Os autoritários

O artigo é simplesmente BRILHANTE (publicado pela Folha em 21/09/08, com grifos meus):

SE ALGUM dia as reformas que vêm sendo há anos postergadas entrarem finalmente na agenda das (futuras) autoridades, será preciso que o país se prepare para enfrentar aqueles que obstaculizam um maior avanço do país rumo à modernidade, escudados nos chamados “movimentos sociais”.
Sob o véu da suposta defesa dos interesses da maioria da população, o denominador comum de muitos desses grupos é o autoritarismo. Com base em uma retórica agressiva, estão na vanguarda de todos os movimentos de resistência à agenda que pretende integrar o Brasil às tendências mais modernas do mundo.

São os mesmos que lideraram o movimento em favor da reestatização da Vale, dez anos depois de ela ter sido privatizada. Que grupos são esses?

Eles representam a confluência de três vetores. O primeiro é o dos intelectuais intolerantes; o segundo, o de certos grupos políticos; e o terceiro, o de grupos sindicais dedicados à administração de recursos milionários.

O primeiro grupo é representado por aqueles que enchem a boca para falar mal do famoso “neoliberalismo”.

Vivem fazendo discursos contra o Consenso de Washington, mas 99% deles jamais se deram ao trabalho de ler o trabalho de J. Williamson que deu origem ao termo.
A expressão máxima dessa atitude, pela qual alguns intelectuais fazem a cabeça de parte do espectro dos políticos, foi manifestada por uma das mais conhecidas lideranças políticas brasileiras, que há alguns anos se manifestou nos seguintes termos: “Em nosso partido, estamos abertos a todos. Só não cabem nazistas, racistas, delinqüentes políticos e neoliberais” (“Jornal do Brasil”, 8/2/ 04). Nesse meio, ignora-se o conceito do que sejam “adversários”: só há inimigos.

O segundo grupo é a constelação de partidos ditos de esquerda, originalmente romântica, mas que em linhas gerais são desprendimentos de uma mesma costela stalinista, em que delírios incompatíveis com a realidade dos dias de hoje se confundem com o apego a diversas formas de coerção.

Nas suas versões mais inofensivas, fazem barulho em passeatas. Nas formas mais radicais, seus congêneres de outros países compõem a tropa de choque do esquerdismo fascistóide latino-americano. Na Venezuela, fecham canais de televisão. Na Argentina, travestidos de “piqueteros”, arregimentam capangas para -literal e fisicamente- bater na classe média quando ela vai para a rua protestar contra as políticas oficiais.

O terceiro grupo é o dos sindicalistas encastelados no aparelho de Estado e nas suas diversas ramificações, acostumados a viver das benesses do repasse de recursos públicos, em atitude que faria se virarem nos túmulos os líderes sindicais, ingênuos e modestos, que forjaram historicamente as raízes do sindicalismo autêntico, há várias décadas.

Em 2007, tive a oportunidade de ser testemunha de um exemplo do comportamento desse grupo, quando participei como expositor do Fórum da Previdência. Ao meu lado, ar de quem era dono da situação, pouco ligando para a liturgia do evento, estava o representante de uma das centrais sindicais. Defendi, na ocasião, o que tenho dito há anos: idade mínima para aposentadoria de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, aumento do período contributivo para 25 anos até 2031, redução da diferença entre homens e mulheres para efeito de aposentadoria ao longo de uma transição de 15 anos etc. Nada do que foi proposto pode, honestamente, ser chamado de “draconiano”.

Ao concluir, quem primeiro pediu a palavra foi a pessoa citada, que começou seu discurso com as seguintes palavras: “Estou impressionado com a crueldade do professor Giambiagi”.
Ao concluir, se retirou: ao chegar o momento da tréplica, eu dialogava com uma cadeira vazia.
Ao voltar para suas “bases”, a pessoa deve ter dito que “defendeu os interesses do povo contra a tentativa de avanço do neoliberalismo”. Quanto ao problema demográfico representado pelo envelhecimento da população nas próximas décadas, dele só se ouviu o silêncio.

Não se trata de um debate entre grupos que, partindo de posições diferentes, negociam para depois chegar a um meio termo razoável. Não nos enganemos: há uma profunda raiz autoritária na atitude de todos esses grupos. Cedo ou tarde, para conquistar corações e mentes em favor das reformas, será preciso enfrentar a resistência desses grupos.

É evidente que poderá ser tentador, com o pré-sal, conservar a política do “deixa estar” e não fazer reforma alguma. Nesse caso, porém, o Brasil daqui a 30 anos será melhor que o de hoje, mas ficará aquém do país que poderíamos ser.


