reúne um conjunto e entrega. Por que eu estou falando isso? Porque o orçamento de um país, ele tem de ser olhado do ponto de vista daquilo que você gasta e para quem você gasta. O para quem é mais importante do que qualquer outra consideração.

Uma das razões para que eu esteja sendo julgada hoje é porque uma parte eles acham que nós não gastamos, nós não devíamos ter gastado da forma que gastamos para fazer o Minha Casa Minha Vida. Uma das razões é essa. É o que eles chamam de pedaladas fiscais.

A gente, o governo federal, é dono da Caixa Econômica Federal, nós somos os únicos donos, o governo federal. Quando a gente paga a Caixa, o governo federal passa o dinheiro para a Caixa, a Caixa paga a empresa e, através da escolha pública, o apartamento vai para vocês. Não há nesse processo nenhum desvio. Não é essa a questão que levantam contra nós. O que eles levantam é que muitas vezes a Caixa paga o mês e aí nós recompomos o pagamento que a Caixa fez. O que que acontece? Quando chega no fim do ano, geralmente, a Caixa fica com mais dinheiro do que era o necessário. Mas, no mês em que ela não ficou com aquele dinheiro, nós pagamos juros para ela. Ou seja, se ela adianta o pagamento para nós, nós pagamos juros para ela. Se ela fica com nosso dinheiro, nós pagamos para ela… não, nós pagamos para ela juros quando ela fica com o nosso dinheiro, e ela paga para nós quando nós ficamos com o dinheiro dela. Ocorre que, no ano, a gente sempre paga mais do que ela paga para nós. Então ela sempre nos deve. Eles não concordam que isso seja uma relação. Eles acham que isso é um empréstimo. E como a Caixa não pode emprestar para o governo – mas o governo pode emprestar para a Caixa -, eles levaram isso e falaram que não estava certo, que a gente tinha de mudar. Ora, é por conta que nós fomos capazes de fazer o maior programa habitacional da história que nós hoje somos responsabilizados.

Repare, dileto leitor, que ela faz referência a “eles”: (1) O que eles levantam é que muitas vezes a Caixa paga o mês e aí nós recompomos o pagamento que a Caixa fez… ; (2) Eles acham que isso é um empréstimo… ; (3) eles levaram isso e falaram que não estava certo, que a gente tinha de mudar.
Ao falar em “eles”, esta criatura desprovida de senso de ridículo tenta levar os coitados que estavam ali para a cerimônia de entrega de casas a acreditar que “alguém” (“eles”) está perseguindo a “presidenta” porque ela quer entregar as casas aos pobres, mas “eles” não querem.
Na verdade, quem proíbe as pedaladas fiscais não são “eles”. É a Lei. E neste discurso (há outros) Dilma demonstra que ela não tem nenhum respeito pelas leis.

Mas alguns dos “juristas” do PT também reconheceram que houve, sim, as pedaladas – e um sub-grupo (são mais de 30 dando pitaco e batendo cabeça!) optou por dizer que isso era prática comum, todo mundo fazia, e por isso a Dilma não poderia ser punida (como se o fato de alguém ter cometido um crime antes da Dilma fosse razão suficiente para que ela não fosse punida). Há outro sub-grupo, todavia, que escolheu o caminho do “houve pedalada, sim, mas foi em 2014 e portanto não poderia ser alvo de impeachment no segundo mandato”.

Em suma, as “justificativas” são as mais variadas – e falaciosas – possíveis. Os tais “30 juristas do apocalipse” ofereceram um verdadeiro menu de desculpas esfarrapadas e justificativas sem sentido. Bateram cabeça o tempo todo, deram posições desencontradas – tudo no afã de justificar o injustificável.

Este vídeo esclarece tudo isso, de forma clara e cristalina:

As pedaladas (que são crime de responsabilidade, sim) começaram a acontecer, com um volume muito acima da média histórica, a partir de 2013, e atingiram o ápice em 2014 – justamente o ano eleitoral. Os valores anteriores eram pequenos, residuais, e costumavam ser liquidados em até 48 horas – e isso não era considerado “pedalada”. Quem quiser ver uma versão resumida (mais curta), pode clicar AQUI.

Eis aqui o gráfico que deixa isso muito claro (e este gráfico trata APENAS da Caixa Econômica Federal, mas há pedaladas em outras fontes pagadoras):

Pedaladas fiscais 2013-2014_TCU

Finalmente: chega dessa mentira de que impeachment é golpe. Não é! Está previsto na Constituição, Dilma cometeu crimes, e deve ser responsabilizada por eles. Ponto final.

Dilma quebrou o Brasil, mas a denúncia contra ela não tem nenhuma relação com isso. Ninguém está propondo que ela seja alvo de impeachment por causa da sua incompetência.

Dilma mentiu durante toda a campanha eleitoral, mas o impeachment também não tem nenhuma relação com suas mentiras.

O impeachment é um instrumento constitucional, reservado para punir Presidente da República, Governadores e Prefeitos quando há crime de responsabilidade. Dilma cometeu crime de responsabilidade (repetidamente, repito), e deve sofrer impeachment por isso.

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ATUALIZAÇÃO (11/12/2015): O jornal Valor Econômico publicou, hoje, uma reportagem especial sobre as “pedaladas fiscais”. Trata-se de uma reportagem histórica: ela mostra de forma absolutamente clara e cristalina que a despeito de avisos e alertas feitos por funcionários de perfil técnico, os chefes de autarquias da área econômica (notadamente Arno Augustin, então Secretário do Tesouro e aliado intelectual de Dilma Ruinsseff) ESCOLHERAM ignorar as análises técnicas, muito bem fundamentadas na lei, na Ciência Econômica e na matemática, para fraudar as contas do governo. Relembro algo que eu já escrevi aqui no blog: quando alguém comete um crime, pode fazê-lo de forma consciente, SABENDO que está cometendo um crime, e portanto com a INTENÇÃO de cometer um crime (dolo), ou de forma inconsciente, SEM SABER do crime, sem que haja a intenção DE COMETER um crime e/ou prejudicar terceiros (culpa). Em ambos os casos, crime é crime, havendo ou não a intenção e/ou a consciência.

A reportagem traz trechos de documentos sigilosos, dados, números e reconstrói acontecimentos que remetem a 2013 – quando foi feito o primeiro alerta de que as escolhas pela “contabilidade criativa” (fraude, crimes fiscais etc) estavam colocando em risco o futuro da Economia do Brasil.

Felizmente, a reportagem está aberta a todos, mesmo não sendo assinante do Valor AQUI. Recomendo fortemente a leitura.

A longa, extensa e detalhadíssima reportagem mostra, ademais, que Dilma Ruinsseff é, sim, sem nenhuma sombra de dúvida, a maior responsável pelo descalabro econômico que o Brasil vive. Ela não é a única, mas como Presidente da República é ela quem tem o poder, a autoridade, para tomar as decisões. Aos técnicos e demais pessoas que estão hierarquicamente subordinados a Dilma, resta cumprir as ordens, ou ser demitido. Ok, isso é evidente. Mas é necessário lembrar desse fato cotidiano porque aqui e ali, estão aparecendo uns bobalhões que dizem que a responsabilidade pelas pedaladas fiscais (que são crimes) seria de Guido Mantega, Arno Augustin, Alexandre Tombini, Luis Adams, entre outros – todos subordinados a Dilma.

Não. Nada disso!

A responsável pelo crime é Dilma.

Quem decide a política econômica a ser adotada é o Presidente.

O corpo técnico do Tesouro – e a reportagem evidencia isso de forma inquestionável – alertou Arno Augustin, alertou Dilma e todos que quisessem ouvir. Infelizmente, quem tinha o poder decisório (Dilma) não quis ouvir. Preferiu sua ideologia tacanha, que morreu no Século passado, aos fatos, à matemática.

Dilma ESCOLHEU cometer crime de responsabilidade.

Caso O Boticário: quando uma propaganda sem graça ganha contornos de escândalo

Uma empresa em decadência, de baixíssima relevância, veicula uma propaganda sonsa, sem graça, absolutamente ordinária e feita, basicamente, de clichês bobocas – e isso é tudo o que o Brasil da ignorância precisa para fazer um escândalo.

A síntese do caso (íntegra AQUI):

Depois de estrear, há quase dez dias, no intervalo do Fantástico, e de ser exibida em rede nacional durante toda a semana passada, a propaganda virou alvo de debates nas redes sociais, como Twitter e Facebook nos últimos dias. Tanto barulho rendeu a abertura de um processo no Conar, órgão de autorregulamentação publicitária.
A polêmica do filme Casais, criado pela AlmapBBDO, aumentou o interesse do público pela campanha. Ontem, no YouTube, o vídeo contabilizava quase 1,15 milhão de visualizações. Na segunda-feira, nas avaliações sobre o conteúdo do site de vídeos do Google, a turma dos insatisfeitos estava em vantagem, após uma campanha na web incentivar as pessoas a apertarem o botão “não gostei” do YouTube. Ontem, a situação havia se invertido: pouco depois das 19h, havia 188 mil “gostei” para 153 mil “não gostei” nas avaliações do vídeo.
A discussão saiu das redes sociais e foi parar também no site de consumo Reclame Aqui. Uma consumidora de Curitiba reprovou a propaganda em post publicado na terça-feira da semana passada. Em mensagem publicada na segunda-feira, outra consumidora achou o filme muito tímido. “Espero que da próxima vez tenha mais beijos na boca”, escreveu.
Em resposta, a marca de perfumes escreveu que “a proposta da campanha Casais (…) é abordar, com respeito e sensibilidade, a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor – independentemente de idade, raça, gênero ou orientação sexual – representadas pelo prazer em presentear a pessoa amada no Dia dos Namorados”.
Em relação ao Conar, declara que ainda não foi notificada e que a campanha continuará no ar. Um grupo de 20 pessoas apresentou reclamação ao órgão.

