Liberação de verbas: antes e depois

Ainda na onda de “retrospectivas”, desenterrei uma dos meus e-mails sobre o PT. Aqui, temos:

1) Carta do ex-Ministro da Fazenda, Pedro Malan (publicada no Estadão), questionando uma acusação a ele imputada pelo então candidato Lulla.

2) Reportagem da Folha On-Line de 11/10/2006 que mostra o comportamento do candidato (então à reeleição) Lulla.

A oposição das duas “visões” mostra que o discurso da oposição e a ação da situação………..às vezes beiram o paradoxo da antítese.

Prezado Lula, ou recordar é viver

Prezado Lula foi o título de carta pública que dirigi ao então candidato em abril de 2002 e reproduzida a seguir (não na íntegra, por razão de espaço), dadas as tentativas de esquecer o passado recente e distorcer o passado já mais distante.

‘Lamento incomodá-lo. É bem provável que você considere o que me leva a escrever como um assunto menor na ordem maior das coisas ou das suas legítimas preocupações com seu futuro político. O problema é que o assunto não é menor para mim. Porque tem a ver com minha honra, com meu nome, legado maior que deixarei a meus filhos. Algo que vou defender até o fim de meus dias. Espero que você entenda por quê…

Em longa entrevista publicada pelo Correio Braziliense em agosto de 2001, você se referiu à minha pessoa nos seguintes termos: ‘… o ministro Pedro Malan… parece que tem uma chave sagrada dos cofres públicos, guarda o dinheiro só para ele… e em época de eleição libera dinheiro para obras de amigos…’

Bem sei que no mundo da política as pessoas, por vezes, se deixam levar pela emoção e pela paixão e que nem sempre medem com cuidado o uso e o significado de suas palavras, principalmente quando atacam pessoalmente supostos adversários políticos. Com muito boa vontade, talvez a sua entrevista pudesse ser lida, como sugeriu uma grande admiradora sua, como uma simples metáfora, destituída de maior significado, própria do calor da hora. Infelizmente, como fui acusado diretamente, não foi assim que a interpretei.

A entrevista ocupou duas páginas inteiras do jornal. É uma entrevista importante e merece ser lida por petistas e não-petistas, pelo que revela sobre você e suas idéias. O jornal a apresentou como a primeira grande entrevista em que você assumiu, publicamente, a sua quarta candidatura à Presidência…

… em meados de novembro de 2001, antes de se encerrar o prazo-limite legal de 90 dias após a publicação da acusação, ajuizei contra você uma interpelação judicial, na 16ª Vara Federal do Distrito Federal, sem fazer divulgação dessa iniciativa. Na interpelação, reproduzi as suas próprias palavras, extraídas da entrevista, e pedi que, em juízo, você as confirmasse, desmentisse, desse as explicações que lhe parecessem necessárias, ou apresentasse as provas que justificassem as suas declarações a meu respeito.

A carta precatória enviada em dezembro pelo juiz de Brasília à 2ª Vara Federal de São Bernardo do Campo (SP) foi devolvida com a sua resposta apenas no fim de fevereiro, pois somente na oitava tentativa o oficial de Justiça conseguiu citá-lo, e assim mesmo depois de o juiz determinar que o fizesse com dia e hora marcados…

Lamento, mas a curta resposta à interpelação judicial, assinada por você e por um advogado pelo qual tenho grande respeito, Márcio Thomaz Bastos, é absolutamente insatisfatória para mim, e me leva não só a tornar pública agora a minha indignação, como a considerar a possibilidade de medidas judiciais cabíveis. A sua resposta apenas defende algo que eu jamais imaginaria questionar: o direito à crítica como inerente ao debate público. Para mim, é absolutamente trivial a observação de que homens públicos estão sujeitos, gostem ou não, a intenso escrutínio e dele não podem reclamar. É dispensável, portanto, para quem é ministro da Fazenda há sete anos e três meses, período de plena vigência das liberdades democráticas, a lembrança de que a crítica é direito assegurado a qualquer cidadão brasileiro, e também a referência óbvia de que o debate franco e aberto sobre qualquer tema é condição essencial para o desenvolvimento do processo democrático.

Vamos ser claros, Lula. O que você fez não foi uma crítica política. Apesar de na última linha de sua resposta à minha interpelação afirmar que ‘em nenhum momento pretendeu atacar a honra do interpelante’, o fato é que você o fez. Você me acusou de um crime. Porque guardar dinheiro público para si, e o liberar pessoalmente para ‘obras de amigos’, é crime, Lula. É crime grave. O acusador tem que ter provas, evidências, e você não as tem, não as tinha e nunca as terá, porque nunca fiz, não faço e nunca farei tal coisa. E você sabe ou deveria saber disto.

