Ruth Cardoso – entrevista

Eis a entrevista concedida pela Dra. Ruth Cardoso à Revista Veja de Maio de 2004:

Veja – O presidente Lula foi criticado por dar à primeira-dama, Marisa Letícia, uma sala no Palácio do Planalto, embora ela não tenha função no governo. O que a senhora acha disso?
Ruth – O problema não é a sala. É a conduta. Ela está fazendo algum jogo que não deveria? Até agora eu não soube de nenhuma interferência. A primeira-dama não foi eleita, não recebe salário, não é parte do processo político. Apesar disso, tem um papel importante, com alguma influência. Umas têm mais, outras menos.

Veja – Por que a senhora não gostava de ser chamada de primeira-dama?
Ruth – Acho um americanismo desnecessário. Isso começou nos Estados Unidos e agora está virando moda até na França. Mas não faz parte da nossa tradição. Ninguém nunca se lembrou de chamar de primeira-dama dona Sarah Kubitschek, que ocupou espaço num governo com grande visibilidade. Lá nos Estados Unidos, tem um significado tradicional. Aqui, não. Mas, como o termo já foi introduzido, agora não adianta reclamar.

Veja – A atual primeira-dama costuma acompanhar o presidente num grande número de eventos públicos. No plano simbólico, qual é a importância disso?
Ruth – Deve haver alguma. Mas eu sempre tive mania de trabalhar. Sempre tive muita coisa para fazer. Tinha todas as minhas atividades, que me tomavam muito tempo. Precisava viajar para avaliar as ações do Comunidade Solidária. Estive presente em todas as situações em que se supunha que a presença da primeira-dama fosse importante. Mas isso tudo diminuiu muito no mundo. No início, durante as reuniões presidenciais, todas as mulheres acompanhavam o marido. Com o passar do tempo, isso mudou. O fato é que há uma diferença de estilo. Não se pode comparar Danielle Mitterrand, que tinha uma ONG na qual criticava o governo do próprio marido, com madame Chirac, que no início não tinha muita participação política, mas depois chegou a disputar uma eleição.

Veja – A vida longe do poder é menos emocionante?
Ruth – Voltamos a ter a vida que sempre tivemos. Vou ao supermercado, freqüento restaurantes, concertos, teatros. Faço tudo o que fazia antes. A idéia de que vivíamos num mundo mágico não é verdadeira. É muito agradável voltar a ter mais liberdade e privacidade. Mas eu não gosto quando se faz um corte assim. Parece que saímos do Olimpo e voltamos para o mundo real. O presidente da República não é um rei. Brasília faz parte do mundo, sim. Quando chegamos ao Palácio, sabíamos que um dia sairíamos de lá. Há um mito sobre esse assunto. Até porque o Alvorada possui uma ala privada. Tínhamos uma vida em família. Não jantávamos no salão de banquete quando estávamos apenas os dois.

Veja – Não é complicado viver em um palácio?
Ruth – É muito simples. Está tudo ordenado. Há quem organize as cerimônias, você sabe onde tem de ficar, o que precisa fazer. É verdade que às vezes é um pouco repetitivo. Mas tivemos a oportunidade de conhecer pessoas muito interessantes.

Veja – Fernando Henrique já disse, em tom de brincadeira, que sente falta apenas da piscina do Palácio da Alvorada. A senhora sente saudade de quê?
Ruth – Sabe que ele continua repetindo isso? Eu também gostava da piscina, mas não é nada que me faça falta no dia-a-dia.

Veja – A senhora, que sempre foi muito ciosa da privacidade pessoal e familiar, não acha natural que haja curiosidade popular sobre a vida dos governantes?
Ruth – Não. Essa esfera não interfere na vida pública. Defendo arduamente a distinção entre a esfera pública e a esfera privada. Lutei durante todo o tempo em que nós estivemos nessa posição pública para que se preservasse a vida privada. No Brasil, respeita-se pouquíssimo isso. A diferença entre nós e os americanos é que eles, ao elegerem um governante, acreditam piamente que estão escolhendo também o homem, o cidadão, o pai de família. Isso faz parte da mitologia americana. O Brasil não é assim. Quando uma coisa é grave, ela acaba se tornando pública naturalmente.

Veja – Em parte pelo discurso do PT, em parte pela biografia do presidente Lula, imaginava-se que a área social seria o ponto alto do atual governo, mas não é isso que vem ocorrendo. O que aconteceu?
Ruth – A pergunta deveria ser respondida pelos petistas. Foram eles que criaram uma expectativa e ainda não encontraram uma maneira de devolvê-la aos brasileiros.

Veja – Mas qual é o principal obstáculo?
Ruth – Existem algumas premissas quando se fala em política social. A primeira é parceria. Isso precisa ocorrer em todos os níveis. Com o governo, com a sociedade civil, com as universidades. A concepção do PT é estatista. Nela, o Estado tem de fazer todas as coisas. Eu já acreditei nisso no passado. No mundo contemporâneo, no entanto, a coisa não funciona assim. A visão estatista dificulta muito. Temos um arsenal de gente que conhece, que vivenciou, que tem experiências novas que precisam ser aproveitadas. A sociedade brasileira não é amorfa nem apática, como se costuma descrever. Nem o Brasil tem um número tão grande de pobres que os impeça de ser mobilizados. Minha experiência mostra que sempre que abrimos qualquer possibilidade, no lugarejo mais afastado, as pessoas respondem. O governo não pode fechar os olhos para essa realidade.

Veja – Quando o presidente Lula convoca os brasileiros a acabar com a fome, ele não está propondo justamente isso?
Ruth – O caminho é esse. A mobilização existe. A resposta é positiva. A questão é se o governo está criando parcerias. Se está aproveitando os recursos humanos que aí estão. Ou se está agindo como um grande mobilizador de uma idéia, não de um fazer. Recolher dinheiro e produtos não é parceria. Parceria é a definição de um objetivo comum. Não existe parceria sem descentralização. Está faltando combinar isso. Hoje, falta um diálogo no qual os parceiros tenham igual possibilidade de interferência. Falta avaliação, falta prestação de contas, faltam objetivos comuns. Não pode existir fórmula pronta. Políticas assistencialistas não têm diminuído a pobreza.

