Marx e o Capitalismo

Leitura interessante: texto publicado na Folha do último dia 09/02 (aqui).

Marx e o capitalismo

Mesmo que cada um pense e aja de maneira diferente dos outros, o capitalismo prospera

MARX CONTA, em nota de pé de página de “O Capital”, que, certa vez, uma gazeta teuto-americana criticou o materialismo da sua famosa tese, segundo a qual a estrutura econômica da sociedade é a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política, à qual correspondem determinadas formas de consciência social. Para os editores da gazeta, tudo isso certamente estava correto para o mundo contemporâneo, onde dominava o interesse material, mas não para a Idade Média, em que dominava o catolicismo, nem para Atenas ou Roma, onde dominava a política. A resposta de Marx foi que “a Idade Média não podia viver do catolicismo, nem o mundo antigo, da política. Ao contrário, a forma e o modo pelos quais ganhavam a vida é que explica por que ali a política e aqui o catolicismo desempenhavam o papel principal”.

Ninguém ignora a importância do catolicismo para o feudalismo, que era o modo de produção dominante na Idade Média. Como diz o historiador Jacques Le Goff, em “O Deus da Idade Média” (ed. Civilização Brasileira), publicado no Brasil no ano passado, “no mundo feudal, nada de importante se passa sem que seja relacionado a Deus. Deus é ao mesmo tempo o ponto mais alto e o fiador desse sistema. É o senhor dos senhores. […] O regime feudal e a Igreja eram de tal forma ligados que não era possível destruir um sem pelo menos abalar o outro”.

Como se sabe, o regime feudal era o modo de produção dominante na Europa, antes do capitalismo. Curiosamente, se pensarmos agora no modo de produção que pretendia superar o capitalismo, que era o socialismo (que, segundo os marxistas-leninistas, era a primeira etapa, de transição, para o comunismo), veremos que, onde ele tentou existir realmente, como na União Soviética, nos países do Leste Europeu etc., o papel da ideologia marxista-leninista não era menor do que o da religião católica havia sido durante a era do feudalismo.
É verdade que, no socialismo, a política também teve um papel importantíssimo, não menor do que o que tivera no mundo antigo; mas, de qualquer modo, a história mostrou que aquilo que Le Goff diz da articulação entre o feudalismo e a Igreja -que eram de tal forma ligados que não seria possível destruir um sem pelo menos abalar o outro- pode ser dito da articulação entre o socialismo real e o partido marxista-leninista. Assim, por exemplo, dado que, no socialismo, as atividades econômicas não seriam mais realizadas tendo em vista a subsistência ou o lucro, era necessário que o partido -como diz uma enciclopédia publicada pelo Instituto Bibliográfico da extinta República Democrática Alemã- orientasse a criação da “unidade moral e política do povo”, de modo que o trabalho se transformasse, “de mero meio de subsistência a um assunto de honra”.

Em semelhante regime, a intolerância em relação a heresias -ideologias alternativas, “desvios”, “revisionismos” etc.- não é meramente acidental. A repressão a elas não se reduz -como se poderia supor- a um mero estratagema político, usado por determinado partido ou comitê central, ou líder (como não pensar em Stalin?) para racionalizar a prática de perseguir e eliminar os dissidentes. Ela provém da necessidade estrutural de manter a unidade ideológica indispensável para o funcionamento da própria base econômica.

Já o capitalismo funciona independentemente das idéias, concepções, religiões, atitudes, isto é, das ideologias, dos operários, capitalistas, técnicos, administradores ou consumidores que o fazem funcionar. Ainda que cada indivíduo pense e aja de uma maneira diferente de todos os outros, o capitalismo é capaz de prosperar, desde que seja observado de modo geral um mínimo de leis e regras formais de convivência. É exatamente por isso que ele é compatível com a maximização da liberdade individual, a sociedade aberta e o reformismo.

Os editores da gazeta teuto-americana perceberam de modo invertido a situação real. É o feudalismo (e, como vimos, também o socialismo) que necessita, para o seu funcionamento, de uma ideologia particular, correspondente à sua base econômica, e que, por isso, não é capaz de tolerar ideologias alternativas. O capitalismo, porém, exatamente porque a sua base econômica opera a partir do puro interesse material, independentemente de qualquer ideologia particular, não necessita de nenhuma ideologia específica, de modo que é capaz de tolerar todas, inclusive as que lhe foram ou são hostis, como o catolicismo ou o marxismo-leninismo.

ANTONIO CICERO

Não é o costume do blog simplesmente reproduzir um texto na íntegra, sem mais nem menos. Porém, este vale a pena. Ótima leitura !

3 comentários sobre “Marx e o Capitalismo

  1. joão yamamoto 15 de abril de 2008 / 21:46

    senhor,
    sua argumentação me parece um tanto estranha. talvez seja o caso de revê-la para que consiga defender de forma mais efetiva os seus pontos de vista..

  2. Carlos Munhoz 16 de abril de 2008 / 08:26

    João,
    A qual argumentação você se refere ?
    A primeira diz “Leitura interessante: texto publicado na Folha do último dia 09/02”. Me pareceu clara…… Afirmei que trata-se de um texto interessante, e que este texto interessante foi publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia nove de fevereiro.

    A segunda diz “Não é o costume do blog simplesmente reproduzir um texto na íntegra, sem mais nem menos. Porém, este vale a pena. Ótima leitura !”.
    Meu argumento foi: não é costume do blog reproduzir textos integralmente, sem comentários correlatos. Contudo, em virtude do interesse intrínseco deste texto (que, como foi explicado na primeira “argumentação”, considero interessante), considerei que valia a pena a publicação integral.

    Pronto, foram estes os meus 2 “argumentos”.
    Os demais, como fica bastante nítido, são de autoria de Antonio Cícero, e foram publicados na Folha de São Paulo.

    Ficou claro agora ??????????????
    Posso tentar desenhar a explicação, se necessário for.

Comentários

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