Ruth Cardoso – entrevista

Eis a entrevista concedida pela Dra. Ruth Cardoso à Revista Veja de Maio de 2004:

Veja – O presidente Lula foi criticado por dar à primeira-dama, Marisa Letícia, uma sala no Palácio do Planalto, embora ela não tenha função no governo. O que a senhora acha disso?
Ruth – O problema não é a sala. É a conduta. Ela está fazendo algum jogo que não deveria? Até agora eu não soube de nenhuma interferência. A primeira-dama não foi eleita, não recebe salário, não é parte do processo político. Apesar disso, tem um papel importante, com alguma influência. Umas têm mais, outras menos.

Veja – Por que a senhora não gostava de ser chamada de primeira-dama?
Ruth – Acho um americanismo desnecessário. Isso começou nos Estados Unidos e agora está virando moda até na França. Mas não faz parte da nossa tradição. Ninguém nunca se lembrou de chamar de primeira-dama dona Sarah Kubitschek, que ocupou espaço num governo com grande visibilidade. Lá nos Estados Unidos, tem um significado tradicional. Aqui, não. Mas, como o termo já foi introduzido, agora não adianta reclamar.

Veja – A atual primeira-dama costuma acompanhar o presidente num grande número de eventos públicos. No plano simbólico, qual é a importância disso?
Ruth – Deve haver alguma. Mas eu sempre tive mania de trabalhar. Sempre tive muita coisa para fazer. Tinha todas as minhas atividades, que me tomavam muito tempo. Precisava viajar para avaliar as ações do Comunidade Solidária. Estive presente em todas as situações em que se supunha que a presença da primeira-dama fosse importante. Mas isso tudo diminuiu muito no mundo. No início, durante as reuniões presidenciais, todas as mulheres acompanhavam o marido. Com o passar do tempo, isso mudou. O fato é que há uma diferença de estilo. Não se pode comparar Danielle Mitterrand, que tinha uma ONG na qual criticava o governo do próprio marido, com madame Chirac, que no início não tinha muita participação política, mas depois chegou a disputar uma eleição.

Veja – A vida longe do poder é menos emocionante?
Ruth – Voltamos a ter a vida que sempre tivemos. Vou ao supermercado, freqüento restaurantes, concertos, teatros. Faço tudo o que fazia antes. A idéia de que vivíamos num mundo mágico não é verdadeira. É muito agradável voltar a ter mais liberdade e privacidade. Mas eu não gosto quando se faz um corte assim. Parece que saímos do Olimpo e voltamos para o mundo real. O presidente da República não é um rei. Brasília faz parte do mundo, sim. Quando chegamos ao Palácio, sabíamos que um dia sairíamos de lá. Há um mito sobre esse assunto. Até porque o Alvorada possui uma ala privada. Tínhamos uma vida em família. Não jantávamos no salão de banquete quando estávamos apenas os dois.

Veja – Não é complicado viver em um palácio?
Ruth – É muito simples. Está tudo ordenado. Há quem organize as cerimônias, você sabe onde tem de ficar, o que precisa fazer. É verdade que às vezes é um pouco repetitivo. Mas tivemos a oportunidade de conhecer pessoas muito interessantes.

Veja – Fernando Henrique já disse, em tom de brincadeira, que sente falta apenas da piscina do Palácio da Alvorada. A senhora sente saudade de quê?
Ruth – Sabe que ele continua repetindo isso? Eu também gostava da piscina, mas não é nada que me faça falta no dia-a-dia.

Veja – A senhora, que sempre foi muito ciosa da privacidade pessoal e familiar, não acha natural que haja curiosidade popular sobre a vida dos governantes?
Ruth – Não. Essa esfera não interfere na vida pública. Defendo arduamente a distinção entre a esfera pública e a esfera privada. Lutei durante todo o tempo em que nós estivemos nessa posição pública para que se preservasse a vida privada. No Brasil, respeita-se pouquíssimo isso. A diferença entre nós e os americanos é que eles, ao elegerem um governante, acreditam piamente que estão escolhendo também o homem, o cidadão, o pai de família. Isso faz parte da mitologia americana. O Brasil não é assim. Quando uma coisa é grave, ela acaba se tornando pública naturalmente.