Veja – A política social de Lula é assistencialista?
Ruth – O Fome Zero, que foi o que apareceu no começo do governo, era extremamente assistencialista. Distribuir alimentos não sustenta o desenvolvimento de ninguém. Mas depois houve algumas mudanças. Não tenho informações detalhadas para avaliar. Aliás, acho que faltam informações para todos os brasileiros. Informações sobre como essas ações estão se desenvolvendo. Hoje, não tenho como avaliar, embora ache que deveria ter. Até porque é preciso avaliar os programas enquanto eles estão sendo desenvolvidos. Não adianta, no fim de um programa, dizer se ele foi ruim ou bom.

Veja – Existe um problema de gestão na área social do governo ou houve apenas uma expectativa exagerada por se tratar de um governo do PT?
Ruth – A expectativa não pode ser usada para explicar tudo. Agora, até a economia se aproximou da psicologia. Tudo na economia agora virou questão de expectativa. Veja que, com relação à política econômica, havia uma expectativa negativa em relação ao PT. Mas os petistas tiveram a visão necessária para perceber que o Brasil não pode viver isolado. Por isso, ainda que tivessem um discurso diferente, mantiveram o rumo adotado no governo passado. No caso das políticas sociais, talvez eles ainda estejam reexaminando a questão, adaptando-se à realidade. Não é fácil governar. O PT já aprendeu bastante e ainda está aprendendo muito. Eu gostaria de uma definição mais clara sobre a maneira de fazer as coisas. Há pessoas muito preparadas no PT, mas há problemas.

Veja – Que problemas?
Ruth – Eles estão partidarizando demais a máquina pública. Isso é criticável. É muito grave. É claro que o partido precisa dar o rumo do governo. Mas na Europa, por exemplo, a burocracia pública é muito enraizada. E muito consciente de seus deveres. Há um controle para que as pessoas possam saber se ela age com o rigor e a independência necessários. Isso é fundamental para o desenvolvimento democrático de um país. No Brasil, porém, o PT partidarizou a burocracia além do limite.

Veja – Na última década, sobretudo durante o governo de Fernando Henrique, passou-se a gastar mais com os pobres e surgiu uma grande variedade de programas descentralizados. Mas nada disso reduziu a desigualdade. Por quê?
Ruth – A desigualdade está aumentando no mundo todo. No Brasil, já era imensa, inaceitável. Precisamos reduzi-la, não há dúvida. Mas essa meta não pode ser alcançada rapidamente. Até porque, se existe uma herança maldita, é a desigualdade de cinco séculos. Não podemos medir isso de um ano para o outro. A melhor maneira de combater a desigualdade é a educação. Mas para aumentar a escolaridade média da população brasileira, que é imensa, leva-se dez anos.

Veja – Com os dois mandatos de seu marido, a senhora está entre as primeiras-damas mais longevas do país. Qual o papel de uma primeira-dama?
Ruth – Primeira-dama é um ser humano, não é uma Barbie. Não podemos ter um modelito que sirva para todo mundo. Assim como não existe modelo para presidente, não pode existir modelo para primeira-dama. Cada uma desenvolve o trabalho para o qual se sente mais apta.

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Veja – Uma primeira-dama desfruta uma posição privilegiada para influir em decisões do presidente da República, não?
Ruth – Eu não tinha poder algum. Não fui eleita para nada, como qualquer primeira-dama. Tinha apenas uma posição privilegiada para conseguir apoios e firmar parcerias na área social. Sempre me mantive totalmente afastada do governo. Nunca participei de reunião com ministro nem com ninguém da área governamental. Aliás, há exemplos de crises conjugais muito sérias por causa disso. Basta lembrar o ex-presidente da Argentina Carlos Menem e o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori, cujas mulheres, em algum momento, tentaram interferir politicamente. Aí dá problema.

Veja – A senhora discutia sobre o governo com seu marido?
Ruth – Muito pouco. Tínhamos tão pouco tempo juntos que esse não era o nosso tema preferido. Ele me contava sobre suas dificuldades e idéias, mas eu nunca tive interferência no governo. Quando havia coisas que eu sabia, porque tinha estudado, dava minhas opiniões. Mas governar não é levar em conta a opinião da mulher nem a do assessor. As avaliações e as escolhas são muito mais complexas. É por isso que governar é tão difícil.

Veja – O que a senhora acha da possibilidade de seu marido se candidatar ao Palácio do Planalto em 2006?
Ruth – É um problema dele, mas acredito na resposta que ele vem dando quando é perguntado sobre o assunto. Primeiro, que essas coisas não são definidas de antemão. Depois, que ele acha que já deu sua contribuição e que agora é a vez de outras pessoas. Um dos grandes problemas do país é a dificuldade de criar novas lideranças. Isso acontece em todos os partidos. O fato de um ex-presidente dar uma opinião já o transforma em candidato. Tudo vira um jogo eleitoral.

Veja – A senhora já pensou em disputar uma eleição?
Ruth – Não. Estou contente com o que já fiz. Sempre participei ativamente, com posições claras. O que eu sei fazer melhor é fazer as coisas acontecerem.

Veja – É uma crítica aos políticos?
Ruth – Não. Só acho que não estou apta a fazer política partidária, assim como os políticos não estão aptos a fazer o que eu faço.

Não é impressionante perceber que um dia o Brasil já teve gente inteligente morando no Palácio do Planalto ?! Faz tanto tempo…

Ruth Cardoso

Ainda estou inconformado com a morte de Ruth Cardoso.Inexplicavelmente, diga-se…..

Sempre a admirei por sua discrição, inteligência, postura séria etc. Contudo, jamais a conheci (vi uma palestra dela, mas a uma considerável distância), exceto ao ler artigos e entrevistas dela. Mas ainda assim, tinha profunda admiração.

Alguns textos publicados após sua morte, entretanto, merecem a leitura. Talvez eles ajudem a explicar aquilo que eu mesmo não consigo….