Para quem ainda não viu, este é o comercial da polêmica estúpida:

O jornal O Globo publicou o seguinte (íntegra AQUI):

Enquanto consumidores tentam boicotar O Boticário por ter lançado um comercial para o Dia dos Namorados estrelado por casais gays, muitos internautas contra-atacam com ações bem-humoradas nas redes sociais. A reação dos defensores dos direitos dos LGBT foi tão forte que já virou o placar da “guerra dos likes”. Na manhã de terça-feira, o marcador abaixo do vídeo apontava mais que o dobro de desaprovações do que de “curtidas”. Agora, a situação está invertida: são 280 mil “curtidas” contra 170 mil desaprovações.
Já uma campanha iniciada no Facebook que incentiva compras de produtos de O Boticário “contra o fundamentalismo” conquistou o apoio de 50 mil pessoas em menos de 24 horas. “Dia dos Namoradores é uma data de amor, de todas as formas de amor. Vamos contra-atacar o lobby da irracionalidade da melhor forma: no bolso! Neste Dia dos Namoradores, em todo país, #CompreBoticário e divulgue essa corrente”, sugere a organização.
O Tumblr “Aproveita e boicota” faz piada com o embargo convocado pelos internautas a marcas que defendem a união entre pessoas do mesmo sexo. O site apresenta dezenas de companhias que já declararam seu apoio às causas dos LGBT e sugere que os boicotadores parem também de consumir produtos de firmas como Coca-Cola, Microsoft, McDonald’s, Nike, Disney, Apple, Visa, Amazon, Facebook, Google, etc. “Se é pra boicotar alguma coisa, que seja a ignorância”, afirma a página.

E praticamente todos os sites, jornais e revistas seguiram “cobrindo” o caso, e sua repercussão. Caso o leitor queira, pode ler mais AQUI, AQUI e AQUI. Contudo, se o dileto leitor acessou seu Facebook nos últimos dias, já deve ter visto centenas de “memes”, mensagens e opiniões (vulgo “textão“) sobre o caso…

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Aliás, aquele lixo do Facebook é o local ideal para proliferação de… lixo! Eis aqui o exemplo perfeito da soma do oportunismo chulo com a burrice galopante:

Seja contra o fundamentalismo sem contribuir para o capetalismo, seja contra a homofobia sem ter que comprar nada, nesse dia dos namorados não seja uma bicha colonizada consumista, dê o que você tem, dê o Cu

Esta é a “descrição” de um evento criado no Facebook (link AQUI). Por razões mais do que evidentes, vou me abster de comentar.

Esse “caso” do Boticário foi o palco que os ignorantes como Jean Willis e seus semelhantes (vulgarmente conhecidos como “amebas tapadas em coma induzido depois da remoção dos restos do cérebro que se autodestruiu por falta de uso“) precisavam para desliar toda a ignorância e truculência que lhes é peculiar, claro. Essa gente de baixo QI e nenhuma honestidade intelectual sempre se refastela nos casos cercados pela ignorância. Aliás, essa gente PRECISA da ignorância para existir.

Vai aqui uma leitura interessante (íntegra AQUI, que eu aliás recomendo):

Foi no dia dezoito de dezembro de 1950, há pouco mais de um ano do nascimento da República Popular da China, e após duas décadas de uma guerra civil amarga e sangrenta, que Mao Tsé Tung – o homem que faria Adolf Hitler parecer um coroinha indefeso – declarou aquela que viria a ser talvez a melhor definição de sua ideologia: “Comunismo não é amor, comunismo é um martelo com o qual se golpeia o inimigo.”

De todas as formas e cores que o amor poderia se manifestar, apenas uma seria aceita pelo regime vermelho. Gays se tornariam inimigos e seriam golpeados em campos de concentração na China, União Soviética, Albânia, Sibéria, Cazaquistão, Bulgária e Hungria. Na Romênia, a orientação oficial de Ceausescu para a Securitate era a de, em caso de homossexuais flagrados fazendo sexo, o devido espancamento ou execução no local como exemplo público. Quase todos os estados comunistas baniram associações políticas e comunitárias de gays e lésbicas, impedindo a publicação de material LGBT. Gays e lésbicas foram constantemente denunciados, perseguidos, demitidos, presos, humilhados, censurados, deportados, castrados e executados em quase todos os países em que a esquerda promoveu seus regimes totalitários ao longo do último século.

Por onde o socialismo passava, o discurso de que a homossexualidade era uma prática burguesa se repetia. Lenin foi taxativo para a jornalista alemã Clara Zetkin:
“Parece-me que esta superabundância de teorias sobre sexo brota do desejo de justificar a própria vida sexual anormal ou excessiva do indivíduo ante a moralidade burguesa e reivindicar tolerância para consigo. Não importa quão rebeldes e revolucionárias aparentam ser; essas teorias, em última análise, são completamente burguesas. Não há lugar para elas no partido, na consciência de classe e na luta proletária.”

Em Cuba não foi diferente. Em 1965, seis anos após tomar o poder na ilha, Fidel declarou ao jornalista norte-americano Lee Lockwood:
“Nunca acreditei que um homossexual pudesse encarnar as condições e requisitos de conduta que nos permite considerá-lo um verdadeiro revolucionário, um verdadeiro comunista. Um desvio de sua natureza se choca com o conceito que temos do que um comunista militante deve ser.”

No mesmo ano, ao lado de Che Guevara, ele criaria as “Unidades Militares de Ayuda a la Producción” – que no outro lado do mundo atendia pelo carinhoso nome de Gulag – acampamentos de trabalho agrícola com cercas de 4 metros de arame farpado, onde homossexuais e outros indivíduos contra-revolucionários realizariam trabalho forçado nos canaviais, dedicando suadas 16 horas de labuta para sustentar a bigodagem revolucionária, em condições tão degradantes quanto as encontradas nas concentrações nazistas – onde os gays também sofriam nas mãos do coletivismo, marcados por um triângulo rosa.

Penteados extravagantes, calças apertadas, camisas coloridas e “maneirismos efeminados” eram vistos como uma afronta ao estado cubano, ainda que as práticas privadas não fossem vistas como um tormento à revolução – a condenação residia na exibição pública da homossexualidade, no cubano que ousava se comportar nas ruas como um indivíduo livre, no gay que desafiava a formação do “novo homem” que o regime promovia.

Em 1971, a resolução do Primer Congreso Nacional de Educación y Cultura era taxativa:
“Os desvios homossexuais representam uma patologia anti-social, não admitindo de forma alguma suas manifestações, nem sua propagação, estabelecendo como medidas preventivas o afastamento de reconhecidos homossexuais artistas e intelectuais do convívio com a juventude, impedindo gays, lésbicas e travestis de representarem artisticamente Cuba em festivais no exterior.”

Por isso tudo – e muito mais – eu sempre rio (para não chorar) quando um “jênio” que defende o socialismo e/ou o comunismo faz um discursinho babaca sobre “minorias e direitos LGBT” (não sei se a sigla já sofreu mudanças nos últimos 5 minutos). O deputado Jean Wilis, que se acha o Che Guevara tupiniquim, não sabe que o socialismo perseguiu gays? Ele desconhece os diversos ataques contra gays feitos por Che Guevara, Fidel Castro e todos os demais ditadores socialistas e/ou comunistas?

Mas Jean Wilis não é o único. Claro! Há, por exemplo, a Luciana Genro, outra ignóbil esquerdopata que só fala bobagem e se acha no direito de classificar qualquer crítica ou discordância de “discurso de ódio” – ao mesmo tempo em que ela defende o comunismo, Cuba, Stálin, Marx etc…

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Enfim, vamos ao âmago da questão, ou seja, o comercial do Boticário.

Começo por alguns trechos de um texto do Geraldo Samor (íntegra AQUI), para que tenhamos uma perspectiva sobre o tema central da discussão:

No ano passado, o CEO da Apple, Tim Cook, escreveu um artigo dizendo ter orgulho de ser gay. Cook disse que queria ajudar pessoas que estão ‘dentro do armário’ a ter coragem e dignidade.
Também nos EUA, há muitos anos ninguém levanta as sobrancelhas quando as empresas fazem comerciais mostrando o afeto entre dois homens ou duas mulheres. Na economia mais desenvolvida do planeta, o mercado de ideias chegou a um veredito: a igualdade é um bem público, um valor moral, e, de quebra, good for business.
[…] Contra este espírito — a ideia aparentemente simples de que a igualdade é uma coisa justa e que deve ser abraçada — insurge-se no Brasil um pastor.  Pastores.
Primeiro, um pastor condenou um ato de amor — um beijo na novela Babilônia — e pediu boicote a um patrocinador, a Natura. Depois levantou-se um outro, cuspindo veneno contra uma propaganda do Boticário que ousou falar do amor entre iguais, em vez de ficar no papai e mamãe. Profundamente incomodado, este pastor também pediu boicote, evocou o santo nome do “Estado democrático de direito” para exercer o direito de dar sua “opinião”, e esbravejou em frente à câmera qual um adolescente inseguro buscando se afirmar, tentando achar sua voz e identidade.

[…] O objetivo de certos pastores não é guiar o rebanho, mas hipnotizar serpentes. Não estão na missão de espalhar o amor, mas de semear divisão, invocando para isto a suposta ‘vontade de Deus’ ou ‘o que está nas Escrituras’.”
[…] Os pastores brasileiros têm similares no mercado de ideias dos EUA. Eles se assemelham a uma igreja que existe lá, e que também divide as pessoas em duas categorias — de um lado, as ‘pessoas de bem’; do outro, os gays e os judeus. (Desculpem, esqueci de colocar aspas quando escrevi igreja.)
[…] No Brasil, provavelmente nunca nos livraremos destes pastores da divisão, barulhentos e oportunistas. Sempre haverá mercado para seu discurso de intolerância, mas o trabalho das verdadeiras ‘pessoas de bem’ é garantir que aquele mercado seja cada vez menor, com menos ibope e sem liquidez.
Nenhuma luta é mais justa do que a luta pela igualdade, e nenhuma ideia está mais madura para vingar do que esta — seja no mercado de ideias, no capitalismo, ou dentro das famílias, e a despeito da inércia e da ignorância.

