Teorias complexas, explicações simples

O texto abaixo foi publicado no Valor Econômico, e trata da assimetria de informações.
Um texto claro, interessantíssimo, que vale a leitura.

O artigo serve como uma excelente introdução a conceitos como “competitividade”, “Teoria dos Jogos” e outras tantas – mas faz isso de uma forma extremamente clara e simples.

Peço ao leitor que, depois de ler, reflita sobre a assimetria das informações. Uma empresa precisaria de uma estratégia competitiva se todos num determinado mercado tivessem acesso às mesmas informações? Concorrentes, clientes, funcionários etc…?

Leia, e reflita:

Carro usado, o taxista e a crise

Por Bernardo Guimarães e Carlos Eduardo Soares Gonçalves, para o Valor
20/06/2008

Lembro-me de minha animação de menino quando meu pai anunciava que ia trocar de carro. O processo de compra de outro carro era para mim empolgante em si: ir às feiras de carros usados, entrar em vários modelos, dar palpite ao meu pai, acompanhá-lo nos testes de direção, etc. Hoje, mais interessante para mim é a semelhança entre os empecilhos ao funcionamento do mercado de automóveis usados e as causas da crise financeira nos Estados Unidos. Ambos tem a ver com o que os economistas chamam de problemas de assimetria de informação.

O problema com o funcionamento do mercado de carros usados não é a qualidade dos carros em si, mas sim o fato de o dono conhecê-la bem melhor do que os potenciais compradores. Dentro do contingente de carros usados existem aqueles bem conservados e outros em mau estado, a depender do cuidado prévio do dono, entre outras coisas. No entanto, é muito difícil para o comprador separar o joio do trigo. Seu pior pesadelo é descobrir apenas três meses mais tarde que o automóvel adquirido estava com a caixa de marchas comprometida!

Mesmo não sabendo separar gato de lebre, o fato de o comprador saber que existem carros bons e carros ruins influencia o montante que ele está disposto a desembolsar na feira de carros usados. Exemplificando com números: se um carro bom para ele vale até R$ 20 mil e um ruim no máximo R$ 5 mil, e há 50% de chance de o carro ser bom, ele não pagará mais do que R$ 12.500 (R$ 20.000 x 0,5 + R$ 5.000 x 0,5) para trocar de automóvel. Infelizmente, a R$ 12.500 um vendedor que tem um carro bom em mãos (e sabe disso) muito provavelmente não vai querer fechar negócio. Assim, na feira sobram apenas os carros ruins.

De sua parte, os compradores entendem perfeitamente essa lógica e, portanto, ou vão embora (os que fazem questão de comprar um carro bom), ou desembolsam R$ 5 mil por um carro que eles sabem ser ruim. Resumo da ópera: não é possível comprar e vender carros bons na feira de carros usados!

O problema informacional caracterizado no exemplo precedente recebe o nome de seleção adversa. Ele ocorre quando antes de a transação ser concretizada, uma das partes possui mais informação do que a outra.

Vejamos outro caso interessante de seleção adversa. Em Nova York o táxi é um meio de transporte muito utilizado. Em Nova York há negros e brancos. Em Nova York, por diversas razões históricas, alguns taxistas nutrem algum grau de preconceito contra os negros. O que é incrível é que, por causa do preconceito inicial de alguns taxistas, mesmo se o porcentual de negros assaltantes na população de NY for igual ao de brancos assaltantes, haverá desproporcionalmente mais negros assaltantes em busca de táxis. Isso, por sua vez, explica por que mesmo um motorista não intrinsecamente racista optará racionalmente por não pegar clientes negros. Vejamos por quê.

O problema é similar ao dos carros usados: o motorista não sabe distinguir ladrão de trabalhador de dentro do carro – antes de a transação ocorrer, quem espera o táxi sabe mais sobre si mesmo do que o taxista. Mas, se a proporção de assaltantes for idêntica dentro dos dois grupos étnicos, o motorista não racista não tem motivos para evitar clientes negros, certo? Errado. Se há um grupo de taxistas preconceituosos, os negros em média esperam mais tempo para conseguir um táxi. Para os negros trabalhadores, isso significa um custo de tempo relevante, levando-os a optar pelo metrô. Resulta que o preconceito inicial que acarreta um custo de espera para o negro trabalhador altera a proporção “negros assaltantes/negros trabalhadores” à espera de um táxi (acontece uma seleção adversa), elevando-a comparativamente à do grupo de brancos. Conseqüentemente, haverá mesmo mais negros assaltantes demandando táxis e em vista disso um taxista não racista racionalmente evitará clientes negros.

No exemplo dos carros usados, a assimetria informacional entre comprador e devedor faz que os carros bons sejam expulsos do mercado pelos ruins. No dos taxistas, assimetria informacional combinada com alguma dose de preconceito inicial faz que os negros trabalhadores sejam substituídos pelos negros assaltantes na fila do táxi.

