A economia do cotidiano de John List

Postado originalmente em Inteligência Competitiva por Alfredo Passos:

Desde 2005, o departamento de economia da Universidade de Chicago, principal casa dos ícones do pensamento econômico liberal americano e ninho de Prêmios Nobel, convive com um ser estranho. Mais que isso: é chefiada por ele. A razão pela qual o americano John List se intitula “um estranho nesse circo” é que, exceto o fato de estudar economia, seus interesses estão em outro picadeiro, bem distante daquele escolhido pelos seus colegas, mais ligados ao universo financeiro. Aos 45 anos, ele é um expoente de uma área da economia comportamental que analisa seus objetos de estudo em campo e à paisana, evitando os laboratórios. O resultado, ele garante, é revolucionário tanto para a academia quanto para os negócios. “Eu quero que o experimento em campo seja aplicável em todas as esferas da vida”, afirma.

Ao lado do também professor – e especialista em economia comportamental – Uri Gneezy, John List é…

Ver original 2.063 mais palavras

Ano de consolidação e fusões no setor educacional

Ao ler esta notícia na Época Negócios, lembrei do que eu escrevi nesta semana sobre o futuro do setor de educação:

Com a Bolsa em baixa este ano, as aquisições devem continuar em ritmo forte entre as companhias de ensino superior. As empresas ainda veem grande espaço para consolidação do setor e há pelo menos cinco companhias dispostas – e com dinheiro – para ir às compras.

Uma das empresas que têm buscado aquisições é a Cruzeiro do Sul Educacional, grupo com uma participação do fundo Actis. A empresa era candidata a uma abertura de capital este ano, mas adiou os planos por causa das condições desfavoráveis do mercado. “A empresa está pronta, mas vamos aguardar um momento melhor”, diz o diretor de desenvolvimento, Fábio Figueiredo.

Com 85 mil alunos, a Cruzeiro do Sul tem ao menos seis negociações em andamento para aquisição de empresas e olha companhias com cerca de 5 mil alunos. O interesse é por redes instaladas em regiões próximas de onde a companhia atua, como Distrito Federal e São Paulo, mas Figueiredo diz que é possível a entrada em novas regiões com a compra de uma grande instituição.

Além da Anima, que captou R$ 460 milhões em sua oferta inicial de ações no fim do ano passado, a nordestina Ser Educacional também tem dinheiro em caixa para novas aquisições. A empresa captou R$ 260 milhões na Bolsa para comprar instituições no Norte e Nordeste.

Ainda se espera que a Laureate, empresa norte-americana que é dona da Anhembi Morumbi, volte ao mercado depois de ter anunciado a compra da FMU em agosto do ano passado.

As duas gigantes Kroton e Anhanguera devem voltar ao mercado depois que a fusão anunciada em 2013 seja concluída. A Estácio, por sua vez, espera manter aquisições de pequeno e médio porte enquanto aguarda a decisão do Conselho Administrativo e de Defesa Econômica (Cade) sobre a maior compra de sua história, a da UniSeb.

Anhanguera, Kroton e o setor de educação superior no Brasil

Leio na Época Negócios o seguinte (íntegra AQUI):

O Ministério Público Federal (MPF) afirmou nesta quinta-feira (10/04), que a fusão entre as empresas de educação Anhanguera e a Kroton apresenta “sobreposição” de mercado arriscada para o segmento de educação superior presencial e a distância. O órgão identificou que a fusão apresenta 36 monopólios em mercados de educação, além de uma concentração acima de 50% em outros 165 segmentos.

Em parecer, o MPF recomendou a venda de ativos da empresas, de graduação presencial e no ensino à distância. O parecer é parte do processo de fusão ao qual as empresas se submetem para criar uma gigante avaliada em R$ 12 bilhões e foi encaminhado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que julgará o caso. (…)

Mensalidade
Embora o parecer não tenha poder de decisão – caberá ao Cade decidir se o adotará ou não -, esta foi a segunda derrota da Anhanguera e da Kroton desde o anúncio da fusão há um ano. Em dezembro, a Superintendência-Geral do Cade recomendou ao tribunal administrativo que fosse avaliada a possibilidade de que ativos fossem vendidos para evitar “séria potencialidade de efeitos anticompetitivos em diversos mercados”. A superintendência afirmou em parecer que a fusão representava “preocupações graves” por envolver “provável queda significativa da concorrência” em mercados ao possibilitar ” aumentos de preços, redução de oferta, queda de qualidade, com consequências diretas para um número elevado de alunos em todo o Brasil”.