[…] Até porque, se alguém realmente decidir boicotar a ideia de igualdade, vai ficar sem Boticário, Natura, Osklen, Skol, Banco do Brasil, Motorola, Vigor, FIAT, Heinz, Pepsi, Danone, Microsoft, GOL, YouTube, McDonald’s, Unilever, Google, Facebook, Coca-Cola…

O texto é bom, ajuda a entender a amplitude da discussão gerada pelo caso do Boticário, mas comete um equívoco fundamental: os pastores evangélicos aos quais o texto se refere têm, sim!, todo o direito de criticar a propaganda do Boticário, a novela, ou o que mais eles quiserem criticar. Pedir ou propor um boicote, igualmente, é um direito numa sociedade democrática:

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Eu, pessoalmente, não concordo com NADA dito por estes pastores, e tenho absoluto desprezo aos Malafaias e Felicianos da vida. Contudo, eles têm o direito de falar o que quiserem. Eu tenho o direito de discordar, ou, mais frequentemente, de sequer tomar conhecimento da opinião deles sobre qualquer assunto que seja – apenas e tão somente porque não me interessa o que o Malafaia pensa sobre X ou Y ou Z.

E isso é um problema complicado no Brasil atualmente: os defensores do maldito e burro politicamente correto se acham os donos da verdade: eles acreditam ter o dom divino de dizer o que cada um pode ou não pode falar ou pensar. E qualquer crítica ou discodância nos temas envolvendo gays é automaticamente tachada da HOMOFOBIA.

Isso é burrice.
Não gostar de gays não é homofobia.
Não concordar com as escolhas dos gays não é homofobia.
Não gostar ou não aprovar os atos e ações de gays não é homofobia.

Homofobia é a fobia (ojeriza, repulsa, medo, aversão) aos homossexuais. Homofobia implica a existência de ódio, repulsa, medo ou discriminação, não apenas a discordância ou o simples fato de não gostar. Homofóbicos querem agredir fisicamente os homossexuais – ou, nos casos mais extremos, exterminá-los. Isso é muito diferente de dizer “discordo”. Discordar de um gay NÃO significa homofobia.
Precisa escrever algo tão óbvio?
Dada a galopante burrice que assola o Brasil, infelizmente, sim.

Eu não gosto de repolho. Se alguém disser que eu tenho repolhofobia, a única alternativa é rir (para não chorar). Eu tenho o direito de não gostar de repolho (ou agrião, ou cenoura etc). Eu tenho o direito de fazer esta escolha.

No seu blog (íntegra AQUI), o Reinaldo Azevedo resumiu muito bem a questão:

É evidente que a reclamação não dará em nada. Até porque os relacionamentos homos e héteros ali retratados são bastante pudicos. Pessoalmente, acho uma perda de tempo e uma bobagem se incomodar com isso. Gays existem, e é lógico que tenham a devida visibilidade. Formam um mercado consumidor apreciável, e não faz sentido, também comercial, ignorar esse público.
Mais: é preciso parar com a tolice, que desafia qualquer saber firmado a respeito, de que esse tipo de mensagem incentiva a prática homossexual. Quem faz tal raciocínio teria de admitir que a esmagadora maioria de héteros no mundo também decorre do efeito-propaganda, o que é uma tolice até contra a biologia e a sobrevivência das espécies. A publicidade não torna gay o hétero nem hétero o gay.
O que nos torna a todos mais burros é a intolerância.
Venha de onde vier.

[…] Acho a reação à propaganda um exagero? Acho! Mas vamos com calma! Certas críticas que leio àqueles que protestaram são apenas inaceitáveis porque agridem o fundamento da liberdade de expressão. Ora, as pessoas têm o direito de não gostar daquilo que veem. Não gostando, têm também o direito de se expressar.
A liberdade de expressão, como já disse aquela, é e será sempre a liberdade dos que discordam de nós. Ou alguém precisa ser livre para dizer “sim”?

Eu considero a igualdade de direitos diante da lei um bem em si e entendo que as pessoas civilizadas devam lutar para que seja um bem universal. É por isso que não sou um relativista. Mas essa igualdade também abriga a liberdade de as pessoas deixarem claro o que as desagrada, especialmente quando se atua na esfera dos valores.
Se não for assim, meus caros, em breve aparecerá alguém sugerindo — na verdade, vive aparecendo, não é? — a criação de uma espécie de Comitê de Salvação Nacional para a Defesa da Igualdade, atribuindo-se a tarefa de calar a boca de todos aqueles que supostamente estariam contra a dita-cuja.
Algo parecido aconteceu na França entre 1792 e 1794. Cortou milhares de cabeças.

O Boticário tem o direito de fazer campanhas publicitárias de homem com homem e mulher com mulher? Tem. Isso me incomoda? Abaixo de zero! Há quem se incomode? Há! Nos limites da democracia e da civilidade — e não os vi sendo transgredidos até agora —, têm o direito de se manifestar. Questionar esse direito é só uma prática autoritária exercida em nome das luzes.

Isso nunca deu certo.
Cuidado! Nem tudo o que é reacionário parecer ser… reacionário.

Pois é…
O pastor/religioso/clérigo (evangélico, protestante, cristão, judeu, muçulmano, seja lá de qual religião) tem o direito de não gostar de uma empresa, de uma novela, de um livro, de um filme etc – e, falando diretamente à sua comunidade religiosa, tem todo o direito e a liberdade de expressar a orientação que julgar mais adequada para seus “fiéis” (ou qualquer que seja a terminologia aplicável).
Há “fiéis” que concordarão com o pastor, e seguirão sua orientação; e há, também, aqueles que, a despeito de serem da mesma religião do pastor, NÃO concordarão.

Isto se chama liberdade.

Eu, como agnóstico, não dou atenção a nenhum pastor, papa, padre, rabino etc.
Sou livre para escolher se gosto de um filme, de um livro, de uma novela, de uma propaganda.

E, como profissional de marketing, vejo esse “escândalo” do Boticário com certa apreensão. Infelizmente, o Brasil está cada dia mais burro. A culpa é justamente dos tapados do politicamente correto.

Os “ativistas” do politicamente correto inventam bobagens que pretendem tolher as liberdades individuais; eles se acham os detentores do bem, os donos absolutos e incontestáveis da verdade.
É uma gente estúpida, ignorante, que “caga regras”: não pode chamar o negro de negro, é “afrodescendente”.
Não pode chamar um gay de “veado” ou “bicha”, é “minoria LGBTTTTTT” (a propósito: meu melhor amigo é gay, e chamo ele de bicha e veado, sim – ao telefone, pessoalmente, por e-mail, WhatsApp etc. Foda-se a ignorância galopante do politicamente correto).

ahtalol_2015-May-03

Qualquer crítica é imediatamente transformada em alguma “fobia” – e os tapados do politicamente correto vivem criando novas fobias…. Elas não passam de uma bobagem, vazia de sentido e cretina na forma.

A sociedade está emburrecendo de tal forma que qualquer crítica e/ou discordância vira alguma “fobia” e cria um escândalo.

Isso é uma bobagem.

A propaganda do Boticário é sonsinha, chatinha, repleta de clichês típicos dos comerciais feitos para o Dia dos Namorados. Usa-se um fundo musical mela-cueca, mostram-se casais apaixonados trocando presentes etc…
Um comercial, em suma, ordinário, sem nada capaz de diferenciá-lo. Comum. Rotineiro.

Mas que gerou uma discussão, um “buzz”, ridiculamente desnecesário, vazio.

Folha de SP é um ótimo destino para profissionais preguiçosos e incompetentes

Às vezes o sentimento de vergonha alheia ultrapassa os limites do suportável no Brasil. Neste final de semana, ocorreu um caso desses – que foi agravado por algo que li nesta Segunda-feira, meio de feriadão. Vamos ao caso, começando pelo Sábado.

A Folha de São Paulo publicou uma reportagem ruim, muito ruim, fazendo uma denúncia falsa: o governo de SP, do tucano Geraldo Alckmin, estaria financiando um blogueiro para falar mal do PT. Eis aqui os principais trechos da “reportagem” (a íntegra do lixo está AQUI, mas fica o aviso: se você não gosta de colocar os pés na lama, evite):

Um blogueiro que distribui propaganda antipetista a milhares de seguidores na internet recebe há dois anos pagamentos mensais por serviços de comunicação prestados ao governo Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo.
Na rede, o advogado Fernando Gouveia se apresenta com o pseudônimo Gravataí Merengue e como “CEO”, ou executivo principal, do site Implicante, que publica e ajuda a difundir notícias, artigos, vídeos e memes contra o PT e a presidente Dilma Rousseff. O Implicante tem quase meio milhão de seguidores no Facebook, quatro vezes mais que o Movimento Brasil Livre, um dos grupos na linha de frente dos protestos de rua realizados contra Dilma neste ano. O material produzido pelo site costuma ser replicado nas redes sociais e por outros blogs políticos.

Gouveia é dono da Appendix Consultoria. A empresa foi criada em janeiro de 2013 e começou em junho do mesmo ano a receber pagamentos oriundos da Subsecretaria de Comunicação do governo Alckmin, órgão vinculado à Casa Civil do Estado.
A Appendix foi subcontratada pela agência de publicidade Propeg, uma das três que cuidam da propaganda do governo estadual. De acordo com documentos oficiais, a empresa do blogueiro recebeu R$ 70 mil por mês de outubro de 2014 a março deste ano. O governo se recusou a informar o valor total dos pagamentos à empresa de Gouveia, alegando que a responsabilidade pela contratação da firma não é sua, mas da Propeg. A Subsecretaria de Comunicação permitiu apenas a consulta da documentação no Palácio dos Bandeirantes. Disponibilizou então 88 caixas, cada uma com centenas de papéis sobre propaganda oficial, sem indicar a localização das informações específicas da Appendix.
Segundo os documentos, a Propeg pagou a Appendix por serviços de “revisão, desenvolvimento e atualização das estruturas digitais” da Secretaria de Estado da Cultura. Em nota, a agência afirmou que subcontrata a Appendix para atender demandas do governo do Estado. Mas não respondeu quem indicou a empresa nem o motivo pelo qual recorre ao blogueiro em vez de fazer ela mesma o serviço.

Não seria preciso ser muito inteligente (ou tampouco honesto) para perceber os diversos erros da reportagem – e o resultado é uma reportagem FALSA, MENTIROSA, que escancara o baixíssimo nível de alguns jornalistas, empregados pelo maior jornal do Brasil (todavia, não se sabe por quanto tempo a Folha conseguirá manter esta posição, haja vista a quantidade de jornalistas incompetentes que ela tem em seus quadros hoje).