FABIO GIAMBIAGI , 46, mestre em economia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é economista do BNDES e autor do livro “Finanças Públicas: Teoria e Prática no Brasil”, entre outras obras.

Remessas de lucros: só relembrando

Para aqueles que simplesmente repetem o “mantra” do sucesso da política econômica PTralha, muita atenção:

Embora o governo aposte na chance de o Brasil receber recorde de investimentos estrangeiros neste ano, dados do Banco Central mostram que a remessa de lucros e dividendos para as matrizes das multinacionais nos quatro primeiros anos do governo Lula foi o triplo da registrada entre 1999 e 2002, no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Entre 2003 e 2006, no primeiro mandato de Lula, a cada US$ 10 que entraram no Brasil, outros US$ 6 foram enviados ao exterior como ganho às sedes. Nos quatro últimos anos da gestão FHC foram remetidos US$ 2 para cada US$ 10 que entraram no país -valor pouco acima dos US$ 2,5 remetidos durante o primeiro mandato do tucano, entre 1995 e 1998.
O ingresso de investimentos estrangeiros entre 2003 e 2006 somou US$ 62,1 bilhões, enquanto as remessas foram de US$ 37,8 bilhões, conforme os números do BC. Com o aumento desse envio de lucros, parte do efeito positivo que a entrada desse capital tem sobre as contas externas é reduzido.
Para alguns analistas, as remessas de lucros feitas na primeira metade do governo Lula refletem o que aconteceu no segundo governo FHC, quando, puxados pelas privatizações, os investimentos estrangeiros totalizaram US$ 100 bilhões. Ou seja, agora que esses investimentos bilionários estão dando retorno, o envio de lucros para fora do país aumenta.
“As remessas cresceram porque o estoque de investimentos estrangeiros também está aumentando. Além disso, a rentabilidade das empresas cresceu muito nos últimos anos, porque a economia voltou a crescer”, afirma o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.
Segundo ele, o volume de recursos enviado por multinacionais não chega a preocupar no curto prazo, porque por enquanto “a balança comercial compensa”. Para o futuro, o economista defende a adoção de políticas que atraiam investimentos para setores mais avançados e dinâmicos da economia. Assim, as remessas de lucros seriam um preço justo a se pagar pela criação de empregos e pelo aumento de produtividade da economia.
O BC não possui dados históricos sobre os setores que mais enviam lucros para fora do país, mas os números de 2006 ajudam a ilustrar um pouco esse quadro. No ano passado, os bancos foram os que mais remeteram recursos para seus sócios estrangeiros: US$ 1,404 bilhão, o que representou 10,11% dos US$ 13,883 bilhões remetidos ao exterior. Foram seguidos de perto pelas empresas de energia e gás (US$ 1,378 bilhão) e pelas montadoras de automóveis (US$ 1,318 bilhão).
São três setores que vivem um bom momento em suas operações no Brasil. “De modo algum é um movimento de saída dos investimentos. Pelo contrário, o que vemos é a consolidação dos empreendimentos no Brasil”, avalia o diretor-executivo da Amcham-SP (Câmara Americana de Comércio), Arthur Vasconcellos.
Ele também cita a possibilidade de o bom resultado das subsidiárias nacionais ser usado para cobrir prejuízos das matrizes. “Como as unidades brasileiras têm apresentado bons resultados, com geração de caixa forte, o dinheiro pode sair para equilibrar as contas dessas companhias.”
Lucratividade à parte, a queda do dólar é outro fator que tem impulsionado o envio de lucros para o exterior. Para o presidente da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização), Luis Afonso Lima, o aumento das remessas mostra uma “janela de oportunidade cambial”. “Há uma sensação de que o real vai passar por um processo gradual de desvalorização. Mandar os recursos agora, portanto, é mais vantajoso em dólar”, diz.
Ou seja, com a valorização do câmbio, um mesmo lucro em reais pode ser convertido para um volume maior de dólares, tornando mais vantajoso o envio de recursos a outros países.
Até agosto deste ano, US$ 11,3 bilhões já deixaram o Brasil dessa forma, 31% a mais do que no mesmo período de 2006. Por outro lado, esse movimento foi compensado pela recuperação mais forte dos investimentos: no período, o ingresso de capital externo chegou a US$ 26,5 bilhões, alta de 161%.

A matéria é da Folha de São Paulo (aqui), com dados do Banco Central.