Outro tipo de assimetria informacional muito estudada pelos economistas – chamada de perigo moral – é aquela que se dá não antes, mas depois de a transação ser efetuada. Concretamente, ela é grave quando uma das partes não consegue monitorar facilmente as ações da outra uma vez celebrado o acordo ou negócio e essas ações afetam de modo significativo o ganho da parte menos informada. O exemplo mais tradicional de perigo moral diz respeito aos contratos de seguro. Depois de assinado o contrato de seguro de um automóvel, os incentivos do dono do carro para dirigir mais prudentemente ou para estacionar no estacionamento fechado, em vez de na rua, diminuem.

Essa mudança de comportamento afeta adversamente o lucro da seguradora, mas é difícil evitá-la, dado que para a seguradora é impossível monitorar de perto o modo de dirigir do segurado e cobrar de acordo com isso (esta é assimetria informacional em questão). Agora o leitor já sabe o motivo da existência da franquia: reduzir os incentivos à displicência do segurado depois de feito o seguro.

Conhecendo os conceitos de seleção adversa e perigo moral, podemos enfim entender a anatomia da crise do subprime, que tem causado muita preocupação nos mercados mundiais. Depois da breve recessão de 2001-2002, o Banco Central dos EUA manteve a taxa de juro em níveis muito baixos por muito tempo visando a restabelecer um crescimento maior e fugir da deflação.

Nesse cenário, muitas instituições financeiras, tendo acesso a recursos a taxas mais baixas – e enfrentando dificuldades de prover taxas de retorno mais gordas a seus depositantes -, optaram por estender empréstimos imobiliários a grupos que antes não tinham acesso a esses créditos. Em conseqüência, piorou a qualidade média da carteira de empréstimos (seleção adversa). Semelhantemente ao caso dos carros usados e dos negros esperando táxi, quando algumas instituições financeiras relaxaram seus padrões de concessão de empréstimos, a qualidade média do devedor piorou. Aí, quando os juros voltaram a subir, uma parte desses tomadores com menor fôlego financeiro não conseguiu honrar suas prestações. A taxa de inadimplência cresceu fortemente – principalmente entre os que se haviam endividado a taxas variáveis – e deu no que deu.

Complicando mais a situação dos bancos, os preços dos imóveis começaram a cair, em parte por causa da alta do juro. Como os imóveis são a garantia dos bancos caso os empréstimos não sejam honrados, a situação se deteriorou mais ainda, dado que não apenas os que não conseguiram repagar entregaram às instituições financeiras garantias (imóveis) com baixo valor de mercado como alguns devedores optaram por estrategicamente inadimplir: melhor entregar um imóvel que vale pouco do que pagar uma dívida mais “salgada” depois da alta do juro.

Isso tudo nos remete à seguinte questão: por que algumas instituições financeiras aumentaram tanto sua exposição em empréstimos para grupos com menor capacidade de repagamento? Em parte pelo dito algumas linhas acima (menor custo de captação), em parte porque o dinheiro que elas emprestam é de terceiros, o que aumenta sua propensão a arriscar.

Nasce justamente aí a justificativa para a regulação bancária e não é à toa que depois da crise do subprime foi retomado o debate sobre a adequação das atuais regras da Basiléia. Mas por que a necessidade de regulamentação pública? Por que os depositantes não monitoram eles mesmos as ações das instituições financeiras? Em parte porque eles não têm as mesmas informações que elas e é custoso adquiri-las e em parte porque o sentimento de que as autoridades governamentais não deixarão as instituições financeiras quebrar caso uma crise ocorra (e há bons motivos para isso, dado o custo enorme das crises bancárias) diminui seus incentivos para monitorar de perto a qualidade dos empréstimos.

No arranjo ideal, o governo garantiria ao depositante que este recuperaria seu dinheiro no caso de uma crise bancária (esse tipo de seguro ajuda muito a impedir que esse tipo de crise ocorra) com a condição de que ele monitorasse de perto as ações da instituição financeira que administra sua poupança. Contudo, similarmente ao segurador de carros, o governo não tem como saber se os depositantes estão ou não vigiando as ações da instituição depois da efetivação do seguro-depósito. Por causa disso, o controle dos indivíduos sobre as instituições financeiras será necessariamente precário se houver alguma expectativa de socorro com dinheiro público caso o pior se materialize.

É por isso que se faz necessária a regulamentação pública no setor financeiro. De fato, a ausência de regulamentação no caso dos Fundos Imobiliários americanos é recorrentemente apontada como fator importante na explicação da crise.

Concluindo, as questões de assimetria informacional estão presentes em diversos contextos socioeconômicos. É no mínimo curioso que o “racismo” de não racistas, as dificuldades nos mercados de carros usados e a crise do subprime tenham tanto em comum.

Carlos Eduardo Soares Gonçalves, professor da FEA/USP, e Bernardo Guimarães, professor da London School of Economics, são autores de “Economia sem Truques” (Campus/Elsevier) e escrevem neste espaço na terceira sexta-feira do mês

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