Dá vergonha!

Aliás, o nível de alguns “jornalistas” no geral, e alguns da Folha em particular, é de esgoto para baixo – não apenas intelectualmente, mas no quesito honestidade e coerência também.

HumansofPT_2015-Apr-10

Fica difícil saber, porém, se estes “jornalistas” que assinam a reportagem são apenas incompetentes e ignorantes ou se têm alguma motivação política, uma agenda a defender. Pessoalmente, acho absolutamente possível uma combinação dos dois fatores, mas por ora vamos tratar apenas da incompetência profissional. Nem mesmo seria preciso ser um especialista em gestão pública e/ou Administração; bastaria aos dois “jornalistas” um pouquinho de capacidade lógica de pensar e um mínimo de honestidade.

Em primeiro lugar: a reportagem não apresentou nenhuma denúncia que configure crime ou qualquer desvio legal. Foi feita uma licitação, uma empresa (Propeg) venceu a licitação oferecendo o menor preço e, depois, terceirizou alguma(s) atividade(s) – coisa que qualquer pessoa minimamente informada sobre o universo de prestação de serviços a entes governamentais sabe ser um padrão recorrente, que não possui NENHUMA ilegalidade. Se o edital da licitação e o posterior contrato firmado entre o Estado e a empresa ganhadora da licitação proibirem expressamente a terceirização ou subcontratação para uma parte ou para o todo da prestação de serviço, aí é outra coisa. Mas não parece ser este o caso.

Em segundo lugar, o Estado de SP não tem documentação dos pagamentos feitos à Appendix por uma razão muito simples: o governo não paga a Appendix. Se não percebem que isso faz toda a diferença, os “jornalistas” fingem ser muito burros ou são mesmo. A Appendix (que é uma empresa, e não um “blogueiro antipetista”) foi contratada por uma empresa que ganhou a licitação, e recebe, claro!, desta empresa – chamada Propeg. Com isso, fica provado que a Folha errou no título da matéria e também na chamada da capa (reproduzo abaixo): o governo não paga o “blogueiro antipetista” – o governo paga a empresa que ganhou a licitação. Será que precisa desenhar?

Fac-Símile_-_Edição_São_Paulo_-_Folha_de_S.Paulo_-_2015-04-20_17.50.03

Em terceiro lugar, a preguiça dos jornalistas ultrapassa o limite do ridículo. Eles reconheceram, na matéria original, que o governo do Estado disponibilizou 88 caixas de documentos sobre as propagandas oficiais. Havia ali, portanto, uma excelente oportunidade para revisar todos estes documentos e, quem sabe, encontrar algo que realmente merecesse uma reportagem. Mas parece que os “jornalistas” tiveram preguiça demais para esta parte (árdua) do trabalho, e preferiram escrever como se o governo tivesse se recusado a prestar esclarecimentos. Os esclarecimentos foram dados, documentos (fartos!) foram disponibilizados, mas a preguiça falou mais alto. Que coisa vergonhosa!

Finalmente, será que a Folha abriu mão do cargo de EDITOR? Não havia um único editor no jornal para impedir a publicação de uma reportagem tão ruim, mentirosa, falsa? Ninguém no jornal poderia ter verificado que um lixo desses não tem a mínima condição de ser publicado?

O que aconteceu com as faculdades de jornalismo?
Que tipo de profissional elas estão oferecendo ao mercado?
E o mercado, contrata esses profissionais ruins por quê? Falta opção?

A Folha, especificamente, prefere contratar bandidos ao invés de contratar bons jornalistas:

Firefox 5

Agora, um outro aspecto da reportagem mentirosa da Folha, mas que não pode ser ignorado: o político-partidário. A matéria da Folha tenta levar o leitor a acreditar que o governo do Estado de SP, administrado pelo PSDB, paga um blogueiro que tem um site antipetista. O pior é que a matéria tenta fazer parecer que o PSDB paga um blogueiro ESPECIFICAMENTE PARA falar mal do PT. Destaco este trecho da reportagem, com mais mentiras:

O envolvimento de Fernando Gouveia com a política é antigo. Ele trabalhou durante três anos no setor de comunicação da Prefeitura de São Paulo, na gestão da petista Marta Suplicy (2001-2004). Depois, ele trabalhou no gabinete da ex-vereadora Soninha Francine, que foi do PT e migrou para o PPS, partido alinhado com os tucanos.
A militância política de Gouveia na internet também é antiga. Em 2006, quando tinha um blog chamado Imprensa Marrom, ele foi condenado pela Justiça a pagar dez salários mínimos de indenização a uma empresa por ter publicado comentários ofensivos a ela. O blogueiro recorreu.
Gouveia também se apresenta na internet como colaborador de uma página chamada Reaçonaria, que difunde conteúdo similar ao do Implicante e tem cerca de 16 mil seguidores no Facebook. Os dois sites estão abrigados num servidor no exterior que impede a identificação do responsável pelos registros.

No próprio Sábado, o Fernando (a quem não conheço pessoalmente, mas acompanho desde o tempo em que ele tinha o site Imprensa Marrom) publicou os esclarecimentos AQUI. Hoje, mais um esclarecimento AQUI.  Os “jornalistas” Ricardo Mendonça e Lucas Ferraz repetem o problema: ou são muito burros, ou mentem propositadamente (seja por algum eventual desvio de caráter, seja devido a uma agenda político-partidária que só beneficia o PT). Mais esclarecimentos foram publicados no Implicante (AQUI) e na Reaçonaria (AQUI, AQUI e AQUI). Vale a pena ler.

 

Este era o panorama até ontem. Hoje, porém, a Folha publicou mais isso aqui (clique para ampliar):

Governo_de_SP_contesta_reportagem_sobre_blogueiro_antipetista_-_20_04_2015_-_Painel_do_Leitor_-_Folha_de_S.Paulo_-_2015-04-20_16.05.46

Fico muito feliz por ter cancelado minha assinatura da Folha há mais de 1 ano. Está absolutamente vergonhoso o baixíssimo nível dos textos que ela anda publicando – e o nível segue caindo ainda mais.

E, para finalizar, recomendo ao leitor, especialmente aquele interessado na cobertura que a imprensa brasileira faz da política, que acompanhe a cobertura da Reaçonaria: AQUI, AQUI e AQUI. Leitores novatos de jornais e revistas podem não perceber o quanto os jornalistas alteram e manipulam certos fatos para tentar fazer a relidade adaptar-se àquilo que eles (e seus partidos políticos “de coração”) desejam. E a Reaçonaria tem feito um excelente trabalho ao expôr isso. Viva a transparência!

 

O mito da “nova classe média” inventado pelo PT esfacela-se

Há alguns anos, a imprensa no geral – e alguns “especialistas”, entre muitas aspas – vem enaltecendo a tal “nova classe média”. Segundo os iluminados, durante os anos do mandato do Lulla surgiu no Brasil esta “nova classe média”, em decorrência principalmente das chamadas “políticas sociais” defendidas pelo PT – sendo que a mais famosa e comentada delas, o Bolsa Família, foi criada por Fernando Henrique Cardoso e foi duramente criticada por ninguém menos que Lulla:

Eu já havia escrito AQUI no blog sobre esta falácia de “nova classe média”, mas, para resumir, o ponto principal é o seguinte: o governo mudou os parâmetros que definem o que é classe média, o que distorceu as estatísticas posteriores. Vai aqui um trecho do que eu escrevi:

Para quem não se lembra, a SAE – Secretaria de Assuntos Estratégicos (que tem status de Ministério, como se no Brasil do PT houvesse necessidade de 39 ou 40 ministérios!) foi criada apenas para alojar mais algumas centenas de cumpanheiros, reforçando a estratégia de locupletar-se no poder que o PT sempre teve.
O tempo foi passando, e a tal SAE foi juntando teias de aranha.
Para dizer que a Secretaria tinha alguma função, algum burrocrata resolveu inventar uma mudança nos critérios de classificação das classes sociais. Com isso, instaurou-se uma situação verdadeiramente SURREAL. Aplicando-se os novos critérios, pessoas com renda familiar per capita entre R$ 290 e R$ 1.019 são as que formam a classe média brasileira.
O sujeito que ganha, mensalmente, R$ 290,00 é classe média???? Como assim?

Ontem eu estava vendo na TV (na GloboNews, se não me engano) uma reportagem que citava um estudo da FGV que indicava que a inflação no primeiro trimestre deste ano estava afetando com muito mais intensidade os mais pobres. Ok, isso não é novidade. Mas em dado momento, a reportagem citou, en passant, que o estudo da FGV considerava que os mais pobres são aqueles que ganham menos de R$ 2 mil mensais. Infelizmente, a reportagem não detalhou se 2 mil por família ou per capita.

Mas o importante é o seguinte: hoje em dia ninguém sabe mais o que significa CLASSE MÉDIA. Muito menos o que seria a NOVA CLASSE MÉDIA. Foram tantas classificações diferentes (e conflitantes) que o país simplesmente perdeu toda e qualquer noção. As pessoas não sabem mais se são classe média. Os órgãos de governo não sabem mais quem é classe média. Os institutos de pesquisa (de opinião ou de mercado) não sabem mais quem é classe média. Este “novo conceito” de “nova classe média” é tão ridículo e tão grotesco que até mesmo uma Marilena Chauí é capaz de criticá-la – de forma burra, deturpada, claro, afinal trata-se de uma Marilena Chauí, que não passa de uma picareta rastaquera elevada à condição de “intelequitual” por falta de outro nome para o “cargo”. A questão foi abordada numa reportagem do Estadão de sábado:

Um dos méritos dos tempos de crescimento econômico e das políticas sociais do governo foi garantir que a chamada nova classe média pudesse olhar no longo prazo e planejar o futuro. Segundo especialistas em baixa renda, os 35 milhões de brasileiros que saíram da pobreza tiveram acesso não apenas ao iogurte e ao televisor de 42 polegadas. Finalmente puderam almejar o ensino superior, a casa própria em área com infraestrutura básica e assumir gastos fixos com serviços mais sofisticados – como a internet, que amplia a rede de amigos e as oportunidades de trabalho. Mas a recessão que ronda o País pode comprometer a escalada na pirâmide social.