Veja – Em parte pelo discurso do PT, em parte pela biografia do presidente Lula, imaginava-se que a área social seria o ponto alto do atual governo, mas não é isso que vem ocorrendo. O que aconteceu?
Ruth – A pergunta deveria ser respondida pelos petistas. Foram eles que criaram uma expectativa e ainda não encontraram uma maneira de devolvê-la aos brasileiros.

Veja – Mas qual é o principal obstáculo?
Ruth – Existem algumas premissas quando se fala em política social. A primeira é parceria. Isso precisa ocorrer em todos os níveis. Com o governo, com a sociedade civil, com as universidades. A concepção do PT é estatista. Nela, o Estado tem de fazer todas as coisas. Eu já acreditei nisso no passado. No mundo contemporâneo, no entanto, a coisa não funciona assim. A visão estatista dificulta muito. Temos um arsenal de gente que conhece, que vivenciou, que tem experiências novas que precisam ser aproveitadas. A sociedade brasileira não é amorfa nem apática, como se costuma descrever. Nem o Brasil tem um número tão grande de pobres que os impeça de ser mobilizados. Minha experiência mostra que sempre que abrimos qualquer possibilidade, no lugarejo mais afastado, as pessoas respondem. O governo não pode fechar os olhos para essa realidade.

Veja – Quando o presidente Lula convoca os brasileiros a acabar com a fome, ele não está propondo justamente isso?
Ruth – O caminho é esse. A mobilização existe. A resposta é positiva. A questão é se o governo está criando parcerias. Se está aproveitando os recursos humanos que aí estão. Ou se está agindo como um grande mobilizador de uma idéia, não de um fazer. Recolher dinheiro e produtos não é parceria. Parceria é a definição de um objetivo comum. Não existe parceria sem descentralização. Está faltando combinar isso. Hoje, falta um diálogo no qual os parceiros tenham igual possibilidade de interferência. Falta avaliação, falta prestação de contas, faltam objetivos comuns. Não pode existir fórmula pronta. Políticas assistencialistas não têm diminuído a pobreza.

Veja – A política social de Lula é assistencialista?
Ruth – O Fome Zero, que foi o que apareceu no começo do governo, era extremamente assistencialista. Distribuir alimentos não sustenta o desenvolvimento de ninguém. Mas depois houve algumas mudanças. Não tenho informações detalhadas para avaliar. Aliás, acho que faltam informações para todos os brasileiros. Informações sobre como essas ações estão se desenvolvendo. Hoje, não tenho como avaliar, embora ache que deveria ter. Até porque é preciso avaliar os programas enquanto eles estão sendo desenvolvidos. Não adianta, no fim de um programa, dizer se ele foi ruim ou bom.

Veja – Existe um problema de gestão na área social do governo ou houve apenas uma expectativa exagerada por se tratar de um governo do PT?
Ruth – A expectativa não pode ser usada para explicar tudo. Agora, até a economia se aproximou da psicologia. Tudo na economia agora virou questão de expectativa. Veja que, com relação à política econômica, havia uma expectativa negativa em relação ao PT. Mas os petistas tiveram a visão necessária para perceber que o Brasil não pode viver isolado. Por isso, ainda que tivessem um discurso diferente, mantiveram o rumo adotado no governo passado. No caso das políticas sociais, talvez eles ainda estejam reexaminando a questão, adaptando-se à realidade. Não é fácil governar. O PT já aprendeu bastante e ainda está aprendendo muito. Eu gostaria de uma definição mais clara sobre a maneira de fazer as coisas. Há pessoas muito preparadas no PT, mas há problemas.

