PRIVATARIA PTralha

O artigo abaixo, de Janio de Freitas (publicado na Folha em 24/11/08) é irretocável.

Trata de mais um dos absurdos da Mulla:

ASSINADO por Lula o decreto que altera as regras do sistema de telefonia, para permitir que a Oi/Telemar compre a Brasil Telecom e, exceto pequena área, tenha o monopólio da telefonia fixa no Brasil, por um instante preciso levar esta coluna de volta no tempo.

Véspera da posse de Lula em seu primeiro mandato, em 31 de dezembro de 2002, assim conclui o texto “Lula, uma pessoa”, depois de narrar dois incidentes em que me fez acusação política injustificada e uma grosseria sem causa:
“Não apesar disso, mas também por isso, como por tudo o que soube a seu respeito, dou testemunho de que Lula tem sido uma pessoa de caráter provado e comprovado. Que assim seja o presidente”.

O uso de “tem sido”, e não de “é”, refletiu três razões. Já passei pelo suficiente para ter uma pequena idéia da natureza humana em sua relação ambiciosa com as diferentes formas de poder; Lula entrava no teste de sua vida, e nada me habilitava, nem me habilita, a avalizar o futuro opaco; e, ainda, protegia-me de situações decorrentes de ultrapassar, se o fizesse, os limites factuais do que entendo como jornalismo.

Por sorte, nesse caso a experiência colaborou. O voto final daquele texto não se cumpriu. Nem mesmo com precaução redobrada, superei o sentimento de que nunca poderia escrever, sobre o Lula desde seus primeiros atos de presidente, o que escrevera sobre o Lula anterior pelo que dele soubera. O sentimento passou a convicção.

O favorecimento à Oi/Telemar e à Brasil Telecom é uma transação mais inescrupulosa do que todas de que possa lembrar. É fácil admitir que as empresas e seus controladores estejam adequados aos modos, meios e fins legítimos nos domínios do grande capital, onde são expoentes. Nem mesmo a participação decisiva de diferentes partes do governo poderia surpreender. Mas a transação não dependeu disso.

Quando cheguei ao jornalismo, sem a mais remota idéia de que ficaria, certo dia alguém me contou uma história que valeu para sempre desde ali. Era relativa à alteração que “o ínclito presidente Dutra”, exemplo definitivo de moralidade e fidelidade ao “livrinho” da Constituição, fez na legislação de heranças. Ampliou o alcance de parentes não-imediatos à herança, na falta de parentes próximos. Tudo fora urdido na diretoria do “Diário Carioca”, informada de que no interior de São Paulo uma bela fortuna vagava à falta de herdeiros habilitados.

Uma trama de cartórios e certidões gerou um parentesco enviesado, enquanto era obtida a concordância da Presidência para a alteração da lei. A fortuna encontrou um destino: foi rateada na fraternidade entre dirigentes do jornal e integrantes do governo. Quando a ouvi, pude comprovar que alguns traços da história já figuravam em certo livro de direito como o “caso Cantinho”, do nome do morto sem herdeiros. Mas tudo foi feito e mantido na surdina.

Na armação do negócio Oi/Telemar-Brasil Telecom-governo Lula, até o mínimo escrúpulo das urdiduras encobertas ou disfarçadas ficou como coisa do passado. Há mais de meio ano, está escancarada a participação do próprio Lula, com o assegurado decreto de alteração das regras impeditivas do negócio. E, depois, com a necessária nomeação, para neutralizar duas discordâncias na Agência Nacional de Telecomunicações, de dois favoráveis ao negócio. Um deles, dirigente de uma das empresas da transação. Sem esquecer os R$ 8 a 10 bilhões com que, por ordem de Lula também divulgada à vontade, o BNDES e o Banco do Brasil vão ajudar a compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar.

Co-artífices da operação, o embaixador Ronaldo Sardenberg, presidente da Anatel, e Hélio Costa, ministro das Comunicações, que foi contra o negócio começado às suas costas e, por obra de algum dos milagres comuns nessas transações, de repente tornou-se entusiasta na linha de frente.

Engulo, mas não posso digerir, o voto inútil que fiz a Lula.

Em tempo: a revista Época Negócios está promovendo uma entrevista com o presidente da Oi, da qual internautas podem participar através de e-mail. Os detalhes estão AQUI.

Eu enviei a seguinte pergunta, por e-mail:

Recentemente, a fusão entre a Oi e a BrasilTelecom foi anunciada – mesmo sendo, até o presente momento, um negócio ILEGAL.
O senhor acha que as empresas brasileiras somente poderão se manter competitivas se desrespeitarem as leis vigentes no Brasil ?
O senhor imagina que uma situação semelhante seria viável num país sério, como França, Alemanha ou Espanha, aonde as empresas que descumprem a legislação vigente sofrem punições severas ?

Será que haverá alguma resposta ??????

2 comentários sobre “PRIVATARIA PTralha

  1. Bruno Kazuhiro 25 de novembro de 2008 / 7:30 AM

    Olá,

    Venho por meio deste comentário agradecer sua indicação, para seus leitores, do blog Perspectiva Política.

    Meu nome é Bruno Kazuhiro e sou o blogueiro responsável pelo Perspectiva.

    Registro aqui o meu muito obrigado pelo incentivo e o convido a participar das discussões que são fomentadas por meu blog e ocorrem nos comentários das postagens do mesmo.

    Suponho que você conheça o intuito do Perspectiva Política de conscientizar e informar, buscando uma prática política mais ética e uma juventude mais engajada.

    Mais uma vez agradeço,

    Bruno Kazuhiro
    http://perspectivapolitica.wordpress.com

  2. green card 4 de dezembro de 2008 / 4:07 AM

    Há alguma informação sobre este assunto em outras línguas?

Comentários

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