Dois indicadores divulgados na semana passada sinalizaram uma tendência nefasta para essa parcela. De um lado, o IPCA, que mede a inflação oficial do País, passou de 8% no acumulado em 12 meses. A taxa de desemprego da Pnad Contínua, que detalha o mercado de trabalho em 3,5 mil municípios, subiu para 7,4% no trimestre encerrado em fevereiro. Há um milhão a mais de desempregados. Ou seja, os números atestam a deterioração simultânea do emprego formal e do poder de compra.

A íntegra da reportagem está AQUI.

A primeira frase, que eu grifei, é ótima: os tais 35 milhões de brasileiros que saíram da pobreza são fruto de um apurado Cálculo Hipotético Universal Teórico Estimado – C.H.U.T.E na sigla para os íntimos.
Ora, se ninguém sabe quem é classe média, pobre, rico, então fica impossível calcular (ou estimar) quantas pessoas saíram da pobreza e quantas entraram nela. Parece bastante óbvio, e é, mas ignora-se o óbvio no afã de tentar achar uma explicação simples (e errada) sobre as mudanças no mercado consumidor do país.

Um terço dos baianos vive do bolsa familia

Que “nova classe média” é esta que não recebe um salário capaz de cobrir despesas essenciais como plano de saúde? Ou ainda: uma classe média que vive de bicos pode ser considerada classe média? Mas o pior é que tem gente (ahn, os iluminados!) que vai além: esta “nova classe média” ainda por cima é burra e ingrata:

O presidente do PT, Rui Falcão, avisou: quem votar em Dilma Rousseff estará votando, na verdade, em Lula – aquele que, segundo suas próprias palavras, não consegue “desencarnar” da Presidência.
A “promoção casada” foi explicitada em entrevista de Falcão ao jornal Valor. Respondendo a uma questão sobre se Lula terá “maior participação” em um eventual segundo mandato da presidente, o petista disse que “sim” e explicou, praticamente sem rodeios, que a passagem de Dilma pelo Planalto serviu apenas para guardar lugar para seu chefe.
“Precisamos eleger a Dilma, para o Lula voltar em 2018”, disse Falcão. “Isso significa que, ela reeleita, começa o ciclo de debate, de planejamento, para que o nosso projeto tenha continuidade, com o retorno do Lula, em 2018, que é a maior segurança eleitoral de que o projeto pode continuar.”
A preocupação de Falcão e da militância petista é compreensível. Embora a propaganda oficial martele que o PT está fazendo um governo revolucionário, que tirou milhões de pessoas da miséria e as levou ao paraíso do consumo, os eleitores em geral parecem cada vez mais descontentes. Com crescimento econômico pífio, inflação alta e perspectivas sombrias para o emprego, é natural que o tal “projeto” petista esteja sendo questionado, conforme mostram todas as pesquisas de opinião e de intenção de voto.
Para Falcão, porém, a chamada “nova classe média” tem reclamado do governo porque não foi devidamente instruída sobre os benefícios que a administração petista lhe deu. Faltou que Dilma lembrasse a essa gente que sua ascensão social se realizou não graças a seus méritos pessoais, mas pelas magnânimas políticas do governo. É a tese da ingratidão, levantada pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, e corroborada por Lula. “Essa ideia do mérito próprio estimula a fragmentação, o individualismo, afasta as pessoas de coisas mais sociais, coletivas”, disse Falcão. Para ele, Dilma errou ao não “dialogar” com essa classe média “individualista”.

Não é uma belezinha essa declaração iluminada do Rui Falcão?! O texto acima é um trecho de um editorial do Estadão, que pode ser lido na íntegra AQUI.

Pergunta: como essa “nova classe média” sobrevive com impostos tão altos no Brasil?

Carga tributária brasileira

O problema é o seguinte: quem paga imposto (em qualquer país em que a lógica não seja atropelada) é a classe média. Os mais pobres não pagam impostos porque não têm sobre o que pagar (patrimônio e ganhos de capital) e consomem menos – portanto, “escapam” dos impostos sobre consumo, como IPI, ICMS etc. Por outro lado, os ricos (ricos mesmo) têm diversas ferramentas legais e alguns subterfúgios não tão legais para escapar de muitos impostos. Então, sobra à classe média o fardo de sustentar um Estado inchado, com 39 Ministérios (sendo uns 20 completamente inúteis), e milhares de funcionários em cargos de confiança que não fazem nada – mas ganham muito.

Porém, no Brasil, a lógica é atropelada.
O sujeito recolhe impostos altíssimos, mas não pode usar o SUS porque o serviço é uma porcaria – aí, precisa pagar plano de saúde. Para os filhos dos casais de classe média estudarem, os pais precisam pagar as mensalidades de escolas/colégios particulares, pois os do Estado são péssimos. Quem desejar um pouco mais de segurança precisa fazer seguro de automóvel, casa, tablets, celulares e qualquer outra coisa, pois o Estado não oferece a segurança pela qual pagamos. Isso sem falar em sistemas de sgurança para as casas e apartamentos, portarias e guaritas blindadas, empresas de segurança particulares… E assim sucessivamente…
Desta forma, a classe média paga impostos para ter serviços que o Estado falha miseravelmente em oferecer (saúde, educação, infra-estrutura, saneamento, segurança etc), é obrigada a pagar novamente pelos mesmos serviços, desta vez recorrendo à iniciativa privada, e aí fica sem dinheiro para poupar, investir, viajar etc.

Por algum tempo, dá para disfarçar, aumentando a oferta de crédito aparentemente barato. Mas cedo ou tarde, alguém sempre paga a conta.
O mito de “nova classe média” está se esfacelando, pois as mentiras que o PT vem contando há anos não são mais capazes de esconder a “contabilidade criativa” (mentiras deslavadas sobre os gastos do governo, que crescem graças ao populismo e à incompetência gerencial, e, ao mesmo tempo, configuram CRIME), e a piora da economia (que gera aumento dos juros, perda do poder de compra graças à inflação, desemprego, inadimplência etc).

Cedo ou tarde, a verdade viria à tona. A farsa cairia.

Já começou a cair.

A conivência da mídia com os escândalos brasileiros – o caso da Copa 2014

O jornalista Carlos Brickmann escreveu um artigo sobre as críticas feitas ultimamente em relação à construção do estádio do Corintians em Itaquera. O texto, na íntegra, está AQUI.

Agora posso tecer meus comentários. Aliás, farei os comentários de forma segmentada, discutindo ponto por ponto as afirmações do jornalista (DESTACADAS EM VERMELHO, seguidas pelas minhas observações).

1) O colega conhece alguém que tenha comprado carro à vista? Deve haver, mas o habitual é comprar a prazo, com financiamento por algum banco. Se alguém compra um carro financiado pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco Panamericano, está usando dinheiro público? Não: usa um financiamento disponível no mercado, que será pago no prazo previsto e que, aliás, é o negócio do banco. Se não paga, o comprador responde a processo e pode perder o carro.

Em primeiro lugar, sobre este trecho, é importante esclarecer que o BNDES não pode ser comparado aos bancos comerciais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú etc). Independentemente da diferença no que tange ao controle (público ou privado), o BNDES não é um banco comercial, mas um banco de fomento. Isso faz uma diferença enorme!

Tenho certeza de que o jornalista sabe disso, pois é um homem bem informado. Mas não custa repetir: a função do BNDES não é emprestar dinheiro para comprarmos um carro – ou será que o jornalista conhece alguém que financiou seu carro no BNDES? Eu não conheço.

Quem busca o financiamento de um carro, hoje, paga juros extorsivos, e, caso não consiga honrar todas as parcelas, perde o bem (carro) e tudo o que foi pago. O BNDES, devido à sua natureza, tem um escopo de atuação bastante diverso deste. Vejamos o porquê.

O BNDES, por NÃO ser um banco comercial como o Banco do Brasil, Itaú ou CEF, trabalha de forma diferente daquela que geralmente a população média entende como “banco”. O próprio BNDES, em sua página na internet, informa:

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), empresa pública federal, é hoje o principal instrumento de financiamento de longo prazo para a realização de investimentos em todos os segmentos da economia, em uma política que inclui as dimensões social, regional e ambiental. Desde a sua fundação, em 1952, o BNDES se destaca no apoio à agricultura, indústria, infraestrutura e comércio e serviços, oferecendo condições especiais para micro, pequenas e médias empresas. O Banco também vem implementando linhas de investimentos sociais, direcionados para educação e saúde, agricultura familiar, saneamento básico e transporte urbano.

O apoio do BNDES se dá por meio de financiamentos a projetos de investimentos, aquisição de equipamentos e exportação de bens e serviços. Além disso, o Banco atua no fortalecimento da estrutura de capital das empresas privadas e destina financiamentos não reembolsáveis a projetos que contribuam para o desenvolvimento social, cultural e tecnológico.

Peço que o leitor repare nos trechos com grifos (meus).

Desta feita, fica claro que a comparação que o jornalista fez, entre o financiamento de um carro (contratado junto a bancos comerciais, que têm entre suas funções precípuas o empréstimo de recursos e respectiva remuneração, com base nos juros cobrados) e o financiamento do estádio (contratado junto ao BNDES, que usa recursos oriundos de diversas fontes PÚBLICAS, entre elas o PIS-PASEP, FMM e FAT) não procede. São duas coisas muito diferentes.

Compará-las seria a mesma coisa que comparar uma briga de vizinhos devido à sujeira causada pela árvore de um deles com a guerra entre israelenses e palestinos. Algo simplesmente descabido. Os recursos do BNDES são, SIM, públicos, e não privados; a questão é que a função do BNDES, estatutariamente, é gerir recursos públicos com o intuito de fomentar o desenvolvimento econômico e social do Brasil (tendo, inclusive, estes termos na sigla BNDES).

O jornalista Carlos Brickmann pode verificar, no estatuto do BNDES, que suas funções diferem e muito daquelas funções dos bancos comerciais. Vou citar apenas alguns trechos do estatuto do BNDES abaixo, mas recomendo aos interessados a leitura da íntegra.