Opinião
Em nota divulgada ao mercado, as empresas afirmaram que o parecer do Ministério contém “conteúdo opinativo” e que seguem buscando uma solução negociada junto ao Cade “que inclua remédios para as preocupações concorrenciais identificadas em relação à oferta de ensino superior na modalidade presencial, bem como no que diz respeito à oferta de ensino superior a distância, tudo com vistas a obter a aprovação do acordo de associação dentro do prazo legal”.

Na última semana, analistas ponderaram que há a possibilidade de as companhias renegociarem os termos da fusão para evitar que o negócio vá por água abaixo, mas o espaço para isso é pequeno e muito depende do Cade. Há ainda quem acredite que a Kroton não tem mais interesse na fusão. Segundo uma fonte próxima da companhia, a Kroton vê hoje risco de que o Cade aprove a fusão, mas exija a venda da Uniasselvi, instituição de ensino a distância comprada em 2012 e que é considerada estratégica. De acordo com analistas, porém, existe um risco para a Kroton: perder a Anhanguera para um concorrente.

A Anhanguera já chegou a se aproximar da Estácio no passado. De acordo com fontes, a Estácio não quis assinar um acordo de fusão sem uma diligência prévia e logo depois a empresa foi surpreendida com o rápido acerto entre Anhanguera e Kroton.

Agora uma matéria da Folha (íntegra AQUI):

O grupo mineiro Anima Educação adquiriu a Universidade São Judas Tadeu, de São Paulo, por R$ 320 milhões. Foi a primeira aquisição após a companhia começar a negociar ações na Bolsa, em outubro, quando captou R$ 468,2 milhões. A operação envolve a totalidade das ações da São Judas e prevê a locação de longo prazo de todos os imóveis que servem a universidade, nos campi da Mooca e do Butantã (na cidade de São Paulo).

Com a integração da São Judas, universidade fundada em 1971, a Anima Educação sai de uma base de 55,4 mil alunos para 81,2 mil alunos. Considerando os balanços das duas empresas em 2013, o grupo mineiro passa para um faturamento de R$ 644,1 milhões. A Anima obteve receita líquida de R$ 417,7 milhões no ano passado, e a São Judas, R$ 183 milhões.

Em um comunicado divulgado ao mercado, a Anima afirma que a aquisição da São Judas poderá gerar sinergias de R$ 12 milhões ao ano, a serem integralmente assimiladas após quatro anos.

Fundada em 2003 com a compra da Minas Gerais Educação (mantenedora do Centro Universitário UNA, de Belo Horizonte), na época com 3.800 estudantes, a Amina vem crescendo por meio de aquisições. A empresa é dona de outras duas universidades, a UniBH, de Belo Horizonte, e da Unimonte, de Santos, e de duas faculdades (em Betim e Contagem, em Minas). No ano passado, a Anima adquiriu 50% da HSM, empresa de eventos de gestão empresarial e que também oferece cursos de pós-graduação e cursos livres. Antes da abertura de capital, em 2012, a Anima recebeu aporte do BR Educacional FIP, investidor financeiro com foco no setor de educação.

Nos últimos anos, o setor de educação vem sendo alvo de fusões e aquisições, tanto por parte de grupos estrangeiros como de grupos locais. Há um ano, a Kroton e a Anhanguera, as duas maiores companhias de capital aberto do setor no país, anunciaram uma associação que poderá criar uma gigante com valor de mercado de cerca de R$ 12 bilhões.

O negócio depende da aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

O fato concreto, e já conhecido por quem vive o dia-a-dia do ensino superior brasileiro, é que as IES (Instituições de Ensino Superior) ainda estão tentando achar seu lugar ao Sol. Na década de 1990 houve um aumento substancial na quantidade que empresas nesse setor, mas não havia alunos suficientes. Na década de 2000, houve aumento gradativo (mas constante) da quantidade de alunos, porém havia o problema da renda: a expansão foi (mal) feita, especialmente devido aos programas assistencialistas e mal geridos como ProUni, o que impôs uma situação financeiramente ruim para as IES, que precisavam reduzir drasticamente as mensalidades para conseguir manter os alunos.