ELIANE CANTANHÊDE

Ruth Cardoso

BRASÍLIA – Há alguns anos, ainda no primeiro mandato de FHC, o então ministro José Serra me descreveu a antropóloga Ruth Cardoso como “uma mulher admirável, com uma inteligência superior”.
Poder-se-ia descontar a antiga amizade de Serra com o casal Cardoso, consolidada nos anos de exílio no Chile, não fossem os elogios a Ruth uma constante entre todos os que conviviam com mais ou com menos intensidade com ela.
Com sua morte, personagens como Pedro Malan, Paulo Renato e Clóvis Carvalho desfilaram adjetivos para enaltecer a mulher inteligente, culta e discreta. Mas não foi a oportunidade, foi o que eles disseram sempre, na Presidência de FHC e depois. Com a concordância de muita gente, do DEM ao PT.
Ruth Cardoso detestava o título de primeira-dama e não gostava de jornalistas. Nos oito anos de mandato, eu poderia contar nos dedos as vezes em que a vi pessoalmente, e só falei com ela, diretamente, uma vez -sobre questões de gênero.
Ao entrevistar FHC no antigo apartamento dele da rua Maranhão, encontrei um ambiente acolhedor, sóbrio, com cadeiras confortáveis e objetos colhidos de viagens a diferentes regiões do mundo. Um típico apartamento de professores universitários com boa vivência no exterior, sem luxos desnecessários, sem traços de novo-riquismo. Ruth não estava, mas a casa era a cara dela.
Com a elegância que só as pessoas discretas têm, Ruth Cardoso também era profundamente orgulhosa da sua independência, sobretudo intelectual, de um marido tão esfuziante e com tanto poder. Jamais se ouviu dizer de sua interferência num programa de governo, numa decisão do Planalto, num movimento político do presidente.
O poder corrompe e deforma, mas Ruth Cardoso entrou e saiu dele com a mesma cara, o mesmo trajar, a mesma discrição e o mesmo respeito por ela própria. Como disse Serra, uma mulher admirável.

CLÓVIS ROSSI

Ruth e a “soberania”

SÃO PAULO – O melhor resumo-homenagem a Ruth Cardoso está na carta da dramaturga Consuelo de Castro, publicada pelo “Painel do Leitor”. Fala das aulas de antropologia e política dessa notável intelectual e fala, “sobretudo, do seu jeito soberano de encarar a vida”. A própria Ruth reforçou esse “jeito soberano” de ser em uma frase que a Folha pinçou como uma espécie de legenda para a foto dela.
Dizia: “Se tiver idéia diferente, eu expresso. Não tenho a mesma posição política só por ser casada”. Num país em que há, ainda, o primitivo raciocínio que faz da mulher mera extensão do homem (ou vice-versa, em tempos mais modernos), é todo um manifesto de soberania. Dupla soberania: a de pensar com a própria cabeça e a de não ajustar convicções a conveniências.
No plano micro, ultramicro, coube-me testemunhar uma cena explícita de “soberania”. No início do governo Fernando Henrique Cardoso, em 1995, ele, a mulher e a comitiva de praxe fizeram visita oficial à Bélgica, que incluiu palestra no Colégio da Europa, em Bruges. Foi a primeira cidade, quando era Estado independente, a adotar a renda mínima, no remoto século 16 (exatamente 1526).
O casal visitou um museu, como procurava fazer sempre que possível. Pararam ante um quadro que mostrava um camponês recebendo um pão. FHC comentou: “Olha aí a renda mínima”. Ruth, com seu jeitão despachado, fulminou: “Que renda mínima, isso é assistencialismo puro”. O presidente calou-se, e a visita seguiu.
Passaram-se 13 anos, dois mandatos de FHC e um e meio de Lula, talvez os dois governantes de mais sensibilidade social entre todos os presidentes, tanto que construíram um embrião de rede de proteção social.
Dói, no entanto, que Ruth Cardoso não tenha sobrevivido para ver quebrado o assistencialismo.

Teorias complexas, explicações simples

O texto abaixo foi publicado no Valor Econômico, e trata da assimetria de informações.
Um texto claro, interessantíssimo, que vale a leitura.

O artigo serve como uma excelente introdução a conceitos como “competitividade”, “Teoria dos Jogos” e outras tantas – mas faz isso de uma forma extremamente clara e simples.

Peço ao leitor que, depois de ler, reflita sobre a assimetria das informações. Uma empresa precisaria de uma estratégia competitiva se todos num determinado mercado tivessem acesso às mesmas informações? Concorrentes, clientes, funcionários etc…?

Leia, e reflita:

Carro usado, o taxista e a crise

Por Bernardo Guimarães e Carlos Eduardo Soares Gonçalves, para o Valor
20/06/2008

Lembro-me de minha animação de menino quando meu pai anunciava que ia trocar de carro. O processo de compra de outro carro era para mim empolgante em si: ir às feiras de carros usados, entrar em vários modelos, dar palpite ao meu pai, acompanhá-lo nos testes de direção, etc. Hoje, mais interessante para mim é a semelhança entre os empecilhos ao funcionamento do mercado de automóveis usados e as causas da crise financeira nos Estados Unidos. Ambos tem a ver com o que os economistas chamam de problemas de assimetria de informação.

O problema com o funcionamento do mercado de carros usados não é a qualidade dos carros em si, mas sim o fato de o dono conhecê-la bem melhor do que os potenciais compradores. Dentro do contingente de carros usados existem aqueles bem conservados e outros em mau estado, a depender do cuidado prévio do dono, entre outras coisas. No entanto, é muito difícil para o comprador separar o joio do trigo. Seu pior pesadelo é descobrir apenas três meses mais tarde que o automóvel adquirido estava com a caixa de marchas comprometida!

Mesmo não sabendo separar gato de lebre, o fato de o comprador saber que existem carros bons e carros ruins influencia o montante que ele está disposto a desembolsar na feira de carros usados. Exemplificando com números: se um carro bom para ele vale até R$ 20 mil e um ruim no máximo R$ 5 mil, e há 50% de chance de o carro ser bom, ele não pagará mais do que R$ 12.500 (R$ 20.000 x 0,5 + R$ 5.000 x 0,5) para trocar de automóvel. Infelizmente, a R$ 12.500 um vendedor que tem um carro bom em mãos (e sabe disso) muito provavelmente não vai querer fechar negócio. Assim, na feira sobram apenas os carros ruins.

De sua parte, os compradores entendem perfeitamente essa lógica e, portanto, ou vão embora (os que fazem questão de comprar um carro bom), ou desembolsam R$ 5 mil por um carro que eles sabem ser ruim. Resumo da ópera: não é possível comprar e vender carros bons na feira de carros usados!

O problema informacional caracterizado no exemplo precedente recebe o nome de seleção adversa. Ele ocorre quando antes de a transação ser concretizada, uma das partes possui mais informação do que a outra.

Vejamos outro caso interessante de seleção adversa. Em Nova York o táxi é um meio de transporte muito utilizado. Em Nova York há negros e brancos. Em Nova York, por diversas razões históricas, alguns taxistas nutrem algum grau de preconceito contra os negros. O que é incrível é que, por causa do preconceito inicial de alguns taxistas, mesmo se o porcentual de negros assaltantes na população de NY for igual ao de brancos assaltantes, haverá desproporcionalmente mais negros assaltantes em busca de táxis. Isso, por sua vez, explica por que mesmo um motorista não intrinsecamente racista optará racionalmente por não pegar clientes negros. Vejamos por quê.

