IPEA, FAO, IBGE: dados, estatísticas, erros e desinformação

Há alguns meses, o IPEA foi protagonista de uma situação constrangedora: divulgou uma pesquisa sobre estupro que causou uma repercussão imensa. A pesquisa, descobriu-se pouco tempo depois, estava completamente errada. Não se tratou de um ou dois errinhos, não; eram erros tão amplos, crassos e profundos que o melhor a fazer era jogar toda a pesquisa no lixo e fingir que aquilo jamais aconteceu.

Há poucos dias, veio à tona um estudo da FAO (órgão inútil da ONU presidido por um petista) que também estava baseado em dados falsos. Sobre isso, aliás, eis aqui um vídeo curtinho, claro, objetivo e altamente revelador:

Como sempre acontece, esse tipo de notícia vira base para que alguns ignorantes, que não entendem nada de dados e metodologia de pesquisas, soltem suas bobagens:

Hoje tivemos a cereja do bolo: o IBGE divulgou nota oficial e convocou coletiva de imprensa para avisar que os dados da PNAD que haviam sido divulgados ONTEM continham erros tão graves que, após revisados, alterariam sobremaneira grande quantidade das conclusões apresentadas ontem à imprensa.

Esse tipo de ocorrência é grave, séria.

Uma coisa é um(a) candidato(a) dizer coisas diferentes em momentos diferentes – vejamos, por exemplo, Dilma Rousseff, que em 2010 era favorável à autonomia do Banco Central, mas em 2014 está produzindo mentiras sobre o assunto em virtude da posição da Marina Silva:

2014-09-12 13.55.46

Infelizmente, como imensa maioria da população tem memória fraca e pouco conhecimento sobre 90% dos assuntos econômicos, esse tipo de vai-e-vem de opiniões é comum entre candidatos (a qualquer cargo, registre-se).

Outra coisa, completamente diferente, é vermos órgão estatais ESPECIALIZADOS no assunto cometendo barbeiragens como esta do IBGE, do IPEA ou da FAO.

A despeito de achar que 90% das colunas do José Roberto de Toledo (do Estadão) merecem no máximo a lata do lixo, nesta ele acertou (íntegra AQUI):

Não há hora certa para fazer bobagem, mas não poderia ter sido pior o momento para o IBGE errar como errou na divulgação da PNAD 2013. Imediatamente o instituto virou matéria prima para teorias da conspiração eleitorais. “Maquiagem” foi a palavra da hora nas redes sociais. Mas foi só incompetência mesmo.
O ônus de admitir um erro dessa magnitude na reta final da sucessão presidencial é tão grande que só uma “maquiagem” completa para embelezar os indicadores poderia justificá-lo. Não foi o que aconteceu. Vários indicadores ficaram mais feios.
A renda, por exemplo, cresceu só 3,4% de 2012 para 2013 – muito menos do que os 5,1% divulgados na véspera. O analfabetismo caiu menos ainda (0,2 ponto, e não 0,4), a média de anos de estudo da população foi de 7,5 para 7,6 e não para 7,7 como se pensava.
O que não ficou mais bonito tampouco ficou menos feio: a taxa de desemprego nacional cresceu mesmo, de 6,1% em 2012 para 6,5% em 2013. Se fosse para fazer uma cirurgia plástica nos dados, esse teria sido um número a sofrer lipoaspiração.
Um dos poucos indicadores que melhorou foi o da desiguldade medida pelo índice de Gini. Quanto menor, melhor. E o Gini de todas as fontes de renda caiu de 0,505 para 0,501 (antes de o erro ser detectado, tinha ficado igual). E o Gini da renda de todos os trabalhos foi de 0,496 para 0,495 – em vez de 0,498. Ou seja, não virou nenhuma Gisele Bundchen estatística.
Qual foi o erro, então? A PNAD não é uma simples amostra da população brasileira. Ela é uma série de amostras estaduais e regionais que depois são combinadas à amostra nacional. O IBGE faz isso para poder extrapolar os resultados por região metropolitana, por exemplo. É uma prática comum em pesquisas.
Em eleição os institutos fazem isso quando querem pesquisar a intenção de voto nacional para presidente e, ao mesmo tempo, saber como os paulistas vão votar para governador, por exemplo. Amplia-se o tamanho da amostra em São Paulo apenas, para aumentar a confiabilidade dos dados. Mas na hora de calcular a taxa de intenção de voto para presidente em todo o Brasil, faz-se uma regra de três para dar o peso correto à amostra paulista.
Segundo o IBGE, alguém esqueceu de fazer isso com as amostras das regiões metropolitanas de vários Estados. Assim, elas ficaram com um peso desproporcionalmente grande na amostra do Brasil – por isso os dados educacionais pareciam melhores do que eram de fato, já que a escolarização é maior nas metrópoles.
Apesar de tudo, foi importante o IBGE ter admitido o erro e publicado os resultados certos com clareza – comparando-os aos errados, para todo mundo saber onde estavam os problemas. A PNAD é o melhor termômetro do que acontece com o Brasil. Sem saber se há febre ou não, é difícil acertar o diagnóstico e o remédio.
O erro amassou a reputação do IBGE, mas reconhecê-lo de pronto era a coisa certa a fazer. Maquiagem seria tentar escondê-lo.