Art. 6º O capital do BNDES é de R$ 29.557.414.708,31 (vinte e nove bilhões, quinhentos e cinquenta e sete milhões, quatrocentos e quatorze mil, setecentos e oito reais e trinta e um centavos), dividido em seis bilhões, duzentos e setenta e três milhões, setecentas e onze mil, quatrocentas e cinquenta e duas ações nominativas, sem valor nominal. (Redação dada pelo Decreto nº 7.407, de 28.12.2010). (NR)
§ 1º O capital do BNDES poderá ser aumentado, por decreto do Poder Executivo, mediante a capitalização de recursos que a União destinar a esse fim, bem assim da reserva de capital constituída nos termos dos arts. 167 e 182, § 2º, da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, mediante deliberação do Conselho de Administração.
§ 2º A totalidade das ações que compõem o capital do BNDES é de propriedade da União.
§ 3º Sobre os recursos transferidos pela União destinados a aumento do capital social incidirão encargos financeiros equivalentes à taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia – SELIC, a partir do recebimento dos créditos até a data da capitalização.
Art. 7º Constituem recursos do BNDES:
I – os de capital, resultantes da conversão, em espécie, de bens e direitos;
II – as receitas operacionais e patrimoniais;
III – os oriundos de operações de crédito, assim entendidos os provenientes de empréstimos e financiamentos obtidos pela entidade;
IV – as doações de qualquer espécie;
V – as dotações que lhe forem consignadas no orçamento da União;
VI – a remuneração que lhe for devida pela aplicação de recursos originários de fundos especiais instituídos pelo Poder Público e destinados a financiar programas e projetos de desenvolvimento econômico e social;
VII – os resultantes de prestação de serviços.
Art. 8º O BNDES, diretamente ou por intermédio de empresas subsidiárias, agentes financeiros ou outras entidades, exercerá atividades bancárias e realizará operações financeiras de qualquer gênero, relacionadas com suas finalidades, competindo-lhe, particularmente:
I – financiar, nos termos do art. 239, § 1º, da Constituição, programas de desenvolvimento econômico, com os recursos do Programa de Integração Social – PIS, criado pela Lei Complementar nº 7, de 7 de setembro de 1970, e do Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PASEP, criado pela Lei Complementar nº 8, de 3 de dezembro de 1970;
II – promover a aplicação de recursos vinculados ao Fundo de Participação PIS-PASEP, ao Fundo da Marinha Mercante – FMM e a outros fundos especiais instituídos pelo Poder Público, em conformidade com as normas aplicáveis a cada um; e
III – realizar, na qualidade de Secretaria Executiva do Fundo Nacional de Desenvolvimento – FND, as atividades operacionais e os serviços administrativos pertinentes àquela autarquia
§ 1º Nas operações de que trata este artigo e em sua contratação, o BNDES poderá atuar como agente da União, de Estados e de Municípios, assim como de entidades autárquicas, empresas públicas, sociedade de economia mista, fundações públicas e organizações privadas.
§ 2º As operações do BNDES observarão as limitações consignadas em seu orçamento global de recursos e dispêndios.

Vamos seguir.
2) Por que, então, o financiamento do BNDES para o estádio que o Corinthians está construindo, em Itaquera, é chamado pelos meios de comunicação de “dinheiro público”? Se o financiamento existe e será pago, não se trata de dinheiro público.
Cabe ao BNDES exigir garantias de pagamento e executá-las se o pagamento não for feito – exatamente como os bancos federais fazem com seus clientes que compram um carro ou pedem crédito para adquirir outros produtos.

Alguém faltou às aulas de LÓGICA e SINTAXE, né?! O trecho “Se o financiamento existe e será pago, não se trata de dinheiro público” é BRILHANTE! Então o que determina se o dinheiro é público ou não é a existência do financiamento, ou então o fato de ser ou não ser pago???? O jeito é ignorar isso e seguir…

Sim, caro Carlos Brickmann, trata-se de dinheiro público. O BNDES empresta dinheiro PÚBLICO, com taxas de juros menores do que as praticadas no mercado (e especialmente menores se tomarmos por base as linhas de crédito disponibilizadas pelos bancos comerciais como Banco do Brasil, Panamericano, Bradesco, Santander, HSBC etc), mas isso tem uma razão: o BNDES apoia financeiramente projetos que tragam benefícios econômicos e sociais ao país, diferentemente dos bancos comerciais, que visam ao lucro. Obviamente, não há nenhuma crítica aqui, nem a estes, nem àquele. É importante, todavia, discernir que há uma diferença.

O dinheiro público é usado no financiamento de projetos relevantes para o desenvolvimento do país: fábricas que gerarão impostos (federais, estaduais e municipais), empregos, patentes, tecnologia etc. Comparar o crédito comercial usado para que as pessoas adquiram carros, eletrodomésticos e outros produtos a empréstimos milionários para fábricas e demais atividades comerciais é inadmissível se a intenção for uma argumentação séria. Não parece ser o caso.

 

3) As arquibancadas que o Governo paulista promete alugar para ampliar a capacidade do estádio são pagas com dinheiro público. Como eram dinheiro público as arquibancadas que a Prefeitura alugava para as corridas de Fórmula 1 em Interlagos; como é dinheiro público o que é gasto na reforma do autódromo, a cada ano. Como era dinheiro público a reforma anual do Autódromo de Jacarepaguá, no Rio, quando lá se realizava o GP Brasil. Como é dinheiro público o subsídio às escolas de samba e o empréstimo dos ônibus que utilizam. É dinheiro público que apóia a Parada Gay, é dinheiro público que dá suporte de infraestrutura e segurança à Marcha para Jesus, é dinheiro público que paga o réveillon.
Dinheiro público, aliás, bem gasto: dá retorno em movimento de comércio, hotelaria, serviços, em turismo, em impostos. Dá lucro, enfim. Autoridades dos mais diversos partidos políticos sempre buscaram atuar na promoção de eventos. Por isso, por reconhecer que o investimento de dinheiro público em eventos é de interesse geral, os meios de comunicação jamais o questionaram. Por que, se o evento é a abertura da Copa do Mundo, passa a ser ruim?

Nestes 2 parágrafos, novamente, o jornalista recorre a comparações descabidas, tentando justificar o injustificável.

Primeiro, porque o autódromo de Interlagos, assim como o de Jacarepaguá, são imóveis que pertencem às prefeituras de SP e do RJ, respectivamente, não são imóveis particulares (como também é imóvel público o Sambódromo de SP, por exemplo). Ao que me consta, a Prefeitura, o BNDES ou mesmo a União não promovem reformas anuais na minha casa, certo? Nem deveriam, afinal, é a MINHA casa, um imóvel particular, e não público.
Por outro lado, quem tem a obrigação de manter os imóveis públicos é…. o poder público! A Prefeitura de SP tem a obrigação de reformar e cuidar da manutenção de praças públicas, do autódromo de Interlagos, do Sambódromo, das ruas, calçadas etc. OBRIGAÇÃO do poder público, percebe?

Segundo, quando são citadas Parada Gay, Marcha para Jesus e Reveillon, trata-se de eventos que o poder público pode patrocinar ou não. Podem ser eventos lucrativos, e, claro, podem fomentar, direta ou indiretamente, o comércio, a hotelaria, serviços etc. Porém, ainda assim, é crucial avaliar a relação custo/benefício.

E é justamente neste quesito que os investimentos Bilionários na Copa do Mundo deveriam ser mais criteriosamente analisados. Não estão sendo. O retorno a ser gerado pela Copa do Mundo tem sido superdimensionado, tudo no afã de justificar investimentos altíssimos.

Conforme eu já demonstrei AQUI, o tão comentado “retorno financeiro” que tem sido citado à exaustão para justificar os bilhões de reais que já estão sendo (e ainda serão) torrados na Copa – e nas Olimpíadas também – NÃO EXISTE. Trata-se de uma falácia.

O Corinthians entregou um estudo FRAUDADO feito pela Accenture e bancado pela Odebrecht à Prefeitura de SP, e de repente o tal estudo (repito: FRAUDADO) virou verdade absoluta; todos mencionam um tal retorno financeiro que será gerado pela Copa, mas ninguém sabe de quanto. “Compraram” a versão vendida pela Accenture/Odebrecht/Corinthians.

Será que o fiasco dos Jogos Pan-Americanos não foram suficientes para o Brasil aprender?

 4) A indústria automobilística brasileira nasceu em meados da década de 50 do século passado. Não há uma única fábrica de automóveis que não tenha se beneficiado de incentivos fiscais. Goiás atraiu empresas que processam produtos alimentícios e se tornou um polo de grandes indústrias químicas oferecendo incentivos fiscais. A Zona Franca de Manaus, a Sudene, a Sudam nasceram com incentivos fiscais. Mas, para os meios de comunicação, que sempre aprovaram esses incentivos, eles passam a ser ruins quando beneficiam uma área menos desenvolvida e mais necessitada de investimentos da capital paulista, a Zona Leste.

Bom, aqui o jornalista Carlos Brickmann parece confundir empréstimo (de recursos públicos) com incentivos fiscais. São coisas diferentes – que, novamente, se confundidas, podem levar a conclusões equivocadas.

Com relação aos incentivos fiscais, eles são uma ferramenta válida quando há interesse de médio e longo prazos como, por exemplo, tecnologia – caso da Zona Franca de Manaus. Não se trata de afirmar que a ZFM deu os resultados imaginados inicialmente – ao menos, não em sua plenitude. Sudam, Sudene e outros casos cabem na mesma situação. Porém, aos trancos e barrancos, a ZFM acabou beneficiando, sim, uma região paupérrima (não em recursos naturais, mas em dinheiro mesmo).

De qualquer forma, a questão central não é esta. O problema não está em oferecer incentivos fiscais para beneficiar uma região pobre (como a Amazônia, ou mesmo a Zona Leste de SP). O problema é COMO isto vai ser feito, A QUE CUSTO, e COM QUAL RETORNO.

A Prefeitura de SP vai oferecer mais de R$ 420 milhões de incentivos fiscais para a construção do estádio em Itaquera. Contudo, o benefício gerado por este estádio é ridiculamente baixo em relação a este montante! É o mesmo que construir uma cerca de R$ 100,00 para proteger/guardar um cavalo que vale R$ 20,00. A relação custo/benefício é claramente desfavorável!

Convenhamos: qual será o benefício PÚBLICO (de interesse público e geral) da construção do estádio?