Não tenho absolutamente nada contra críticas. Ao contrário. Eu próprio as faço e farei, inclusive quanto ao que considero insustentáveis ambigüidades de seu discurso e de seu partido. Sou servidor público há mais de 35 anos. Nos últimos 15 anos ocupando posições de responsabilidade: representante do governo brasileiro nas diretorias executivas do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), negociador-chefe da dívida externa brasileira, presidente do Banco Central e ministro da Fazenda… E sempre, volto a repetir, sem qualquer projeto político pessoal. Nunca, em momento algum ao longo de minha carreira, qualquer pessoa acusou-me de crime ou fez qualquer ofensa à minha honra. Você foi o primeiro – e único. E gostaria que fosse o último a me acusar de crime grave – sem qualquer evidência.

Posso estar equivocado, mas acredito que a opinião pública está se cansando desse cipoal de baixarias, agressões pessoais e acusações sem provas. Creio que a população espera – e merece – um debate público sobre idéias, projetos e programas viáveis, que possam consolidar os ganhos já alcançados pelo País e avançar mais no sentido de melhorar as condições de vida da população brasileira. É com esse espírito que sempre trabalhei, aceitando quaisquer críticas como normais. É com esse espírito que sempre procurei participar do debate público…’

Peço perdão ao leitor que até aqui chegou pela longa reprodução de texto antigo (O Globo, 14/4/2002). Mas tive o privilégio de servir a um governo honrado, com muitos colegas de integridade e caráter, em nome dos quais creio que me expresso. E para os quais, definitivamente, não era ‘a mesma coisa’ de agora, como pretendem alguns.

*Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso

Lula libera recursos para MT e Blairo Maggi formaliza apoio a petista

GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
11/10/2006

O governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS), reeleito no primeiro turno das eleições, formalizou nesta quarta-feira o apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mesmo com a ameaça do seu partido de expulsá-lo da legenda –que apóia o tucano Geraldo Alckmin (PSDB)–, Maggi decidiu formalizar a aliança com Lula no segundo turno.

“Eu venho acompanhando o presidente desde as eleições de 2002 e o longo de quatro anos criamos um canal de negociação entre o governo e o Estado que tem dado bons frutos. O que me leva a dar apoio ao presidente é dar continuidade ao trabalho realizado no Mato Grosso”, disse.

O governador disse que vai apresentar uma carta ao PPS sugerindo uma licença temporária do partido diante do apoio ao presidente Lula. Se o partido não conceder a licença, ele mesmo vai sugerir seu afastamento.
“A Executiva do partido ao lado do presidente [Roberto] Freire vão decidir”, disse. Maggi negou, no entanto, que já esteja procurando outro partido caso saia realmente do PPS.

O coordenador da campanha de Lula, Marco Aurélio Garcia, negou que o PT tenha sondado Maggi para migrar para a legenda. “Não houve convite para ele entrar no PT. NO momento queremos reunir forças para vencer o segundo turno”, disse.

Negociação
O governador admitiu que pesou em sua decisão o fato de Lula ter reiterado durante encontro nesta quarta-feira o seu compromisso em implantar uma série de medidas no setor agrícola que beneficiam diretamente o Estado do Mato Grosso. Apesar de tentar desvincular as medidas para o setor ao seu apoio à reeleição de Lula, Maggi reconheceu que o compromisso do presidente foi decisivo.

É claro que vim conversar com o presidente e ver se tudo o que combinamos está na pauta [do governo Lula se for reeleito]”, reconheceu.
A principal medida é a liberação de R$ 3 bilhões para a renegociação de dívidas agrícolas, das quais o Mato Grosso deve receber cerca de R$ 1 bilhão. O governador disse esperar que as medidas sejam implantadas antes do segundo turno. “Eu espero que sim. Mas estamos negociando tudo isso há mais de dois anos”, afirmou.

Sem esconder que defende a reeleição de Lula principalmente pelo empenho do presidente em implantar medidas voltadas para o setor agrícola, Maggi disse que Lula é o melhor para o Mato Grosso que Alckmin –uma vez que a principal economia do Estado é o agronegócio.
O coordenador da campanha de Lula também admitiu que a liderança de Maggi no meio agrícola pode trazer votos ao presidente. ‘Todos sabem que a agricultura tem um peso importante na economia brasileira’, afirmou Garcia.

O apoio de Maggi tem como principal objetivo reverter a vantagem de Alckmin no Estado, uma vez que no primeiro turno o tucano recebeu 54,8% dos votos válidos contra 38,6% de Lula em Mato Grosso.

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