Lulla e Bush: os iguais se atraem

O artigo do Clóvis Rossi (de 11/05/08) é delicioso:

O repórter Ricardo Balthazar (“Valor Econômico”) publicou nesta semana valioso resumo das relações entre os governos George Walker Bush e Luiz Inácio Lula da Silva, extraídos de documentos confidenciais do Departamento de Estado.
Não há uma revelação bombástica ou algo que não desse para notar mesmo de fora dos salões em que se tecem os entendimentos entre governantes. Mas deles emerge claramente o seguinte:
1 – Lula mostrou antes aos norte-americanos que seria a “metamorfose ambulante” que só depois contaria aos brasileiros.
2 – Lula comprometeu-se com o governo Bush a não servir “surpresas” na política econômica. Ou seja, a arquivar as “bravatas” do velho PT e a seguir o receituário herdado de Fernando Henrique Cardoso, pró-mercado e pró-credores.
Se os documentos se referissem ao diálogo entre FHC e Bush (ou Clinton), o velho PT de língua afiada imediatamente gritaria “vendido ao imperialismo”.
Agora, faz-se silêncio denso em todos os quadrantes político-ideológicos. De fato, não dá para dizer que os documentos revelam submissão. Mas aparece nitidamente uma espécie de pacto de não-agressão (aos interesses dos Estados Unidos, inclusive de suas empresas), em troca do aval ao que Bush, brincando, diria ser uma “boa política republicana” (republicana no sentido de Partido Republicano, um dos diabos preferidos da antiga demonologia da esquerda).
Talvez o pacto tenha sido inevitável. Quem não o fez (Hugo Chávez, Evo Morales) sofreu ou sofre tentativas de golpe ou conspirações.
De todo modo, fica claro que é uma fraude o discurso antielite que Lula ainda adota e que freqüenta o vocabulário de muito petista, especialmente da ala hidrófoba-debilóide. Ninguém é mais elite do que a elite das potências.
E ela adora Lula.

MST: o pesadelo da democracia

Não é uma ONG nem uma associação profissional, um partido ou sindicato, não é empresa estatal ou privada, não tem CPF nem CNPJ ou identidade, mas não paga impostos e vive dos impostos pagos pela população trabalhadora, sem prestar contas de nada a ninguém. Será um sonho? Não, são privilégios que só o MST tem.

O maior e mais incontestável sucesso do governo Lula é a política econômica, que nos proporcionou estabilidade e crescimento, além de bancar os programas sociais, inclusive os de assentamentos rurais. O MST é contra, faz protestos furiosos em frente ao Banco Central. Justo quando a ONU e o Banco Mundial advertem para a crise de alimentos, o MST demoniza e combate o agronegócio, que produz alimentos fartos e, pelo volume de produção, mais baratos. O MST sonha acabar com ele e substituí-lo pela agricultura familiar. Em que século e planeta eles vivem ?

O MST combate tudo o que está dando certo no país. Porque o comandante Stédile é contra o capitalismo, a livre-iniciativa e o mercado, seu objetivo declarado é substituí-los por um sistema comunista, socialista, bolivariano ou alguma outra ditadura econômica, política e social. Mas financia a sua guerra santa com os impostos da democracia que despreza, usando os direitos e o dinheiro do Estado democrático. Sua arrogância, ignorância e intolerância beiram a caricatura, mas o homem segue falando grosso: não respeita as leis que julga injustas, em nome da auto-atribuída justiça de sua causa intocável.
No século 21, num país livre e democrático, se cada um se dá o direito de atropelar a lei e o Estado de Direito, em nome de sua crença, a civilização se barbariza e o que impera é a força bruta.

O sonho do MST virou o pesadelo da democracia.

O texto é do (brilhante) Nelson Motta.

A quem, aliás, saúdo.

Eleições e Olimpíadas

Uma criança de quatro anos, em vista da visibilidade dos Jogos Pan-americanos e dos Jogos Olímpicos, pergunta para o seu pai:

– Papai, o que são PARA-OLIMPÍADAS?

O pai, com habilidade, responde à filhinha:
– Assim como tivemos o PAN e o PARA-PAN, teremos as Olimpíadas e as PARA-OLIMPÍADAS. As PARA-OLIMPÍADAS, como o PARA-PAN, são para os atletas especiais, com deficiência física, mental, entendeu, filhinha?

– Ah, papai, entendi. Por isso é que teve eleição PARA-PRESIDENTE e o Lula ganhou, né?

O atraso do sindicalismo brasileiro

A matéria abaixo, da Folha de São Paulo de 24 de Julho de 2008, mostra que o sindicalismo brasileiro (umbilicalmente ligado ao PT) continua insistindo numa proposta burra: a redução da jornada de trabalho.

O Senado francês aprovou anteontem, por 199 votos a 125, a polêmica reforma do tempo de trabalho e representatividade sindical que prevê a flexibilização da jornada semanal de 35 horas. A nova legislação deve ser promulgada em 15 dias.