Claro que surgirão teorias da conspiração e questionamentos sobre a lisura do IBGE. É do jogo.

Ao mesmo tempo, em virtude da postura totalitária do governo (que exige demissão de funcionário do Santander por enviar a seus correntistas uma análise tecnicamente correta e impecável, mas que desagradou à Presidente que se acha a Rainha do Amazonas; ou querer expulsar do país um repórter do New York Times que escreveu uma matéria tecnicamente correta, ainda que fraca, sobre os hábitos de um ex-presidente bebum), é compreensível que surjam dúvidas sobre os motivos que levaram o IBGE a voltar atrás em apenas um dia.

Eis aqui um artigo curtinho do Reinaldo Azevedo sobre o caso:

O IBGE mobiliza uma tropa de técnicos para processar as informações colhidas pela Pnad. Se a rotina não mudou, há todo um processo de conferência de dados. Mais: há procedimentos justamente para capturar eventuais erros antes da divulgação. Fazer de conta que estamos diante de uma narrativa corriqueira corresponde a tapar o sol com a peneira. Não estamos.

Então, depois de uma demora que também não teve a devida explicação, os dados são divulgados, constata-se a estagnação da redução da desigualdade, o tema ganha óbvia tradução política — e nem poderia ser diferente —, e, com rapidez espantosa, corrige-se o “erro” e se obtém o resultado desejado? “Ah, a desigualdade continua em queda”. Que bom, né? A oposição já não poderá mais usar esse argumento.

Estou acusando o IBGE de ceder à pressão oficial? Não exatamente. Se achasse, diria. Mas que devemos estranhar o procedimento, ah, isso devemos, sim.

Reitero: o que me espanta é o fato de checagens periódicas, que fazem parte do método de processamento de dados, não terem identificado, durante meses, um erro tão sério, depois identificado num único dia.

O que se passa no IBGE? Não sei. Nenhuma possibilidade é boa.

Depois disso tudo, o governo incompetente e totalitário do PT anunciou que irá criar comissões para avaliar os erros. Essa gente pitoresca adora “comissões” e “grupos”, né?! Elas jamais conseguem produzir nada, mas são criadas às pencas.

Que o IBGE errou não há dúvida.

A questão é compreender qual a extensão e a gravidade dos erros. Conforme apontou Cristiano Romero, excelente jornalista do Valor Econômico:

Pessoalmente, eu tenho um trabalhão tentando mostrar aos meus alunos o tanto de estatísticas oficiais que se pode obter GRATUITAMENTE junto aos órgãos especializados, e o quanto estas informações são úteis para se fazer um plano de negócios, o plano de marketing, análise da concorrência etc. Eu costumo, sempre que o tempo permite, mostrar a eles sites do próprio IBGE, da Fundação Seade, da FGV-Dados, do IPEA (esse eu abandonei, porque o Pochmann destruiu o coitado) etc, e como eles podem usar os dados de forma prática.

Não é trabalho fácil.

O site do IBGE, por exemplo, tem a SIDRA, um banco de dados gigantesco mas bastante difícil de ser usado por quem não tem alguma experiência com bancos de dados e estatísticas nacionais. Mas eu tento mostrar-lhes alguns “truques”.

E fatos como esse que aconteceu hoje acabam minando a credibilidade de órgãos sérios, aonde trabalham pessoas extremamente sérias e competentes. Estas pessoas, entretanto, acabam prejudicadas por chefias preenchidas com indicações políticas ou então pressões vindas de governos pouco afeitos à democracia.

Lastimável.

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