Isso acarretou pressão nos salários dos professores (e, concomitantemente, o MEC do Sr. Fernando Haddad foi afrouxando a exigência de mestres e doutores nas IES), redução significativa das margens de lucro, baixa capacidade de investimentos e, para muitas IES de pequeno e médio portes, insolvência e falência.

Agência Brasil - ABr - Empresa Brasil de Comunicação - EBC

O passo seguinte, naturalmente, foi a consolidação do setor: IES maiores foram adquirindo as instituições pequenas (endividadas) e o setor ficou mais concentrado. Não por acaso, a qualidade do ensino vem caindo: a preocupação com a qualidade deu lugar à preocupação com as mensalidades mais baixas.

Neste setor, o que vemos de forma clara e cristalina é a incapacidade do Estado em criar um ambiente que faça com que a educação MELHORE. Aliás, o Estado fez exatamente o contrário: agiu de forma irresponsável e burra, criando todas as condições para que o ensino PIORASSE.

Atingiu o objetivo.

Testes, provas e estudos têm demonstrado queda na qualidade da educação.

Eu, como professor, vejo que a cada ano/semestre as turmas têm um desempenho acadêmico menor. Pessoalmente, considero isso um desestímulo PIOR do que o salário baixo.

pater familia

Enfim, o fato é que foi criado um contexto em que as IES precisam ganhar escala, pois suas margens foram extorquidas. E, quando tentam ganhar escala, encontram empecilhos criados pelo CADE, pelo Ministério Público ou por alguma ONG que só existe para desviar dinheiro governamental (e ainda está isenta de impostos).

O resultado final é ruim para todos. As instituições de ensino sofrem com margens de lucro reduzidas e pressão constante para angariar alunos – às vezes quase pagando para que o sujeito seja seu aluno. Neste momento, aliás, surgem “empresas” e “organizações” que tentam intermediar a captação de alunos (como ESTA AQUI); estas organizações promovem um verdadeiro estelionato – mas perfeitamente legalizado.

Os professores vivem num ambiente cada dia mais desestimulante intelectualmente, e com desafios maiores: lidar com alunos sem nenhuma formação intelectual, muitos deles analfabetos funcionais, e ainda ganhando pouco. Como se não bastassem, são explorados por sindicatos inúteis tentando fazer politicagem rastaquera com o único e exclusivo intuito de conseguir ganhos para sindicalistas vagabundos.

E os alunos, que têm uma formação deficitária desde o ensino fundamental, continuam saindo da universidade sem aprender. Muitos, aliás, entram e saem da universidade sem saber ler nem escrever!

Diante disso tudo, alguém ainda pode ser otimista no que tange ao futuro do Brasil?

bacharel

E ainda tem as “cotas”!!!! Joga-se no lixo a meritocracia: não é necessário estudar, basta se declarar negro, gay, indígena, portador de unha encravada…

O futuro do país vai ser conduzido por uma geração ignorante, analfabeta e sem preparo para tomar decisões simples.

Gente que comenta sem ler

Li por acaso, e reproduzo:

Clique em qualquer notícia de um grande portal, vá à seção de comentários e faça sua aposta: quantas pessoas realmente leram todo o texto antes de comentar? Quando comecei no jornalismo, ingênuo, acreditava que todos liam tudo. Os anos me tornaram cético. Hoje, tenho certeza de que o número é próximo de zero. Na internet, quase todos nós lemos muito mal.

Num universo de leitura fragmentada, os comentaristas conseguem se destacar negativamente. Ao contrário dos outros maus leitores, que prestam conta apenas às suas consciências, quem comenta deixa registrada, definitivamente, a sua falta de atenção. Só não morrem de vergonha disso porque sabem que ninguém notará suas falhas. Afinal, se quase ninguém lê as notícias, é seguro apostar que mesmo o mais absurdo dos comentários passará despercebido por todos. Exceto, é claro, por outros comentaristas.

Quanto maior a audiência de uma notícia, maior a chance de a caixa de comentários se transformar numa sala de bate-papo delirante, sem nenhuma relação com o assunto original. Não importa se o texto é sobre a Petrobras, sobre novas marcas de esmalte ou sobre o álbum da Copa: sempre haverá uma desculpa para transformá-lo em palco para brigas políticas. Quando a vontade de expressar uma opinião é irresistível, a lógica é o que menos importa. O Flamengo perdeu? A culpa é da Dilma. O vocalista do Muse perdeu a voz? A culpa é da Dilma. Pensei num terceiro exemplo, mas tive um branco momentâneo. A culpa disso, evidentemente, é da Dilma.