Na campanha eleitoral, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, agitou a bandeira da flexibilização do tempo de trabalho. “Trabalhar mais para ganhar mais” tornou-se um de seus principais slogans. Na linha de mira, o tempo legal de trabalho na França, apontado como um dos principais responsáveis pela estagnação do poder aquisitivo da população e pela perda de competitividade das empresas francesas. O projeto, apresentado pelo governo e votado em caráter de urgência, mantém a duração legal de 35 horas semanais, mas prevê uma série de medidas destinadas a dar maior autonomia às empresas para fixar as regras do jogo diretamente com as representações sindicais ou, em certos casos, individualmente com os empregados. “Com a reforma, o tempo de trabalho legal de 35 horas não passa de uma disposição meramente formal”, diz Jacques Legoffo, especialista em direito do trabalho e professor da Universidade de Brest.

Atualmente, o contingente de horas extras permitido pela legislação francesa é de 220 horas por ano. O novo projeto permite a cada empresa negociar diretamente com os empregados o número de horas extras trabalhadas anualmente. A única restrição é que não se ultrapassem 405 horas anuais, 13 horas por dia ou 48 horas por semana. As empresas também terão autonomia para definir com os empregados, por exemplo, o aumento salarial por hora extra trabalhada.
Outro ponto polêmico são as novas regras para os chamados “cadres”, trabalhadores que ocupam cargos de responsabilidade e que são submetidos a um teto anual estabelecido em dias. A legislação atual determina que o número de dias trabalhados por ano não ultrapasse 218. O novo projeto fixa, na ausência de acordos coletivos, um novo teto de 235 dias, que poderá ser negociado individualmente com cada trabalhador. Em caso de acordo negociado diretamente pela empresa e pelos sindicatos, esse teto pode ser estendido a até 282 dias.

Para a CFE-CGC, uma das principais confederações sindicais do país, essa medida representa “um retorno ao século passado”. A CFDT, outra importante confederação sindical na França, afirma que trabalhar 235 dias por ano significa a supressão de todos os feriados e outros dias de folga previstos pela legislação (11 para os trabalhadores no regime de dias). “O trabalhador somente terá como dias livres os finais de semana, as férias anuais (cinco semanas na França) e o 1º de Maio, Dia do Trabalho”, diz Laurence Laigo, secretária nacional da CFDT.

Segundo o relator do projeto no Senado, Alain Gournac, a reforma tem o objetivo de “romper com a lógica maltusiana da divisão do trabalho” instalada há dez anos pela chamada Lei Aubry, que modificou o regime de 39 para 35 horas semanais.
O principal argumento da esquerda ao defender a Lei Aubry em 1998 era o de que as 35 horas iriam permitir a criação de milhares de empregos. “Uma idéia socialmente interessante, mas economicamente utópica”, afirma Bernard Didier, diretor do Instituto do Trabalho Francês, uma organização independente que acompanha a evolução do direito do trabalho e das relações sociais no país.
A esquerda defende que a lei criou entre 300 e 400 mil empregos no setor privado, mas esses números são controversos. “A Lei Aubry não foi uma ferramenta útil para vencer o desemprego. As empresas precisaram se reorganizar, houve ganhos de produtividade e o volume de horas restante não foi exatamente redistribuído entre os desempregados”, afirma Bernard Didier.

A França já voltou atrás na decisão sobre a redução da jornada de trabalho – e os motivos são óbvios.

Mas a PTralhada insiste em fazer a mesma cagada por aqui…….

Prioridades

As cinco prioridades de Rei Mulla, numa charge que dispensa comentários:
Prioridades do PT
Prioridades do PT

Guaribas: vitrine do fracasso PTralha

A matéria é do Valor Econômico de 18/08:

Guaribas (PI) é parecida com várias cidades do interior do país, com casas humildes, gente simples e ruas estreitas, que alternam barro e paralelepípedos. Mas Guaribas virou vitrine quando foi escolhida, em 2003, para ser o município símbolo do Fome Zero. Quase seis anos depois, o que poderia representar melhoria virou estagnação e acomodação. Distante 800 quilômetros da capital Teresina, Guaribas não cresceu economicamente e os moradores vivem, quase que exclusivamente, das verbas repassadas pelo governo federal.

A produção agrícola local é insignificante. O comércio também. É fácil ver lojas de auto-peças, de artesanato e salões de beleza fechados durante todo o dia, enquanto os moradores desfilam de moto pelas ruas, conversam nas portas das casas ou na praça atrás da Prefeitura. Essa situação angustia a Irmã Augusta Mendes Bispo, uma das duas missionárias – ao lado da Irmã Eleutéria Souza da Costa – designadas pela Igreja para dar aulas nas escolas da cidade. “Essa cidade é muito esquisita”, definiu.