O problema é similar ao dos carros usados: o motorista não sabe distinguir ladrão de trabalhador de dentro do carro – antes de a transação ocorrer, quem espera o táxi sabe mais sobre si mesmo do que o taxista. Mas, se a proporção de assaltantes for idêntica dentro dos dois grupos étnicos, o motorista não racista não tem motivos para evitar clientes negros, certo? Errado. Se há um grupo de taxistas preconceituosos, os negros em média esperam mais tempo para conseguir um táxi. Para os negros trabalhadores, isso significa um custo de tempo relevante, levando-os a optar pelo metrô. Resulta que o preconceito inicial que acarreta um custo de espera para o negro trabalhador altera a proporção “negros assaltantes/negros trabalhadores” à espera de um táxi (acontece uma seleção adversa), elevando-a comparativamente à do grupo de brancos. Conseqüentemente, haverá mesmo mais negros assaltantes demandando táxis e em vista disso um taxista não racista racionalmente evitará clientes negros.

No exemplo dos carros usados, a assimetria informacional entre comprador e devedor faz que os carros bons sejam expulsos do mercado pelos ruins. No dos taxistas, assimetria informacional combinada com alguma dose de preconceito inicial faz que os negros trabalhadores sejam substituídos pelos negros assaltantes na fila do táxi.

Outro tipo de assimetria informacional muito estudada pelos economistas – chamada de perigo moral – é aquela que se dá não antes, mas depois de a transação ser efetuada. Concretamente, ela é grave quando uma das partes não consegue monitorar facilmente as ações da outra uma vez celebrado o acordo ou negócio e essas ações afetam de modo significativo o ganho da parte menos informada. O exemplo mais tradicional de perigo moral diz respeito aos contratos de seguro. Depois de assinado o contrato de seguro de um automóvel, os incentivos do dono do carro para dirigir mais prudentemente ou para estacionar no estacionamento fechado, em vez de na rua, diminuem.

Essa mudança de comportamento afeta adversamente o lucro da seguradora, mas é difícil evitá-la, dado que para a seguradora é impossível monitorar de perto o modo de dirigir do segurado e cobrar de acordo com isso (esta é assimetria informacional em questão). Agora o leitor já sabe o motivo da existência da franquia: reduzir os incentivos à displicência do segurado depois de feito o seguro.

Conhecendo os conceitos de seleção adversa e perigo moral, podemos enfim entender a anatomia da crise do subprime, que tem causado muita preocupação nos mercados mundiais. Depois da breve recessão de 2001-2002, o Banco Central dos EUA manteve a taxa de juro em níveis muito baixos por muito tempo visando a restabelecer um crescimento maior e fugir da deflação.

Nesse cenário, muitas instituições financeiras, tendo acesso a recursos a taxas mais baixas – e enfrentando dificuldades de prover taxas de retorno mais gordas a seus depositantes -, optaram por estender empréstimos imobiliários a grupos que antes não tinham acesso a esses créditos. Em conseqüência, piorou a qualidade média da carteira de empréstimos (seleção adversa). Semelhantemente ao caso dos carros usados e dos negros esperando táxi, quando algumas instituições financeiras relaxaram seus padrões de concessão de empréstimos, a qualidade média do devedor piorou. Aí, quando os juros voltaram a subir, uma parte desses tomadores com menor fôlego financeiro não conseguiu honrar suas prestações. A taxa de inadimplência cresceu fortemente – principalmente entre os que se haviam endividado a taxas variáveis – e deu no que deu.

Complicando mais a situação dos bancos, os preços dos imóveis começaram a cair, em parte por causa da alta do juro. Como os imóveis são a garantia dos bancos caso os empréstimos não sejam honrados, a situação se deteriorou mais ainda, dado que não apenas os que não conseguiram repagar entregaram às instituições financeiras garantias (imóveis) com baixo valor de mercado como alguns devedores optaram por estrategicamente inadimplir: melhor entregar um imóvel que vale pouco do que pagar uma dívida mais “salgada” depois da alta do juro.

Isso tudo nos remete à seguinte questão: por que algumas instituições financeiras aumentaram tanto sua exposição em empréstimos para grupos com menor capacidade de repagamento? Em parte pelo dito algumas linhas acima (menor custo de captação), em parte porque o dinheiro que elas emprestam é de terceiros, o que aumenta sua propensão a arriscar.

Nasce justamente aí a justificativa para a regulação bancária e não é à toa que depois da crise do subprime foi retomado o debate sobre a adequação das atuais regras da Basiléia. Mas por que a necessidade de regulamentação pública? Por que os depositantes não monitoram eles mesmos as ações das instituições financeiras? Em parte porque eles não têm as mesmas informações que elas e é custoso adquiri-las e em parte porque o sentimento de que as autoridades governamentais não deixarão as instituições financeiras quebrar caso uma crise ocorra (e há bons motivos para isso, dado o custo enorme das crises bancárias) diminui seus incentivos para monitorar de perto a qualidade dos empréstimos.

No arranjo ideal, o governo garantiria ao depositante que este recuperaria seu dinheiro no caso de uma crise bancária (esse tipo de seguro ajuda muito a impedir que esse tipo de crise ocorra) com a condição de que ele monitorasse de perto as ações da instituição financeira que administra sua poupança. Contudo, similarmente ao segurador de carros, o governo não tem como saber se os depositantes estão ou não vigiando as ações da instituição depois da efetivação do seguro-depósito. Por causa disso, o controle dos indivíduos sobre as instituições financeiras será necessariamente precário se houver alguma expectativa de socorro com dinheiro público caso o pior se materialize.

É por isso que se faz necessária a regulamentação pública no setor financeiro. De fato, a ausência de regulamentação no caso dos Fundos Imobiliários americanos é recorrentemente apontada como fator importante na explicação da crise.

Concluindo, as questões de assimetria informacional estão presentes em diversos contextos socioeconômicos. É no mínimo curioso que o “racismo” de não racistas, as dificuldades nos mercados de carros usados e a crise do subprime tenham tanto em comum.

Carlos Eduardo Soares Gonçalves, professor da FEA/USP, e Bernardo Guimarães, professor da London School of Economics, são autores de “Economia sem Truques” (Campus/Elsevier) e escrevem neste espaço na terceira sexta-feira do mês

OTG: Organizações Totalmente Governamentais

No Brasil, fala-se muito das “ONGs”, as Organizações não-governamentais.