O benefício PARTICULAR do Corintians é claro – o clube finalmente vai ter um estádio, coisa que não conseguiu construir em mais de 100 anos de existência (nem vem ao caso por quais razões, isso é problema do clube). Porém, o benefício PÚBLICO qual seria? Praticamente nenhum!

 5) Este colunista é corinthiano. Mas não pretende discutir futebol, economia nem política partidária, mas equanimidade. Se incentivo fiscal é bom para o desenvolvimento, não pode ser ruim para o desenvolvimento. Se financiamento de bancos federais está disponível para o público (e até para auxiliar grandes empresários a alcançar suas metas), não pode estar indisponível para o público. Se o dinheiro público pode ser gasto para incrementar o turismo de eventos, não pode ser vedado para incrementar o turismo de eventos.

Eu não sou corintiano.
Eu não sou palmeirense.
Eu não sou são-paulino.
Eu não sou santista.
Eu não monto frases que tentam usar recursos estilísticos que resultem em total falta de senso de lógica.

Mas eu sou contribuinte, cidadão que paga altíssimos impostos. Federais, estaduais e municipais. E também quero discutir (e, mais do que isso, VER) equanimidade.
Se eu quero construir uma casa para mim, tenho que pegar empréstimos a juros altíssimos (os maiores do mundo). Ok, eu não vou gerar milhares de empregos, nem patentes, nem contratar PhDs a peso de ouro, trazendo P&D para o país. Mas vou contratar pedreiros, engenheiro e, quiçá, arquiteto. E vou pagar pesados impostos ao comprar areia, cimento, azulejos, tinta, guarnições, ferragens etc.

Contudo, eu terei que pagar. Se eu não pagar o empréstimo, o banco tomará minha casa.
O mesmo não acontecerá com o estádio do Corintians.

Por exemplo: o terreno aonde está sendo construído o Itaquerão (diga-se que as obras NÃO poderiam começar, uma vez que o terreno está envolvido num imbróglio, mas esse “detalhe” foi tacitamente ignorado, e as obras começaram). Aquele terreno foi cedido ao Corintians, pela Prefeitura de SP. O terreno, contudo, é outra fonte de dúvidas e questionamentos. Cito trechos de uma matéria do jornal O Estado de São Paulo (cuja íntegra pode ser lida aqui) sobre isso:

O imbróglio jurídico que envolve o terreno de 200 mil metros quadrados, cedido pela Prefeitura ao Corinthians em 1988, é de conhecimento do presidente Andrés Sanchez. “Ele (Andrés) veio ao MP em setembro, se reuniu conosco e se mostrou disposto a colaborar. Mas, de repente, foi apresentado à imprensa um estádio num terreno que está sub judice. Até agora não recebemos nenhum projeto. O Corinthians sabe que qualquer obra no local no momento tem impedimento legal”, afirma Freitas. O promotor pede na ação a anulação da concessão da Prefeitura para o Corinthians.
“Quando recebeu o terreno, o clube tinha cinco anos para construir um estádio e não o fez. A Prefeitura também se omitiu de cobrar, mesmo depois de a Câmara Municipal em 2001 ter informado o descumprimento da lei”, argumenta o promotor. Em 2001, moradores de Itaquera apresentaram uma representação aos vereadores da Comissão de Finanças na qual denunciavam que o terreno do Corinthians havia virado um depósito clandestino de lixo e de entulhos. Até hoje a área do terreno, vizinha ao centro de treinamento, é usada como abrigo de restos de materiais de construção e de lixo doméstico.
(…) O juiz Ferraz de Campos declarou ontem que analisa o processo, cuja sentença deve ser emitida nos próximos meses. “Mas podemos analisar um acordo com as duas partes (Prefeitura e Corinthians), com alguma contrapartida para a população ou para o trânsito no entorno. Antes disso, qualquer intervenção que ocorra no terreno será alvo de um pedido de paralisação imediata na Justiça por nossa parte”, acrescentou o promotor de Urbanismo.

LINHA DO TEMPO

HÁ 22 ANOS, ÁREA EM ITAQUERA FOI CONCEDIDA AO CORINTHIANS PARA CONSTRUÇÃO DO ESTÁDIO

1 – 1988 – Lei 10.622 concede a área em Itaquera ao clube por 90 anos, com a construção do estádio em cinco como contrapartida.

2 – 1993 – Passados cinco anos, a única obra feita pelo Corinthians no local em Itaquera foi a construção do Centro de Treinamento.

3 – 2001 – CPI da Câmara pede devolução da área. Diretoria corintiana diz não ter recebido a escritura e promete estádio em 4 anos.

4 – 2005 – Prefeitura ameaça cobrar taxa mensal de R$ 870 mil do clube para seguir com a concessão, mas medida acaba revogada.

5 – 2010 – Em agosto, ao anunciar estádio, Andrés Sanchez desdenha da concessão. “Se eu quiser, esses 90 anos viram 150, 200 anos.”

Portanto, caro jornalista Carlos Brickmann, em nome da equanimidade que você defende, quero que o Corintians, assim como qualquer empresa e/ou pessoa, tenha que cumprir a lei.

Se eu construir minha casa num terreno que não me pertence, o que acontece? Certamente não serei agraciado com incentivos fiscais da Prefeitura de SP, nem tampouco ganharei um afago na forma de empréstimo de dinheiro público do BNDES. O mais provável é processo judicial, e desapropriação, não?

O mesmo não aconteceu com o Corintians. Por quê?

No final das contas… cadê a equanimidade? 

6) E, quanto ao estádio de Itaquera ser particular, lembremos: as fábricas de automóveis são particulares, as escolas de samba não são públicas, o comprador de automóveis não é um ente governamental. Torcedor torce por seu time e contra os outros, simpatizante torce por seu partido e contra os outros. Mas imprensa tem de ser diferente.

As fábricas de automóveis, que são particulares e não públicas, constróem suas fábricas com dinheiro particular, não público. Quando estas fábricas recorrem ao BNDES para construir uma planta, estão usando dinheiro público, e devem ser fiscalizadas, pois o dinheiro é público. Mas, neste caso, o BNDES tem critérios técnicos a serem observados. Tratarei deles em algumas linhas.

Como eu apontei anteriormente, você confundiu empréstimo do BNDES com isenção fiscal. É compreensível esta confusão, pois o Corintians está usando ambas como fonte de recursos para construir seu estádio particular, ou seja, está usando SOMENTE dinheiro público numa obra PARTICULAR. Mas empréstimo é diferente de isenção.

 

E, seja em termos de empréstimo (de dinheiro público), seja em termos de isenção fiscal e/ou tributária, há um aspecto da maior relevância a ser ponderado – mas este “detalhe” costuma ser deixado de lado.

Se eu, consumidor, recorro a um banco, pleiteando um empréstimo, o banco vai fazer uma detalhada análise da minha situação. Se eu tenho um salário de R$ 2.000,00 mensais e peço um empréstimo para adquirir uma Ferrari de R$ 1 milhão, o banco vai autorizar a concessão do empréstimo?

Claro que não!

Então, caro Carlos Brickmann, fique sabendo que o Corintians teve, em 2010, um EBITDA (lucro bruto) de R$ 12.831.000,00, ou seja, pouco mais de 12 milhões de reais, diante de uma receita total de R$ 173.615.000,00. Grosso modo, a empresa Corintians faturou 173 milhões, mas o lucro foi menos de 10% disso.
Estes dados estão no balanço do clube, disponível aqui.

Agora me diga, caro Carlos Brickmann, em nome da equanimidade: é justo o BNDES emprestar 400 milhões de reais a uma empresa que não lucra, anualmente, nem 10% disso?

É justo a Prefeitura oferecer isenção fiscal que corresponde a mais de 33 anos de lucro (EBITDA) do Corintians?

O problema, caro Carlos Brickmann, é que o Corintians está sendo beneficiado, e as razões desses benefícios passam longe da equanimidade. Aliás, passam longe da moralidade também. Não se trata de time, não se trata de partido, não se trata de imprensa.

Trata-se, enfim, de como encaramos a “res publica”, ou seja, a coisa pública. Inclua-se aí a equanimidade, mas não nos restrinjamos a ela.

Suas reclamações, caro Carlos Brickmann, são mais do que descabidas: a imprensa, no geral, está sendo leniente, extremamente leniente, com as coisas absurdas que estão sendo feitas em nome da Copa de 2014. Já começaram desvios de dinheiro e benefícios inaceitáveis numa república séria, tudo em nome da viabilização da Copa (e das Olímpiadas de 2016 também). A mim pouco (ou nada) interessam as disputas políticas envolvendo os times paulistas – pois, como já mencionei, não torço para nenhum deles.

Contudo, a mim interessa, e muito!, o que é feito com o dinheiro público. E sob a égide de preparar o país para a Copa, vemos o executivo e o legislativo aprovando (ou mesmo fazendo, diretamente) leis e projetos de lei ABSOLUTAMENTE IMORAIS. Enquanto faltam hospitais, médicos, equipamentos, enfermeiros, escolas, professores, livros, presídios, policiais e tantas outras coisas, vemos vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidentes (primeiro, Lulla, que precisava faturar politicamente ao atrair Copa e Olimpíadas para o Brasil, e agora a Dilma, uma gerente da maior incompetência gerencial) gastando tempo e – especialmente – dinheiro público para beneficiar pequenos grupelhos, em detrimento da população.

Os grupelhos ganharão mais dinheiro, enquanto a população segue na pobreza. Política do pão e circo: enganem os otários com alguma diversão (Copa, Olimpíadas) que eles não perceberão que terão que seguir comendo (pouco) pão para pagar pelo circo.

E a impresa, caro jornalista Carlos Brickmann, parece tão indiferente e anestesiada quanto grande parte da população.

Juca Kfouri, numa entrevista à Folha recentemente, usou o termo correto para classificar o que tem ocorrido em relação ao Itaquerão: UM ESCÂNDALO. E olha que se trata de um jornalista sem credibilidade nenhuma (veja a imagem abaixo), que para piorar ainda é corinthiano.

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A “mídia”, senhor Carlos Brickmann, não tem tratado este escândalo como deveria. Muito pelo contrário. Estas obras, estes projetos da Copa e das Olimpíadas deveriam estar na capa de todos os jornais e revistas do país, nas manchetes de jornais de rádio e TV, para que a população compreendesse o tamanho do prejuízo que ela mesma terá.