Nos seus 30 anos de missão ligadas à Ordem de São José da Concórdia, ela já foi educadora de cidades carentes no Maranhão, Pará e no próprio Piauí. Mas nada se compara à pequena cidade de pouco mais de 4,2 mil habitantes, localizada no sul do Estado. “O pessoal aqui é muito acomodado, tem medo de melhorar e perder o benefício”, indicou Irmã Augusta. “Se você olhar o tanto de programa e curso que já entrou aqui e morreu, veria que essa cidade poderia ter mudado muito”, acrescentou Irmã Eleutéria.

De Teresina para Guaribas são 11 horas de carro. As duas estradas que comunicam a cidade aos municípios vizinhos são de areia, barro e buracos em profusão. Emoldurada por uma pedreira da Serra das Confusões e com a origem do nome atrelada a um macaco que vivia pendurado nas costas de um antigo agricultor local – muito antes de ser tornar município, que elegeu seu primeiro prefeito em 1996 – Guaribas tem alguns ficus espalhados, mas apenas uma grande árvore, plantada perto da prefeitura.

Foi embaixo dela que o Fome Zero foi lançado em 2003, com discursos de José Graziano (secretário da Segurança Alimentar e Combate à Fome), Benedita da Silva (secretária de Assistência e Promoção Social) e Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional), assegurando que a vida da cidade mudaria. Em 2004, também esteve lá o atual ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias. “Eu lembro de uma senhora que me disse: ‘Graças a Deus alguém lembrou que a gente existia. Parecia que éramos uma cidade de doentes’ “, disse Irmã Augusta.

Cinco anos e meio depois, os avanços são imperceptíveis. O próprio prefeito Ercílio Matias de Andrade (PRB) reconhece que a produção de feijão, a única representativa – as demais são milho e mandioca-, caiu. A ausência da produção de frutas faz a festa de Maria das Mercês Ribeiro Dias, que vem de Caracol, distante 52 quilômetros, nas datas em que são pagos os salários da prefeitura e o Bolsa Família, vender bananas prata e maçãs aos moradores locais. Fica lá 15 dias. Nos outros 15, não aparece, porque o frete é muito caro.

Em Guaribas, 700 famílias em 900 domicílios estão cadastrados para receber o Bolsa Família – em 2003, esse número era de 366 famílias. Até hoje, voluntariamente, ninguém nunca devolveu um cartão. Pior. Quatro dos nove vereadores recebiam o benefício, incluindo o atual presidente da Assembléia Municipal. Só desistiram após pressão do prefeito. Ele inveja relatos de quem abre mão do Bolsa Família após melhorar de vida. “Quando o pessoal vai ter honestidade de fazer isso por aqui”?, questionou o prefeito.

Até os petistas da cidade estão incomodados e não vêem um sinal de mudança de mentalidade a curto prazo. “Para que eles vão trabalhar na roça, ganhando R$ 10,00 R$ 15,00 de diária, se podem receber mais de R$ 100,00 por mês sem fazer nada”? questionou o advogado Jônatas Barroso Neto, assessor jurídico do candidato do PT à prefeitura, Veloso Silva da Trindade. A inércia estende-se a qualquer projeto de melhoria econômica. “O Pronaf emprestou dinheiro para a criação de caprinos. As pessoas esqueceram que era empréstimo, não produziram nada e hoje estão todas inadimplentes”, diz o candidato do PT a vereador, Raimundo Ribeiro.

Pela cidade já passaram, no embalo do Fome Zero, diversos projetos de aperfeiçoamento e capacitação profissional: cursos de cerâmica, cooperativismo, bordado, apicultura. Maria do Carmo Alves conhece bem boa parte deles. Começou pelo menos três, não concluiu nenhum. A voluntária da Pastoral da Criança, Idelmara Alves, ainda tentou ajudar a amiga. “E o curso de costura?”, indagou. “A máquina era muito cara”, respondeu. Além dos R$ 64 do Bolsa Família pagos ao marido, Maria é beneficiada com uma aposentadoria rural no valor de R$ 415. Mas acha que a vida de agricultor não é fácil. “Quando chove muito, a gente ganha mixaria, nem dá para comer. Quando chove fraco, perde tudo”, resumiu.