Infelizmente, na prática, o que se tem visto são ORGANIZAÇÕES TOTALMENTE GOVERNAMENTAIS, uma vez que elas dependem TOTALMENTE do governo para subsidiá-las.

Dona Manuela andou tecendo comentários aqui no blog (aqui), mas parece ter jogado a toalha quando viu-se sem argumentos.

A única conclusão da Dona Manuela foi esta: “Mas qdo eu pedi pra vc desenhar era só pra ter certeza de qual argumento vc lançaria mão: claro, simplista, claro, a-histórico, claro, de um homem, claro, de um branco, claro, que nunca passou por situações que por exemplo as mulheres que marcharam em agosto do ano passado passam“.

Vou deixar de lado o português da Dona Manuela, pois imagino que ela seja da ONG AOLPI (“Abaixo à Opressão da Língua Portuguesa Imperialista”).

Ela praticamente traçou um perfil meu (ao menos aquele que ela IMAGINA ser o meu perfil), mas esqueceu de ARGUMENTAR. Preferiu tergiversar – como, de resto, todo e qualquer PTralha que siga o Manual do PT faz – e achou mais conveniente partir para questões de caráter pessoal, concluindo que eu sou homem, branco (o que isso tem a ver com a questão, aliás ?! Me parece ser apenas racismo por parte da Dona Manuela…. Imaginem se eu dissesse que ela é negra, e, portanto, seus argumentos são ruins – isto seria crime, não ?! Bom, ela fez rigorosamente o mesmo, no sentido inverso !!!!) e que nunca passei por “situações” que ela decerto conhece por ler na Caros Amigos ou qualquer publicação rasteira congênere.

Brilhante, Dona Manuela !

Eis aqui, então, o artigo (publicado na Revista Veja de 18/06/2008, Edição 2065) que eu citei na minha resposta à energúmena, tratando (muito bem) da questão das ONGs brasileiras (que são, em verdade, OTGs):

As ONGs do fim do mundo

Reinaldo Azevedo

Não faz três meses, morreríamos todos assados no fogo do inferno de nossas ambições. Quem é esse sujeito determinado, porém oculto? Nós, os “seres humanos”. Procurem na Bíblia ou na internet o Apocalipse de São João. As previsões sobre os males que advirão do aquecimento global foram copiadas de lá. Se ele não era um bom cientista, não há cientista que o supere em matéria de fim do mundo. O tema deixou de ser prioridade nestes dias. Agora, vamos morrer de fome. Um certo “sistema” – sim, o capitalismo –, que faria derreter o planeta, ameaça deixar a Terra esfaimando. Diacho de modelo esse que vive dando tiro no próprio pé! Será que era isso que os comunistas queriam dizer quando afirmavam que o capitalismo trazia em si a semente de sua própria destruição?

Quem propaga essas verdades eternas? As organizações não-governamentais (ONGs) – incluindo a maior delas: a Organização das Nações Unidas. Outro dia alguém me disse que até me considerava um cara bacana e tal – se acha isso mesmo, não me interessa; a mentira cujo propósito é a gentileza é decorosa. Mas ele não entendia como alguém lido podia acreditar na Santíssima Trindade. Nem eu! Até hoje, prosseguiu meu interlocutor, ele não compreendia essa história do “Três em Um”: Pai, Filho e Espírito Santo. Não cabe o pormenor, mas admito que há coisas que são matéria de fé, o que todo racionalista decente sabe. Concluí que é mais fácil um homem instruído acreditar no fim do mundo – ou na redenção – antevisto pelos “cientistas” do que na vida eterna anunciada por Deus…

À medida que as escatologias científicas vão se tornando influentes, números começam a pulular. Há um fascinante: indica que, no mundo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos. Louvo a precisão do humanismo matemático. E indago: e se assim foi, por exemplo, nos últimos quinze anos? A China, sozinha, tirou, nesse período, 400 milhões de pessoas da pobreza. A fé não precisa fazer conta. A ciência, sim. Quinze anos correspondem a 5.475 dias, cada um com 86.400 segundos – logo, falamos de 473.040.000 segundos. Como a China tirou, nesse tempo, 400 milhões de pessoas da pobreza, isso significa que 0,846 indivíduo por segundo deixou essa condição. E olhem que ignorei a Índia e o Brasil.

O tal “sistema perverso”, que mataria de fome uma criança a cada cinco segundos, tira da miséria um indivíduo por segundo. O saldo é bem positivo. É por isso que a população do planeta cresce de forma assustadora. E o fantástico desempenho da China e da Índia nada deve à militância ongueira: é uma conquista da economia de mercado, que quer destruir o planeta. Sempre que alguém vem me falar sobre o fim dos tempos, pergunto: “Você tem aí alguma previsão para a semana que vem?”. Em matéria de apocalipse, fico com o de São João.

O Brasil, que se defendia da acusação de ser um dos agentes do aquecimento por causa das queimadas, ofereceu ao mundo o etanol e, agora, é suspeito, de forma infundada, de produzir álcool em vez de grãos. O presidente Lula está experimentando quão difícil é lutar contra uma “doxa” – uma falsa verdade, porém influente. Em solo pátrio, o dono da “doxa”, em aliança com o onguismo, sempre foi o PT. Lembram-se dos ditos “movimentos sociais” que ajudaram a criar o partido? Todos se converteram em ONGs e Oscips (organizações da sociedade civil de interesse público).

Estima-se entre 250.000 e 275.000 o número dessas entidades no país, 100 000 das quais atuando na Amazônia. Há 700.000 índios no Brasil, talvez uns 600.000 naquela região. Se todas cuidassem dos nossos bons selvagens, teríamos seis índios para cada ONG: daria para fornecer casa, comida, roupa lavada e pós-doutorado. Mas algumas, sei, cuidam de outros assuntos: o minhocuçu, o sapo-gigante, a aranha-armadeira, os bagres… Você só escapará de ser sufocado pelo amor de uma ONG se for o verdadeiro negro do mundo: bípede, branco, macho, heterossexual e católico. Fora disso, basta erguer a mão ou aprender a guinchar, e aparecerá uma multidão para protegê-lo.

