OTG: Organizações Totalmente Governamentais

No Brasil, fala-se muito das “ONGs”, as Organizações não-governamentais.

Infelizmente, na prática, o que se tem visto são ORGANIZAÇÕES TOTALMENTE GOVERNAMENTAIS, uma vez que elas dependem TOTALMENTE do governo para subsidiá-las.

Dona Manuela andou tecendo comentários aqui no blog (aqui), mas parece ter jogado a toalha quando viu-se sem argumentos.

A única conclusão da Dona Manuela foi esta: “Mas qdo eu pedi pra vc desenhar era só pra ter certeza de qual argumento vc lançaria mão: claro, simplista, claro, a-histórico, claro, de um homem, claro, de um branco, claro, que nunca passou por situações que por exemplo as mulheres que marcharam em agosto do ano passado passam“.

Vou deixar de lado o português da Dona Manuela, pois imagino que ela seja da ONG AOLPI (“Abaixo à Opressão da Língua Portuguesa Imperialista”).

Ela praticamente traçou um perfil meu (ao menos aquele que ela IMAGINA ser o meu perfil), mas esqueceu de ARGUMENTAR. Preferiu tergiversar – como, de resto, todo e qualquer PTralha que siga o Manual do PT faz – e achou mais conveniente partir para questões de caráter pessoal, concluindo que eu sou homem, branco (o que isso tem a ver com a questão, aliás ?! Me parece ser apenas racismo por parte da Dona Manuela…. Imaginem se eu dissesse que ela é negra, e, portanto, seus argumentos são ruins – isto seria crime, não ?! Bom, ela fez rigorosamente o mesmo, no sentido inverso !!!!) e que nunca passei por “situações” que ela decerto conhece por ler na Caros Amigos ou qualquer publicação rasteira congênere.

Brilhante, Dona Manuela !

Eis aqui, então, o artigo (publicado na Revista Veja de 18/06/2008, Edição 2065) que eu citei na minha resposta à energúmena, tratando (muito bem) da questão das ONGs brasileiras (que são, em verdade, OTGs):

As ONGs do fim do mundo

Reinaldo Azevedo

Não faz três meses, morreríamos todos assados no fogo do inferno de nossas ambições. Quem é esse sujeito determinado, porém oculto? Nós, os “seres humanos”. Procurem na Bíblia ou na internet o Apocalipse de São João. As previsões sobre os males que advirão do aquecimento global foram copiadas de lá. Se ele não era um bom cientista, não há cientista que o supere em matéria de fim do mundo. O tema deixou de ser prioridade nestes dias. Agora, vamos morrer de fome. Um certo “sistema” – sim, o capitalismo –, que faria derreter o planeta, ameaça deixar a Terra esfaimando. Diacho de modelo esse que vive dando tiro no próprio pé! Será que era isso que os comunistas queriam dizer quando afirmavam que o capitalismo trazia em si a semente de sua própria destruição?

Quem propaga essas verdades eternas? As organizações não-governamentais (ONGs) – incluindo a maior delas: a Organização das Nações Unidas. Outro dia alguém me disse que até me considerava um cara bacana e tal – se acha isso mesmo, não me interessa; a mentira cujo propósito é a gentileza é decorosa. Mas ele não entendia como alguém lido podia acreditar na Santíssima Trindade. Nem eu! Até hoje, prosseguiu meu interlocutor, ele não compreendia essa história do “Três em Um”: Pai, Filho e Espírito Santo. Não cabe o pormenor, mas admito que há coisas que são matéria de fé, o que todo racionalista decente sabe. Concluí que é mais fácil um homem instruído acreditar no fim do mundo – ou na redenção – antevisto pelos “cientistas” do que na vida eterna anunciada por Deus…

À medida que as escatologias científicas vão se tornando influentes, números começam a pulular. Há um fascinante: indica que, no mundo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos. Louvo a precisão do humanismo matemático. E indago: e se assim foi, por exemplo, nos últimos quinze anos? A China, sozinha, tirou, nesse período, 400 milhões de pessoas da pobreza. A fé não precisa fazer conta. A ciência, sim. Quinze anos correspondem a 5.475 dias, cada um com 86.400 segundos – logo, falamos de 473.040.000 segundos. Como a China tirou, nesse tempo, 400 milhões de pessoas da pobreza, isso significa que 0,846 indivíduo por segundo deixou essa condição. E olhem que ignorei a Índia e o Brasil.

O tal “sistema perverso”, que mataria de fome uma criança a cada cinco segundos, tira da miséria um indivíduo por segundo. O saldo é bem positivo. É por isso que a população do planeta cresce de forma assustadora. E o fantástico desempenho da China e da Índia nada deve à militância ongueira: é uma conquista da economia de mercado, que quer destruir o planeta. Sempre que alguém vem me falar sobre o fim dos tempos, pergunto: “Você tem aí alguma previsão para a semana que vem?”. Em matéria de apocalipse, fico com o de São João.