Para se fazer justiça, não foi apenas acomodação que o Bolsa Família estimulou em Guaribas. Trouxe também algumas melhorias. A única ambulância que atende a cidade foi doada pela Volkswagen em 2003. O marketing do programa também ajudou na escavação de dois poços artesianos que passaram a abastecer de água a cidade. Hoje, as mulheres não precisam mais passar a noite nas nascentes enchendo baldes e galões. Têm mais tempo para cuidar das crianças, o que diminuiu a desnutrição e a mortalidade infantil. Em 2007, das 68 crianças nascidas vivas, apenas uma morreu. Em 2006, 96 crianças nasceram na cidade e três morreram.

Messias Alves da Rocha tem três filhos – um de seis anos, um de três e o caçula de um ano. Recebe R$ 122 do Bolsa Família desde 2003. Na roça, quando as coisas andam bem, consegue tirar R$ 500. Mas o período de plantio e colheita não garante renda o ano todo. “O Bolsa Família ajudou muito. Agora nós temos dinheiro todo dia certo para comprar leite, arroz, carne e remédio”. A reportagem do Valor já se preparava para deixar a cidade quando foi abordada por uma senhora, acostumada à ajuda federal para tudo. “Moço, pede pro Lula mandar a Record para cá porque a gente não tem dinheiro para a parabólica e só consegue assistir a Globo”.

FARC e PT

Pois é……. Como eu já disse por aqui, inúmeras vezes, o tempo é o senhor da razão.

Após mais de 20 anos criticando o capitalismo, o neoliberalismo e a corrupção, o PT se rendeu à sua verdadeira vocação.

Da mesma forma, a relação entre as FARC e o PT, somente agora, começa a chamar a atenção……

O dossiê brasileiro

por Revista Cambio em 02 de agosto de 2008

Resumo: O MÍDIA SEM MÁSCARA reproduz a tradução da matéria da revista colombiana Cambio, que revela o óbvio para quem acompanha o MSM, e que é sonegado sistematicamente pela mídia brasileira:  as ligações da organização criminosa Farc com membros da administração petista.

© 2008 MidiaSemMascara.org

Capa da revista Cambio: mais uma vergonha para a imprensa brasileira.

O entardecer do sábado de 19 de julho, na fazenda Hatogrande, a casa presidencial ao norte de Bogotá, o presidente colombiano Álvaro Uribe, sorridente e despreocupado, como poucas vezes, não teve dúvidas em oferecer a seu colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, um copo de aguardente antioqueño para mitigar o frio que perfurava os ossos.

O copo selou a primeira parte da intensa jornada que tinha começado na sexta-feira, dia 18 de julho, e que terminaria no domingo com a celebração do Dia da Independência colombiana. Uma celebração que, como nunca, reuniu artistas do nível de Shakira e a qual participou também o presidente peruano Alan Garcia.

A agenda de Lula e Uribe, ao redor dos acordos bilaterais, foi condimentada com muitos elogios públicos. O presidente Uribe agradeceu a Lula e a seu governo de seis anos pelas relações dinâmicas e de confiança. No entanto, em uma reunião particular que mantiveram com pouquíssimas testemunhas, Uribe fez a Lula um breve resumo sobre uma série de arquivos que as autoridades colombianas encontraram nos computadores de Raúl Reyes que comprometia cidadãos e funcionários de seu governo com as Farc.

Diferente do que aconteceu com a informação relacionada aos servidores públicos do governo de Rafael Correa e cidadãos equatorianos, que o governo tornou pública, no caso do Brasil as instruções do presidente colombiano foram de mantê-las reservadas e manejá-las diplomaticamente para não deteriorar as relações comerciais e de cooperação com o governo de Lula.

O governo colombiano usou de forma seletiva os arquivos do computador pessoal de Raúl Reyes. Enquanto com o Equador e a Venezuela foram usados para colocar em proibição Chávez e Correa, hostis com Uribe, com o Brasil foi manipulado por debaixo da mesa para não comprometer Lula, que se mostrou mais hábil e menos belicoso com a Colômbia que seus outros colegas.

Ainda assim, alguns meios brasileiros tinham informação parcial sobre uns poucos arquivos e, por isso, no dia 27 de julho consultaram o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, que em uma entrevista do jornal “O Estado de S. Paulo” confirmou que o governo colombiano havia informado Lula sobre o tema.

“Há uma série de informações de conexões que entregamos ao governo brasileiro para que possa atuar como considerar mais apropriado”, disse Santos, que se absteve de comentar se havia ou não políticos e funcionários oficiais com relações com o grupo que hoje é encabeçado por Alfonso Cano. Às declarações do ministro, o assessor de política internacional do Brasil, Marco Aurélio Garcia, respondeu de forma imediata e qualificou como irrelevantes os dados fornecidos pela Colômbia.