As entidades mais influentes contam com farto financiamento internacional, a exemplo da CIR (Conselho Indígena de Roraima), que lidera a luta para expulsar os “não-índios” de Raposa Serra do Sol. A Fundação Ford é muito generosa com esses patriotas: doou-lhes 300.000 dólares no ano passado. Já o Geledés – Instituto da Mulher Negra – foi agraciado, entre 2004 e 2008, com 1,1 milhão de dólares. As informações estão no site da fundação. Nada contra a doação. Mas quem gerencia a entrada de dinheiro em entidades que acabam passando como porta-vozes de supostos clamores públicos? Ninguém! Fosse apenas o dinheiro de fora a inundar o caixa dos filantropos, vá lá. Mas as ONGs e Oscips se tornaram instrumentos da terceirização do governo – e da sangria dos cofres públicos. Os números são formidáveis: entre 1999 e 2007, saíram do Orçamento da União para as ONGs 36,12 bilhões de reais – com correção monetária, a cifra passa de 50 bilhões de reais. Só no ano passado, receberam o capilé oficial 7.670 entidades.

Centrais sindicais, sindicatos de empregados e de patrões, sindicalistas, jornalistas, artistas, políticos, as mulheres, maridos e ex-cônjuges de toda essa gente, empresas, igrejas, movimentos sociais, partidos… Todos têm a sua entidade não-governamental para reivindicar – e levar – grana do governo. Só a gente tem jabuticaba. Só a gente tem uma pororoca verdadeiramente amazônica. Só a gente tem índio que compra facão em supermercado em nome das tradições dos ancestrais. E só a gente tem as ONGGs: organizações não-governamentais… governamentais! Não sei se estão lembrados, mas até o governo chegou a ter a sua: o programa Fome Zero.

Em escala mundial e local, as ONGs passaram a ser as donas da pauta e das políticas públicas. E ai de quem ousar contrariar a doxa! Cito um caso emblemático. O Brasil é exemplo no tratamento da aids, mas sua política preventiva está centrada apenas no uso da camisinha. A contaminação voltou a crescer. Pobre daquele que ousar sugerir que abstinência sexual e fidelidade – além do preservativo – são úteis no combate à doença. Será acusado de estar misturando religião com ciência e acabará com a reputação na fogueira, enquanto os racionalistas recitam mantras cartesianos.

Na África, continente em que a doença é um flagelo, lembrou em seu blog o jornalista Fábio Zanini, Uganda é um caso notável de sucesso no combate à doença. Há quinze anos, cerca de 30% da população tinha o vírus; hoje, apenas 6,5%. A política oficial se baseia em três letras: A (de “abstinência” – para os solteiros); B (“be faithful” – seja fiel, para os casados); e C (de “condom”, a camisinha). Mas o “C”, lá, é o último recurso. Uganda, quem diria?, começa a sair da tragédia apelando à responsabilidade individual. No Brasil, claro, é diferente. Assim como Napoleão III acreditava que os soldados jamais resistiam a salsichas com alho, também somos fatalistas: cremos ser impossível dizer “não” ao sexo. Daí que as campanhas públicas contra a aids enfatizem apenas o uso do preservativo, chamando tudo o mais de moralismo religioso. O programa de combate à doença deixou de ser uma política de estado para ser a ação de grupos militantes organizados em… ONGs!

É claro que a roubalheira dos larápios incomoda e tem de ser combatida – até porque conspurca o trabalho dos honestos. Mas ainda mais preo-cupantes são a atomização e a falta de rumo das políticas públicas – e em escala mundial. Elas dependem hoje dos falsos consensos produzidos pelos grupos militantes. O que teria nascido para oxigenar o establishment com a voz da sociedade civil se tornou uma fatia do poder infensa aos mecanismos de controle e transparência públicos e um modo de impor a toda a sociedade os padrões e a vontade de minorias organizadas. Nos dois casos, trata-se de um modo de fraudar a democracia.

LUTO

Lamentável a morte de dona Ruth Cardoso.

Uma mulher que jamais “reduziu-se” a ser APENAS primeira-dama – muito pelo contrário: era muito mais do que isso.

Diferente de outras imbecis que acham que primeira-dama é a mesma coisa que um vaso, meramente decorativo, dona Ruth Cardoso deu outra dimensão ao cargo. Pena que foi “substituída” no cargo por uma mentecapta inútil, fútil e decorativa.

Ontem fiquei estranhamente chateado ao saber do seu falecimento…. Assisti a uma palestra de dona Ruth, quando ainda era primeira-dama.

Fiquei impressionado.

Uma mulher discreta, que preferia impôr-se pelas suas idéias, pela inteligência, ao invés de preocupar-se com vestidos, maquiagem, botox etc. Uma presença física discreta, conquanto marcante.

Diferentemente das marilenas chauís que existem pelo mundo, dona Ruth Cardoso era uma intelectual que EFETIVAMENTE tinha inteligência, e sabia usá-la.

Uma perda para o Brasil.

Abaixo-assinado contra a CPMF

A Rádio Eldorado está fazendo um abaixo-assinado eletrônico contra a CSS (nova CPMF).

Se você também não concorda com a cobrança deste imposto, acesse o link abaixo e adicione o seu nome à lista! Leva um minuto só!

http://www.radioeldorado.com.br/am/campanha_css/assinaturas.asp

Ousada ou asquerosa ?

A cretina ex-preFESTA MarTAXA Suplício deu uma entrevista – engraçadíssima se não fosse lastimável – à Veja SP da semana passada.

Alguns trechos:

Veja São Paulo – A senhora acha que tem uma imagem de arrogante?
Marta – Às vezes desconfio que sim. Algumas pessoas, depois de me conhecer, contam que me imaginavam muito diferente. Quando tento entender, vejo que era por me acharem arrogante. Mulher é assim: se é gentil e doce, classificam de incompetente. Se é firme e forte, chamam de arrogante. Se tem poder, então, vira insuportável. E você não pode exercer o poder se não for firme. É uma imagem que nós, mulheres, vamos ter de conquistar e mudar. As grandes líderes do século passado, como Golda Meir, Indira Gandhi e Margaret Thatcher, eram todas mulheres travestidas de homens. A geração do século XXI não quer isso. Políticas como Ségolène Royal, Cristina Kirchner e Michelle Bachelet são muito femininas. A Angela Merkel até pôs um decote ousado outro dia. Fui uma desbravadora, primeiro no programa
TV Mulher, depois no exercício da política, pagando todos os preços nas duas experiências.

[…]

Veja São Paulo – Qual foi o melhor prefeito que São Paulo já teve?
Marta – Em termos de pensar a cidade, Prestes Maia e Faria Lima. No que diz respeito à inclusão social, nossa gestão foi muito importante.