O Brasil, que se defendia da acusação de ser um dos agentes do aquecimento por causa das queimadas, ofereceu ao mundo o etanol e, agora, é suspeito, de forma infundada, de produzir álcool em vez de grãos. O presidente Lula está experimentando quão difícil é lutar contra uma “doxa” – uma falsa verdade, porém influente. Em solo pátrio, o dono da “doxa”, em aliança com o onguismo, sempre foi o PT. Lembram-se dos ditos “movimentos sociais” que ajudaram a criar o partido? Todos se converteram em ONGs e Oscips (organizações da sociedade civil de interesse público).

Estima-se entre 250.000 e 275.000 o número dessas entidades no país, 100 000 das quais atuando na Amazônia. Há 700.000 índios no Brasil, talvez uns 600.000 naquela região. Se todas cuidassem dos nossos bons selvagens, teríamos seis índios para cada ONG: daria para fornecer casa, comida, roupa lavada e pós-doutorado. Mas algumas, sei, cuidam de outros assuntos: o minhocuçu, o sapo-gigante, a aranha-armadeira, os bagres… Você só escapará de ser sufocado pelo amor de uma ONG se for o verdadeiro negro do mundo: bípede, branco, macho, heterossexual e católico. Fora disso, basta erguer a mão ou aprender a guinchar, e aparecerá uma multidão para protegê-lo.

As entidades mais influentes contam com farto financiamento internacional, a exemplo da CIR (Conselho Indígena de Roraima), que lidera a luta para expulsar os “não-índios” de Raposa Serra do Sol. A Fundação Ford é muito generosa com esses patriotas: doou-lhes 300.000 dólares no ano passado. Já o Geledés – Instituto da Mulher Negra – foi agraciado, entre 2004 e 2008, com 1,1 milhão de dólares. As informações estão no site da fundação. Nada contra a doação. Mas quem gerencia a entrada de dinheiro em entidades que acabam passando como porta-vozes de supostos clamores públicos? Ninguém! Fosse apenas o dinheiro de fora a inundar o caixa dos filantropos, vá lá. Mas as ONGs e Oscips se tornaram instrumentos da terceirização do governo – e da sangria dos cofres públicos. Os números são formidáveis: entre 1999 e 2007, saíram do Orçamento da União para as ONGs 36,12 bilhões de reais – com correção monetária, a cifra passa de 50 bilhões de reais. Só no ano passado, receberam o capilé oficial 7.670 entidades.

Centrais sindicais, sindicatos de empregados e de patrões, sindicalistas, jornalistas, artistas, políticos, as mulheres, maridos e ex-cônjuges de toda essa gente, empresas, igrejas, movimentos sociais, partidos… Todos têm a sua entidade não-governamental para reivindicar – e levar – grana do governo. Só a gente tem jabuticaba. Só a gente tem uma pororoca verdadeiramente amazônica. Só a gente tem índio que compra facão em supermercado em nome das tradições dos ancestrais. E só a gente tem as ONGGs: organizações não-governamentais… governamentais! Não sei se estão lembrados, mas até o governo chegou a ter a sua: o programa Fome Zero.

Em escala mundial e local, as ONGs passaram a ser as donas da pauta e das políticas públicas. E ai de quem ousar contrariar a doxa! Cito um caso emblemático. O Brasil é exemplo no tratamento da aids, mas sua política preventiva está centrada apenas no uso da camisinha. A contaminação voltou a crescer. Pobre daquele que ousar sugerir que abstinência sexual e fidelidade – além do preservativo – são úteis no combate à doença. Será acusado de estar misturando religião com ciência e acabará com a reputação na fogueira, enquanto os racionalistas recitam mantras cartesianos.

Na África, continente em que a doença é um flagelo, lembrou em seu blog o jornalista Fábio Zanini, Uganda é um caso notável de sucesso no combate à doença. Há quinze anos, cerca de 30% da população tinha o vírus; hoje, apenas 6,5%. A política oficial se baseia em três letras: A (de “abstinência” – para os solteiros); B (“be faithful” – seja fiel, para os casados); e C (de “condom”, a camisinha). Mas o “C”, lá, é o último recurso. Uganda, quem diria?, começa a sair da tragédia apelando à responsabilidade individual. No Brasil, claro, é diferente. Assim como Napoleão III acreditava que os soldados jamais resistiam a salsichas com alho, também somos fatalistas: cremos ser impossível dizer “não” ao sexo. Daí que as campanhas públicas contra a aids enfatizem apenas o uso do preservativo, chamando tudo o mais de moralismo religioso. O programa de combate à doença deixou de ser uma política de estado para ser a ação de grupos militantes organizados em… ONGs!

É claro que a roubalheira dos larápios incomoda e tem de ser combatida – até porque conspurca o trabalho dos honestos. Mas ainda mais preo-cupantes são a atomização e a falta de rumo das políticas públicas – e em escala mundial. Elas dependem hoje dos falsos consensos produzidos pelos grupos militantes. O que teria nascido para oxigenar o establishment com a voz da sociedade civil se tornou uma fatia do poder infensa aos mecanismos de controle e transparência públicos e um modo de impor a toda a sociedade os padrões e a vontade de minorias organizadas. Nos dois casos, trata-se de um modo de fraudar a democracia.

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