Sempre há um ou outro justiceiro que gasta seu tempo apontando incoerências nos comentários alheios. São criaturas exóticas: leem não só os textos, como também os comentários – e ainda se dão ao trabalho de notar quando não há qualquer relação entre uma coisa e outra. Os esforços desses bravos heróis são em vão: a horda de comentaristas enfurecidos imediatamente os descartará como lacaios de algum partido político ou, pior ainda, metidos a intelectuais. Bem feito. Quem mandou gastar seu tempo lendo um texto na internet?

Comentários em redes sociais são ainda piores. Lá, não é necessário nem mesmo clicar na notícia para palpitar sobre ela. Basta ler o título do post que um amigo compartilhou e o campo de comentários estará logo abaixo, com todos os seus encantos. Eu falei em ler o título? Bobagem. Não importa o que esteja escrito lá: a culpa sempre será da Dilma. Ou seria do PSDB?

No último primeiro de abril, o site da National Public Radio (NPR) aplicou uma pegadinha impiedosa em seus leitores: publicou, no Facebook, um texto com o título “Por que a América não lê”. Centenas de pessoas comentaram o assunto. Algumas discordavam, indignadas. Outras concordavam e discorriam longamente sobre as causas desse fenômeno. O texto da notícia, que ninguém leu, explicava a piada e dizia algo como “os americanos leem, mas temos a impressão de que eles só olham o título antes de comentar”. Eu não saberia dizer precisamente o que estava escrito lá: confesso que não li o texto da NPR. Vi o link no Facebook de um ou dois amigos e decidi comentar sobre o assunto mesmo assim.

Por muito tempo acreditei que a multidão que comenta sem ler era a escória da internet. Que o mundo seria melhor se lêssemos todos os textos antes de palpitar sobre eles. Eu estava errado. Hoje penso exatamente o contrário. A enorme maioria dos textos que circulam pela internet é inútil. Os comentaristas ensandecidos simplesmente decidiram parar de perder tempo com esse tipo de bobagem. São seres mais evoluídos do que nós. Basta aplicarem em algo útil todas as horas de leitura superficial que economizam e logo dominarão o mundo.

Saber comentar sem ler é uma habilidade indispensável para ser bem sucedido no mundo digital. Se você ainda não aderiu, pare de ler agora e junte-se a nós. Seja bem-vindo ao futuro.

O próximo passo rumo à iluminação digital é aprender a não ler e não comentar.

As discussões na internet, convenhamos, nunca mudaram a opinião de ninguém. Nos meus anos menos esclarecidos, li muitos debates em seções de comentários. Nunca vi um crítico do governo terminar uma discussão com “pensando bem, acho que a culpa não é da Dilma”. Ou um ativista, após longas réplicas e tréplicas, decidir dar o braço a torcer: “diante de todos os argumentos aqui expostos, cheguei à conclusão de que #vaitercopa.” As discussões virtuais são tão dispensáveis quanto as notícias que as antecedem. Abençoado seja quem guarda sua opinião para si e cultiva o silêncio digital. É o que vou fazer agora. Até a próxima semana.

Excelente!

Os equívocos da campanha #NãoMereçoSerEstuprada

Já começo reproduzindo matéria da Folha de hoje (íntegra aqui), com alguns grifos meus:

Desde que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) assumiu, na última sexta-feira, um erro na pesquisa sobre violência contra mulher, houve um revés na campanha antiestupro difundida pelas redes sociais. Após o instituto corrigir de 65% para 26% a proporção de brasileiros que apoiam ataques a mulheres que mostram o corpo, a média diária de sites denunciados por incitação ao estupro diminuiu 98%, mostram dados da Safernet fornecidos à Folha.

A ONG monitora crimes e violações aos direitos humanos na internet em cooperação com o Ministério Público e a Polícia Federal. Nos nove dias entre a divulgação da pesquisa, em 27 de março, e a da errata, a organização recebeu 4.872 denúncias de sites pró-estupro, seis vezes mais do que o restante do mês de março. Nos últimos três dias, porém, quando o erro da pesquisa já era conhecido, a ONG recebeu só 31 queixas.

Thiago Tavares, presidente da Safernet, considera que apesar do equívoco “absurdo” do Ipea, a sociedade não deve menosprezar que um quarto dos brasileiros acha que mulheres merecem ser atacadas por seu modo de vestir. “Saímos do inacreditável [65%] para o inaceitável [26%]. A população precisa se conscientizar da necessidade de denunciar esses crimes e seus agressores” diz.