[…]

Veja São Paulo – Por que a senhora acha que tem melhores condições de administrar São Paulo do que o prefeito Gilberto Kassab e o ex-governador Geraldo Alckmin?
Marta – Pelo perfil. São Paulo é moderna, nervosa, agitada. Precisa de alguém ousado, criativo e inovador. Se for ver o que o Alckmin fez como governador, não daria para aplicar nenhum desses adjetivos à sua gestão. O Kassab continuou, de forma muito modesta, o que eu havia iniciado. Não consigo lembrar de nenhuma ação inovadora e criativa que ele tenha tomado para solucionar os problemas vitais da cidade.

Veja São Paulo – Nem mesmo a Lei Cidade Limpa?
Marta – É um projeto importante, que foi iniciado em nossa gestão com a Operação Belezura. Kassab teve o mérito de implementar e dar uma dimensão para a cidade toda. Foi um bom projeto. Mas não vi nenhuma grande obra que não tenha sido iniciada no meu governo. A Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira, que é uma obra muito linda, foi licitada por nós. Fizemos também a fundação e os pilares. A gestão Serra-Kassab limitou-se a dizer que era uma obra faustosa e cara. Interrompeu a construção, que só foi retomada quando as empreiteiras entraram na Justiça. Tínhamos pouco dinheiro e fizemos muito. Eles têm muitos recursos e fizeram muito pouco.

Deixando de lado as bobagens e mentiras que esta tresloucada fala (como comparar a Lei Cidade Limpa àquele factóide ridículo do “Belezura”, no qual a infeliz investiu 2 finais de semana, logo no início do mandato), o mais engraçado foi ler as respostas de alguns leitores da revista, na edição desta semana:

Como Marta, eu também sou do signo de Peixes (“‘Sou ousada, criativa e inovadora’”, 11 de junho). Portanto, choro muito. Agora mais ainda, só de pensar na possibilidade de tê-la como prefeita outra vez.
Maria Luiza Rosito

Gostaria de saber se ser ousada é destruir uma avenida importante para o comércio, como a Cidade Jardim, para construir um túnel inútil. Ou se ser criativa é, em um momento de caos aéreo, querer posar de moderninha e cunhar a frase “relaxa e goza”. Inovadora no quê?
Celia Pinheiro

Qualquer mulher pode ser gentil, doce, firme, forte e poderosa sem precisar ser incompetente, arrogante e insuportável. Humildade, dona Marta!
Alexandre Nogueira

Lamentável a entrevista com a ex-prefeita de São Paulo. Ela teve quatro anos para reinar na cidade e não cumpriu nada do prometido. Estamos à mercê de ter de volta as escolas de lata, os corredores com ônibus sucateados, novas taxas e seu mau humor.
Donny Silva

Na próxima edição de Veja São Paulo, fico à disposição para figurar em uma capa com o título: “Por que não quero que Marta Suplicy volte a ser prefeita”.
David Faiguenboim

A ex-prefeita reconheceu a sua incompetência quando disse que cometeu erros de verdade em sua gestão, como a tributação. Nós, eleitores, perguntamos: caso seja eleita novamente, quem garante que não prejudicará a classe média mais uma vez?
Sergio Ricardo de Souza

Quando deparei com a foto de Marta Suplicy na última capa, pensei: ‘Veja São Paulo só pode estar de brincadeira’. Aí vi que se tratava da primeira de uma série de entrevistas com os possíveis candidatos a prefeito. Então relaxei e vi que não era gozação.
Osvaldo Zorzeto Júnior

Mais Gamecorp

O texto abaixo foi publicado pela Folha de 19/02/2008.

Irritando José Dirceu

EDUARDO GRAEFF

NA FAMOSA reportagem sobre a nova carreira de consultor de empresas de José Dirceu, a revista “Piauí” conta que ele “não guarda ressentimentos de Lula” depois que saiu do governo e perdeu o mandato de deputado. Mas “também se lembrou de situações em que sentiu “pouca interlocução” com o presidente. Uma delas foi quando chegou à imprensa a notícia de que a Telemar injetara R$ 5,2 milhões na Gamecorp -empresa de joguinhos de computador cujo dono é Fábio Luiz da Silva, filho de Lula. Ele recordou uma reportagem na qual Lulinha inventara frases suas e contava que estivera em reuniões das quais nunca participou…

“Para o Lulinha, não importa a verdade”, prosseguiu […] “Ele quer melhorar a história, ele fabula” […] Na ocasião, Dirceu disse ter procurado o presidente, que respondeu: “Você vai ficar enchendo meu saco por causa do Lulinha, Zé Dirceu?'”.
Resumi esse trecho da reportagem num artigo que publiquei aqui em 24 de janeiro (“Vão-se os sonhos, ficam os anéis”). Se Lula perdeu as estribeiras com Dirceu, conjeturei, mais irritado ficará ao ser questionado por beneficiar a empresa que beneficiou seu filho, se, como anunciam, mudar a lei para chancelar a compra da Brasil Telecom pela Telemar.

Passado mesmo ficou Dirceu com meu artigo. Numa réplica publicada aqui em 13 de fevereiro (“Os sonhos estão mais vivos do que nunca”), chamou-me de mentiroso, por me valer de um relato desmentido por ele, e de hipócrita, por criticar seu envolvimento e o de Lula em negócios privados, esquecendo os crimes supostamente praticados pelo governo FHC.
Ante o rebuliço causado por suas declarações à “Piauí”, Dirceu fez desmentido curioso. Não deu o dito pelo não-dito, mas alegou erro de pessoa.

O Lulinha a que se referiu não seria o filho do presidente, mas o jornalista Luís Costa Pinto, que teria “publicado reportagem com declarações minhas, fabricadas, sem ter me ouvido”.

Não levei isso em conta por uma razão: a revista desmentiu o desmentido e reafirmou o teor da reportagem. “Os fatos publicados pela revista correspondem ao que foi relatado pelo ex-ministro à reportagem. No contexto em que foram mencionados, não poderia haver espaço para ambigüidades.” De fato, não dá para entender a súbita aparição de Costa Pinto no meio de um depoimento sobre a relação de Dirceu com Lula.

No artigo na Folha, Dirceu repetiu o desmentido numa versão ligeiramente alterada -e mais capenga. “Erroneamente é associada ao filho do presidente da República […] crítica minha a um jornalista por conta do acompanhamento estapafúrdio que fazia sobre o governo em seu trabalho jornalístico.”

Acontece que Luís Costa Pinto não trabalha em jornais e revistas desde 2002. Abriu uma empresa de consultoria de comunicação, por meio da qual, aliás, prestou serviços ao então presidente da Câmara, João Paulo Cunha, do PT, em 2003 e 2004. O que e onde ele teria escrito sobre o governo Lula para merecer a paulada que Dirceu diz que quis lhe dar nas páginas de “Piauí”? Estapafúrdia parece a história da troca de Lulinhas.