Veja – Que problemas?
Ruth – Eles estão partidarizando demais a máquina pública. Isso é criticável. É muito grave. É claro que o partido precisa dar o rumo do governo. Mas na Europa, por exemplo, a burocracia pública é muito enraizada. E muito consciente de seus deveres. Há um controle para que as pessoas possam saber se ela age com o rigor e a independência necessários. Isso é fundamental para o desenvolvimento democrático de um país. No Brasil, porém, o PT partidarizou a burocracia além do limite.

Veja – Na última década, sobretudo durante o governo de Fernando Henrique, passou-se a gastar mais com os pobres e surgiu uma grande variedade de programas descentralizados. Mas nada disso reduziu a desigualdade. Por quê?
Ruth – A desigualdade está aumentando no mundo todo. No Brasil, já era imensa, inaceitável. Precisamos reduzi-la, não há dúvida. Mas essa meta não pode ser alcançada rapidamente. Até porque, se existe uma herança maldita, é a desigualdade de cinco séculos. Não podemos medir isso de um ano para o outro. A melhor maneira de combater a desigualdade é a educação. Mas para aumentar a escolaridade média da população brasileira, que é imensa, leva-se dez anos.

Veja – Com os dois mandatos de seu marido, a senhora está entre as primeiras-damas mais longevas do país. Qual o papel de uma primeira-dama?
Ruth – Primeira-dama é um ser humano, não é uma Barbie. Não podemos ter um modelito que sirva para todo mundo. Assim como não existe modelo para presidente, não pode existir modelo para primeira-dama. Cada uma desenvolve o trabalho para o qual se sente mais apta.

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Veja – Uma primeira-dama desfruta uma posição privilegiada para influir em decisões do presidente da República, não?
Ruth – Eu não tinha poder algum. Não fui eleita para nada, como qualquer primeira-dama. Tinha apenas uma posição privilegiada para conseguir apoios e firmar parcerias na área social. Sempre me mantive totalmente afastada do governo. Nunca participei de reunião com ministro nem com ninguém da área governamental. Aliás, há exemplos de crises conjugais muito sérias por causa disso. Basta lembrar o ex-presidente da Argentina Carlos Menem e o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori, cujas mulheres, em algum momento, tentaram interferir politicamente. Aí dá problema.

Veja – A senhora discutia sobre o governo com seu marido?
Ruth – Muito pouco. Tínhamos tão pouco tempo juntos que esse não era o nosso tema preferido. Ele me contava sobre suas dificuldades e idéias, mas eu nunca tive interferência no governo. Quando havia coisas que eu sabia, porque tinha estudado, dava minhas opiniões. Mas governar não é levar em conta a opinião da mulher nem a do assessor. As avaliações e as escolhas são muito mais complexas. É por isso que governar é tão difícil.

Veja – O que a senhora acha da possibilidade de seu marido se candidatar ao Palácio do Planalto em 2006?
Ruth – É um problema dele, mas acredito na resposta que ele vem dando quando é perguntado sobre o assunto. Primeiro, que essas coisas não são definidas de antemão. Depois, que ele acha que já deu sua contribuição e que agora é a vez de outras pessoas. Um dos grandes problemas do país é a dificuldade de criar novas lideranças. Isso acontece em todos os partidos. O fato de um ex-presidente dar uma opinião já o transforma em candidato. Tudo vira um jogo eleitoral.

Veja – A senhora já pensou em disputar uma eleição?
Ruth – Não. Estou contente com o que já fiz. Sempre participei ativamente, com posições claras. O que eu sei fazer melhor é fazer as coisas acontecerem.

Veja – É uma crítica aos políticos?
Ruth – Não. Só acho que não estou apta a fazer política partidária, assim como os políticos não estão aptos a fazer o que eu faço.

Não é impressionante perceber que um dia o Brasil já teve gente inteligente morando no Palácio do Planalto ?! Faz tanto tempo…

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