Cura Camilo – Não se sabe com exatidão e o quão detalhada foi a informação que o presidente colombiano Uribe deu a Lula, mas o que poderia ser chamado de “dossiê brasileiro” teria implicações mais sérias que as derivadas da informação relacionada com Venezuela e Equador.

A revista Cambio teve acesso a 85 mensagens eletrônicas que, entre fevereiro de 1999 e fevereiro de 2008, circularam entre Tirofijo, Raúl Reyes, o Mono Jojoy, Oliverio Medina – delegado das Farc no Brasil – e de homens identificados como Hermes e José Luís.

A julgar pelo conteúdo das mensagens, a presença das Farc no Brasil chegou às mais altas esferas do governo Lula, o Partido dos Trabalhadores (PT), a diligência política e a administração de Justiça. Neles, são mencionados cinco ministros, um procurador-geral, um assessor especial do presidente Lula, um vice-ministro, cinco deputados, um conselheiro e um juiz superior.

A personagem central das mensagens eletrônicas é Oliverio Medina, também conhecido como “Cura Camilo”, um sacerdote que ingressou nas Farc em 1983 e que teve uma rápida ascensão até tornar-se secretário de Tirofijo. Chegou ao Brasil como delegado especial das Farc em 1997 e esteve na Colômbia durante o processo da zona de Caguán, em que foi chefe de imprensa do grupo.

Por trás da ruptura das conversações em fevereiro de 2002, regressou ao Brasil, onde continuou sua missão, e sua influência chegou até altos níveis da administração Lula, que assumiu o cargo em janeiro de 2003. Mas graças à pressão das autoridades colombianas, foi capturado em agosto de 2005. A Colômbia pediu sua extradição, mas o Supremo Tribunal Federal, de Brasília, não somente a negou, em 22 de março de 2007, como reconheceu Medina como refugiado político.

Até o Curubito – O cárcere não foi obstáculo para que “O Cura Camilo” suspendesse seu trabalho proselitista e propagandista. Prova disso são as numerosas mensagens que ele enviou a Reyes e que mostraram como conseguiu chegar até a cúpula do governo brasileiro.

Quatro das mensagens às que a Revista Cambio teve acesso se referem ao presidente Lula. Em uma delas, de 17 de julho de 2004, Raúl Reyes disse a Trofijo que o governo Lula ajudaria com o acordo humanitário: “Os curas me enviaram uma carta pedindo entrevista com eles do Brasil”, escreveu Reyes. Segundo dizem, falaram com Lula e ele assumiu o compromisso de ajudar no acordo humanitário, intercedendo com Uribe para efetuar uma reunião no Brasil.

Na segunda mensagem, do dia 25 de setembro de 2006, Oliverio Medina conta a Reyes: “Não lhe disse que faz alguns dias que Lula chamou o ministro Pablo Vanucchi [ministro da Secretaria Nacional de DD. HH.], indicando-lhe que telefonara para o advogado Ulises Riedel e o felicitara pelo êxito jurídico em sua brilhante defesa a favor de meu refúgio.”

No terceiro e-mail, com data de 23 de dezembro de 2006, Medina informa a Reyes que “a Lula e a um de seus assessores que nos ajudaram, enviei o pôster de Aguinaldo.” Os funcionários são Silvino Heck, assessor especial do presidente Lula, e Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete, que aparecem mencionados em uma mensagem eletrônica de 23 de fevereiro de 2007, também dirigida a Reyes: “É possível que me visite um assessor de Lula chamado Silvio Heck, que, com Gilberto Carvalho, foi outro que nos ajudou bastante.”

Entre os 85 e-mails a que a revista Cambio teve acesso, há um sem data, também enviado por Medina a Reyes, que diz: “Falei com a deputada federal Maria José Maminha. Combinamos que ele vai abrir caminho rumo ao presidente via Marco Aurélio Garcia.” Garcia é secretário de assuntos internacionais.

Não menos comprometedoras são aquelas mensagens em que aparecem mencionados alguns ministros. Em uma delas, dirigida a Reyes o dia 4 de junho de 2005 por um tal de José Luis, figura o nome do ministro da Previdência, José Dirceu. “Chegou um jovem de uns 30 anos e se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT) e me disse que vinha da parte do ministro da Previdência José Dirceu, que, por motivos de segurança, eles haviam acordado que as relações não passariam pela Secretaria de Relações Internacionais, senão que fizeram diretamente por meio do ministro com a representação de Breno.”