Porém, muita gente quer mais o circo do BBB, do futebol, não é?!
Bom para os ladrões, caras-de-pau, corruptos e cartolas oportunistas e “ixpérrtos” do Brasil.

Síndrome de Peggy Sue volta a atacar

Síndrome de Peggy Sue: seu passado o condena.

A Mulla (e todos os PTralhas, que se registre) sobre desse mal:

Para as devidas explicações, recorro ao texto do Reinaldo Azevedo:

O vídeo abaixo não deixa de ter a sua graça. Vemos o Lula de hoje, em 2009, a descer o braço em supostos críticos do Bolsa Família, que teriam classificado o programa de assistencialista”, “demagógico” e “uma esmola”. Para Lula, tais pessoas são “imbecis e ignorantes”.

Em seguida, vem o Lula de antes, o de 2000. Ele lamenta que o voto, no Brasil, não seja “ideológico” e que as pessoas não “votem partidariamente”. Segundo este pensador, “o alto grau de empobrecimento do Brasil” faz com que a pessoa escolha um candidato “pelo estômago, não pela cabeça”. E critica a distribuição de cestas básicas ou do ticket do leite.

Noto: naquele 2000, foi criado o Bolsa Escola; no ano seguinte, vieram o Bolsa Alimentação e o Auxílio-Gás. Todos esses programas foram reunidos, depois, sob a rubrica Bolsa Família, tida como a grande “invenção” de Lula. O PT, saibam, classificava o Bolsa Escola de assistencialista, tanto que a então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, negava-se a implementá-lo em São Paulo. Só deu início ao processo sob pressão.

Pois é… Para o PT, o programa de bolsas era “demagógico” e “assistencialista!”. Vocês sabem, né? Naquele tempo havia muitos “imbecis e ignorantes” no Brasil.

Dialógo entre colegas

Resposta de um Médico, Dr. Humberto de Luna  Freire Filho, a outro médico, Dr. Aldo Pacinoto publicadas no jornal O Estado de São Paulo

Carta do Dr. Aldo Pacinoto
Date: Thu, 4 Jun 2009 12:35:10 -0300

Prezado senhor Humberto.

Sei perfeitamente que os leitores do jornal O Estado de S.Paulo são conservadores, muitas vezes reacionários, claramente de direita. Mas algumas cartas chegam ao cúmulo do absurdo.

Ontem um leitor disse que a culpa dos erros nas cartilhas do governo do senhor José Serra é culpa de algum “petista infiltrado” na Secretaria da Educação.
Hoje, o senhor faz uma observação completamente equivocada.
Não é apenas o presidente americano Obama que elogia o nosso presidente. Os elogios estão vindo de todos os continentes. É o presidente francês, é o presidente sul-africano, o premiê inglês, finlandes, alemã.

Só não vê em Lula um grande líder pessoas preconceituosas que ainda o enxergam como um metalúrgico analfabeto. O senhor deve ser de classe média média ou alta.
Pergunto: o que piorou em sua vida com o governo Lula? O que vai melhorar com o governo Serra? É claro que a classe média não quer enxergar em Lula um presidente que tem enfrentado crises econômicas internacionais como ninguém.
O senhor lê a Economist? O El País? O Le Monde? Se ficar lendo apenas o Estadão e a Veja terá uma visão burguesa e centrada em críticas e mais críticas. Radical.
O senhor sabe o quanto o atual governo melhorou a vida dos menos favorecidos? O senhor não quer que ele melhore a vida dos mais pobres?
Sou médico, não sou petista, sou classe média até digamos alta. Tinha tudo para pensar como os leitores do Estadão que mandam frases de efeito, às vezes engraçadinhas, que o jornal adora publicar. Mas, felizmente, penso exatamente ao contrário desses leitores. Graças a Deus e ao meu pai que me ensinou a olhar a vida sem radicalismos.

Atenciosamente.

ALDO PACINOTO
Curitiba

Resposta do Dr. Humberto de Freire Luna Filho

Date: Fri, 5 Jun 2009 01:54:52 +0000

Prezado colega Aldo
(Também sou médico – Neurocirurgião)

Antes de mais nada quero deixar claro que não sou eleitor do Sr.José Serra, sou apolítico, não filiado a nenhum partido, tenho nojo de politíca e, consequentemente, de políticos, principalmente dos atuais.
Sou a favor sim, dos princípios morais, mas, para meu desapontamento, isso transformou- se em fruta rara nos três Poderes da República no atual governo.
Quero também informar ao colega que leio qualquer publicação e não só O Estado de S. Paulo e a Revista Veja, como também já viajei por meio mundo, portanto vou responder suas indagações com conhecimento, e o que é mais importante, com a independência de um profissional liberal não comprometido com governo nem com imprensa nem com igreja nem com sindicatos ou com quem quer que seja.

Quanto à sua pergunta sobre o que piorou na minha vida durante o governo Lula e as possíveis melhoras em um possível governo Serra, eu diria que não houve nem haverá nenhuma mudança. Nem eu quero que haja, porque de governo, qualquer que seja a tendência ideológica, eu só desejo uma coisa: DISTÂNCIA.

Não dependo nem nunca dependi de nenhum deles. Uma outra afirmativa sua é sobre a melhoria da vida dos mais pobres (por conta do bolsa família, imagino). Minha opinião é que bolsa família não é inclusão social, é esmola, mais precisamente compra disfarçada de votos. O pobre não quer esmola, quer escolas, hospitais,ambulatórios que funcionem na realidade. Nos palanques eleitorais já foi dito até que a medicina pública brasileira está próxima da perfeição. Só que a cúpula do governo, quando precisa de assistência
médica, dirige-se ao Sirio-Libanês ou ao Hospital Israelita e chega em São Paulo em jatos particulares. O colega, como médico, não deve ignorar essa realidade.

Na área rural, falta mão de obra porque o dito trabalhador rural virou parasita do governo e não mais trabalha. Para que trabalhar? eu fico em casa e no final do mês o governo me paga. Essa foi a frase que tive que engolir,
não faz muito tempo, antes de abortar um projeto em minha propriedade rural que empregaria pelo menos de 50 pessoas. Quando optamos pela mecanização, vem um bando de sindicalistas hipócritas junto com a quadrilha do MST, diga-se de passagem foras da lei e baderneiros, financiados com dinheiro público, dizer que a máquina está tirando o emprego no campo.

Outro item a que você se refere é sobre a minha observação, completamente equivocada (equivocada na sua opinião), publicada hoje no jornal O Estado de S.Paulo. Pois é, aquela é a MINHA observação e eu espero que o colega a respeite como eu respeitaria a sua se lá estivesse publicada. E mais se você quiser fazer um giro maior, saindo portanto, da esfera do Estadão e da Veja para fugir do conservadorismo dos mesmos, (conservadorismo também opinião sua – respeito) , verá que existem muitas outras publicações minhas dentro
do mesmo raciocínio, coerência, independência e coragem que tenho para falar o que quero, e assumir totalmente a responsabilidade pelo dito. Colega, por favor, pesquise os seguintes jornais: Diário de Pernambuco (Recife-PE), Diário da Manhã (Goiânia-GO), Gazeta do Povo (Curitiba-PR) , O Dia (Rio de Janeiro-RJ), Jornal O Povo(Fortaleza- CE) e outros, além de dezenas de sites e blogs.

Agora faço a minha primeira pergunta: são todos conservadores e reacionários? Não! são independentes. Não são parte da imprensa submissa e remunerada com dinheiro público, não fazem pubilicidade da Petrobras, do Banco do Brasil da Caixa Economica Federal, do PAC, e o mais importante, não recebem ordens de Franklin Martins, (o Joseph GoebbelsTupiniquin), manipulador de informações, prestidigitador que usa o vulnerável substrato cultural brasileiro, para transformar câncer em voto.

E para encerrar, permita-me fazer mais essas perguntas: O The Economist, o El País,O Le Monde etc. informaram a opinião pública européia sobre as dezenas de escândalos financeiros e morais ocorridos no País nos últimos sete anos e que permanecem impunes por pressão do grande lider e asseclas? Informaram que o Congresso Nacional está tomado por uma quadrilha manipulada pelo Executivo (80% envolvidos em algum tipo de delito) e que conseguiram extinguir a oposição? Informaram que a maior empresa brasileira é estatal e ao mesmo tempo usufruto do governo, e que o mesmo tenta desesperadamente blindá-la contra qualquer fiscalização? Informaram que 40% dos ministros e ex-ministros desse governo respondem a processos por malversação de dinheiro público?

Eu acho que os chefes de estados da Europa não sabem dessas particularidades. Por muito menos estão rolando cabeças no Parlamento Britânico, e com uma grande diferença, o dinheiro lá desviado é devolvido aos cofres públicos; enquanto aqui parte é rateada; parte é para pagar bons advogados, e outra parte é  incorporado ao patrimônio do ladrão.

Casos exaustivamente comentados na imprensa vem ocorrendo há anos com pelo menos cinco indivíduos que hoje fazem parte ativa da base de sustentação do grande líder. Isso para não falar de coisas mais graves como os assassinatos dos prefeitos de Campinas e de Santo André, envolvendo verbas de campanha. Crimes esses nunca esclarecidos e cujos cadáveres permanecem até hoje no armário do PT. Portanto, ver Luiz Inácio Lula da Silva como um líder é querer forçar um pouco. Para mim, ele não passa de papagaio de pirata de Hugo Chavéz. Veja a sua última pérola: “O Brasil acha petróleo a 6 mil metros de profundidade por que não acha um avião a 2 mil”. Isso não é pronunciamento de líder em um evento público envolvendo dezenas de chefes de estado. Isso cairia bem em reunião de sindicato ou em mesa de botequim. Caracteriza oportunismo vulgar.

Moro no Brasil, sei ler e não sinto azia quando leio. Não sou preconceituoso nem radical, modéstia a parte, sou esclarecido, e se combater corrupção é radicalismo, aí sim, sou RADICAL, e estou pronto para qualquer coisa como todo nordestino.. . de caráter.

Atenciosamente.
Humberto de Luna Freire Filho
São Paulo