A bronca de Lula, a desconversa de Dirceu têm graça, mas pouco importam. Ruim para o Brasil é o retrocesso que eles estão trazendo às relações governo-empresas, com sua versão requentada dos “anéis burocráticos” da ditadura. A política e a economia do lulo-petismo andam parelhas nessa marcha a ré. As duas desencavam do baú da história, para apresentá-las como grandes novidades, velhas práticas do Estado patrimonial luso-brasileiro e de seu capitalismo politicamente orientado. Primeiro escolhem-se a dedo os parceiros e compõem-se os interesses privados.

Depois o poder público (?) aplica sobre o negócio feito o selo da legalidade. Costumes puídos, sim. Mas cheios das lantejoulas ideológicas da “moral socialista”, da “soberania nacional”, da “libertação popular”. Ah, e tudo para desmontar a suposta herança maldita de FHC. Não pode haver cinismo maior do que invocar essa desculpa no setor de telecomunicações.

Graças às privatizações bem-feitas e à regulação bem concebida e implantada, o Brasil de Lula herdou serviços de telefonia em expansão acelerada, com competição saudável e tecnologicamente atualizados para apoiar a entrada na era da internet.
Preparem o bolso, porque Lula, Dirceu e companhia vêm aí para nos salvar dessa maldição. Sem perguntar aos usuários da telefonia e da internet se precisam ser salvos. Mas de ouvidos e coração muito abertos ao canto de sereia monopolista dos amigos empresários.

EDUARDO GRAEFF , 58, é cientista político. Foi secretário-geral da Presidência da República no governo FHC.

Tucano ou não tucano, não importa.

Os fatos estão aí: uma empresa COMPROU o direito de modificar a Lei para seu benefício.

Para tanto, usou o Presidente da República.

Alguma dúvida de que isso é crime ???

Benesses do poder

Começo pelo artigo do Clóvis Rossi, publicado na Folha de 14/06. Comento depois.

Era uma vez, num país chamado Brasil, duas empresas que decidem fundir-se. O negócio é contra a lei. O mortal comum, desavisado, imagina que as negociações se deram em algum aparelho clandestino, longe das vistas de todos. Nada. A negociação foi publicamente anunciada, com nomes e números envolvidos. Então, o desavisado mortal comum imaginará que as autoridades reagiram e caíram matando em cima do negócio ilegal, certo?

Errado de novo.

As autoridades caíram matando em cima da lei que proibia a fusão. Resolveram modificá-la para tornar legal a posteriori o que era ilegal no berço. Uma completa e espantosa revisão da norma jurídica, pela qual se diz que ninguém pode ser punido se não há lei que determine a punição, lei que naturalmente tem que anteceder o crime.
No caso, o crime antecede a lei. Como se faz a modificação da lei?
Também na clandestinidade, claro, imaginará o tolo do mortal comum.

Errado de novo.

O governo chegou até a pensar -e publicamente- em desempatar um suposto empate na votação do organismo que deveria dar o parecer decisivo sobre a mudança da lei por meio da nomeação de um conselheiro que fosse favorável à ela. Algo como pedir, nos requisitos para a contratação de um funcionário, que ele fosse contra a lei.

Impensável, certo? Errado de novo.
Perfeitamente “pensável” se o país se chama Brasil. Até nem foi necessário contratar um “desempatador”, porque os dois conselheiros que eram tidos como contra a fusão ilegal mudaram de posição da noite para o dia e votaram a favor.

Com isso, prepara-se uma nova lei que é a versão da democracia para a Lei Fleury da ditadura. Ou seja, tem nome, CNPJ e endereço dos destinatários.

Pelo menos contra a Lei Fleury, mesmo na ditadura, houve algum choro e ranger de dentes.

Então a coisa é simples: as empresas envolvidas (Oi e BrasilTelecom) na fusão planejaram tudo ANTES de mudar a lei (PGO). Estavam confiantes na mudança da lei……. Será que isso tem alguma relação com o fato de que a Oi (quando se chamava Telemar) deu mais de R$ 5 milhões para o filho do Presidente da República ?

Detalhe: o contrato entre a Gamecorp (do filho do Lulla) e a Rede Bandeirantes está sendo encerrado, pois não atingiu os resultados esperados:

Inicialmente prevista para durar dez anos, a parceria entre o Grupo Bandeirantes e a PlayTV acaba em julho, com apenas dois anos e dois meses. Insatisfeita com os resultados do negócio, a Band decidiu não renovar o contrato com a PlayTV e voltará, em agosto, a investir na Rede 21, marca que antes ocupava o canal 21 (UHF) da Grande São Paulo.

A PlayTV pertence à Gamecorp, empresa que tem entre seus sócios a operadora de telefonia Oi (ex-Telemar) e Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula. Originalmente, a Gamecorp era produtora de games e conteúdos para celular.

Em 2006, quando a Band fechou acordo com a Gamecorp, havia a expectativa de que a PlayTV se tornaria um bom negócio com a convergência entre games e TV digital, algo que ainda não ocorreu. A Folha apurou que a parceria foi desfeita, em reunião no início desta semana, porque a PlayTV não alavancou a audiência nem as receitas do canal 21.

A PlayTV aumentaria gradativamente seu espaço na grade do canal 21, mas, com sua programação jovem, não conseguiu ultrapassar a faixa das 17h às 23h30 _o restante é ocupado por igrejas e empresas.

A assessoria de imprensa da PlayTV nega o rompimento do contrato com a Band e atribui a informação a “vice-presidentes [do Grupo Bandeirantes] que não gostam do canal”. A Band não comentou o assunto.

Então, pela ótica administrativa, o investimento foi um fiasco.

Mais uma prova de que a injeção de capital foi corrupção – a céu aberto.

A Telemar COMPROU a simpatia do Presidente da República, que pressionou a Anatel (que deveria ser uma agência reguladora INDEPENDENTE) para mudar a lei e, assim, atender aos interesses da empresa que pagou R$ 5 milhões ao filho do Presidente da república.

Alguém imagina o que teria feito o PT, caso esta situação tivesse ocorrido quando o Presidente da República em questão fosse Fernando Collor ou FHC ????????????

Como o Presidente das república agora é do PT, foda-se todo o resto: o importante é enriquecer.

Seja de forma direta, seja de forma indireta – com um investimento absurdo numa empresa ridícula, só para fazer o dinheiro chegar à família do Presidente.

Isso é Brasil.