Ao final da mensagem, José Luis disse que o governo brasileiro e o PT dariam proteção a Medina enquanto avança o trâmite da extradição: “Perguntei se poderíamos estar tranqüilos, que não iriam seqüestrá-lo ou deportá-lo para a Colômbia e ele me respondeu: ‘ Podem ficar tranqüilos’ “. Em uma mensagem do dia 24 de junho de 2004, Reyes comenta com Media sobre a possível saída de José Dirceu do Gabinete e lhe disse: “Com certeza, esta medida em proveito dos detratores de Lula pode afetar a incipiente abertura das relações que eles têm conosco.”

Amorim – As Farc também tentaram chegar ao escritório do Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Em uma mensagem do dia 22 de fevereiro de 2004, José Luis escreve a Reyes: “Por intermédio do legendário líder do PT, Plínio Arruda Sampaio, chegamos a Celso Amorim, atual ministro de Relações Exteriores. Plínio nos mandou falar para Albertao (conselheiro de Guarulhos) que o ministro está disposto a nos receber. Que assim que tiver espaço em sua agenda, nos receberá em Brasília.”

O procurador e o juiz – O embaixador das Farc fez tão bem seu trabalho que também conseguiu chegar até o procurador Luis Francisco de Souza, que é mencionado em uma extensa mensagem eletrônica do dia 22 de agosto de 2004, que Medina e José Luis enviaram a Reyes e a Rodrigo Granda: “Ele deu o seguinte conselho: andar com uma máquina fotográfica e, se possível, com um gravador para em caso de voltar a parar um agente de informação, fotografá-lo e gravá-lo, tendo o cuidado de não deixar que ele pegue a câmera e o gravador. Que em relação ao que aconteceu, façamos uma denúncia dirigida a ele como Procurador para fazê-la chegar ao chefe da Polícia Federal e à Agência Brasileira de Informação.”

Algumas mensagens foram escritas durante o processo da zona de Caguán e envolvem um prestigiado juiz e um alto ex-oficial das Forças Armadas Brasileiras. Por exemplo, em um e-mail do dia 19 de abril de 2001, Mauricio Malverde informa a Reyes: “O juiz Rui Portanova, amigo nosso, nos falou que quer ir aos acampamentos e receber instrução e conhecer a vida das Farc. Pague a viagem dele.” Portanova era, então, juiz superior da Corte Estatal do Rio Grande do Sul, de Porto Alegre.

Três dias antes, em 16 de abril, Medina relata a Reyes um encontro entre Raimundo, Pedro Enrique e Celso Brand – ao que parecem, laços das Farc no Brasil – com o brigadeiro Iván Frota, ex-chefe da Força Aérea Brasileira. “O homem se interessou e disse que gostaria de ter um encontro pessoal conosco. Disse que está começando a amadurecer a tomada da base de Alcântara pelas forças nacionais para impedir que os Estados Unidos fiquem com os 600 quilômetros quadrados que estão sob seu domínio.”

A pequena amostra dos 85 emails a que a Revista Cambio teve acesso revelam a importância do Brasil na agenda exterior das Farc, manejada por Raul Reyes, e não cabe dúvidas de que “O Cura Camilo”, para sustentar a estratégia continental da guerrilha, aproveitou a conjuntura criada pela ascensão de poder de Lula e seu influente Partido dos Trabalhadores para chegar até as mais altas esferas do governo.

E, se os e-mails são apenas indícios de um possível compromisso do governo Lula com as Farc, pois nenhum dos funcionários enviou mensagens pessoais a algum dos membros do grupo guerrilheiro, despertam muitas interrogações que exigem uma resposta do governo brasileiro.

Os contatos das Farc – A expansão das Farc na América Latina não somente incluiu funcionários dos governos da Venezuela e Equador, como também comprometeu a destacados dirigentes, políticos e altos membros do Partido dos Trabalhadores, ao qual o presidente Lula pertence. Além disso, o grupo guerrilheiro manteve contatos com procuradores e juízes do Brasil.

A LISTA DOS CITADOS:

– José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil

– Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência

– Erika Kokay, deputada

– Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete

– Celso Amorim, chanceler

– Marco A. García, assessor para assuntos internacionais

– Perly Cipriano, subsecretário de Promoção DD.HH.

– Paulo Vanucci, ministro da Secretaria de DD.HH.

– Selvino Heck, assessor presidencial

Publicado pelo Diário do Comércio em 01/08/2008 e originalmente pela revista Cambio (versão on line em http://www.cambio.com.co/portadacambio/787/ARTICULO-WEB-NOTA_INTERIOR_CAMBIO-4418592.html ).

Para maiores informações, recomenda-se acessar o links

http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/1097437.htm

http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/1097438.htm

http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/1097449.htm