Para a especialista em pesquisas de opinião Fátima Pacheco Jordão, o erro numérico é secundário diante da repercussão da pesquisa. “A reação mostra que a sociedade e, em especial, as mulheres não acham que o problema é individual, mas sim estrutural, o que é passo muito importante para pararmos de culpabilizar as vítimas de estupro”, afirma.

Ativistas do #NãoMereçoSerEstuprada prometem continuar o movimento, que incentiva mulheres e homens a postarem fotos nas redes sociais com a mensagem da campanha. “Não tem errata que tire das mulheres o debate que se abriu. Ele continua, com as várias manifestações marcadas pelo país”, diz Nana Queiroz, criadora do movimento.

Eu não sei se estas pessoas ouvidas pela reportagem (Thiago Tavares, Fátima Pacheco Jordão, Nana Queiroz) são apenas burras, ou se estão falando essas bobagens por má-fé.

Quem menciona os números da pesquisa equivocada do IPEA e se refere aos tais 26% só pode ser muito (MUITO) burro, ou agir de má-fé. Não parece haver uma terceira via.

A pesquisa do IPEA estava TOTALMENTE ERRADA.

Totalmente.

Não sobra uma única vírgula daquela pesquisa que não merece a lata do lixo.

O ilustre Thiago Tavares, por exemplo: a reportagem escreveu que ele considera que apesar do equívoco “absurdo” do Ipea, a sociedade não deve menosprezar que um quarto dos brasileiros acha que mulheres merecem ser atacadas por seu modo de vestir. ‘Saímos do inacreditável [65%] para o inaceitável [26%]. A população precisa se conscientizar da necessidade de denunciar esses crimes e seus agressores’ diz”. Não, caro Thiago. Não é nada disso.

Deixa eu explicar de forma didática pra você.

O IPEA não perguntou se uma mulher DEVE/MERECE ser ESTUPRADA por causa das roupas que ela usa. A pergunta foi mal feita, e, portanto, é incapaz de auferir qual o percentual da amostra que concorda com essa afirmação. Esses 26% não significam NADA.

ENTENDEU OU DEVO DESENHAR?

f295174shrek4401ee4

Como se não bastasse, o IPEA errou miseravelmente no cálculo da amostra.

NENHUM número produzido por esta pesquisa ridícula pode ser usado para generalizar qualquer conclusão sobre a população brasileira como um todo.

Como a dona Fátima Pacheco Jordão enfiou um “culpabilizar” na sua declaração, nem vou perder tempo comentando. Uma palavrinha dessas já demostra o nível intelectual (zero) da pessoa. Pior: foi caracterizada como “especialista em pesquisa de opinião” – mas está lá, “comentando” uma pesquisa furada.

Por seu turno, a terceira citação, da dona Nana Queiroz, é apenas inócua, vazia. Ela tem todo o direito de fazer a campanha que ela quiser enquanto (ainda) vivemos numa democracia (a despeito do PT). Isso não significa, todavia, que este movimento tenha QI acima de 2.

Estupro é crime, e deve ser punido sempre, no máximo rigor da lei.

Mas a campanha da dona Nana é burra. Não apenas por apoiar-se em premissas totalmente erradas (a equivocada e furadíssima pesquisa do IPEA), mas por não promover nada de novo. Dizer que a mulher não tem culpa pelo estupro é enaltecer o óbvio. É como dizer que o Sol é quente, que a chuva é molhada, que o PT é corruPTo ou que a Dilma é incomPTente.

E daí?

Finalmente, o mais importante. A tema central da reportagem é a queda das denúncias feitas à ONG.

Dizer que as denúncias deixaram de ser feitas POR CAUSA da correção da pesquisa do IPEA? A questão é que a pesquisa perdeu completamente a credibilidade (exceto para os muito muito burros ou para os de má-fé), e, com isso, muita gente que estava impressionada com os números “alarmantes” recobrou o bom senso.

Assim que foi divulgada a pesquisa do IPEA, houve histeria em massa. Depois, quando ficou demonstrado que estava tudo errado, as pessoas voltaram ao normal.

Mais uma razão pela qual a tal campanha da dona Nana é burra – porque apoiada num factóide derivado da histeria coletiva.